domingo, 25 de setembro de 2011

Notas de Aula: signos e mitologias, na semiologia estrutural de Roland Barthes

Queridos,

Seguem abaixo as notas da última aula, sobre a gênese do programa de pesquisas semiológicas, na letra de Roland Barthes, no início dos anos 60 do século passado. Na próxima aula, veremos como este mesmo programa é avaliado, na perspectiva de Umberto Eco, o que deve fechar esta unidade introdutória sobre as relações entre significação, cultura e comunicação. Nos vemos na quarta-feira.

Ad,

Benjamim


Introdução a Semiótica – GEC 107
Aula nº 3 – 21/09/2011
Das mitologias à ideologia como estratégia sígnica: a semiologia de Roland Barthes

1. Sabemos agora que a recepção dos princípios de uma teoria da significação no ultimo século se deu com muito mais força (ao menos nas ciências humanas) naquelas disciplinas em que a noção de comunicação que estava em jogo era precisamente uma que valorizava esse aspecto de integração entre a ordem da compreensão e da interpretação e a admissão de uma estruturação interna das formas textuais ou enunciativas (em termos, uma concepção da interpretação que tinha por objeto as formas estruturadas do discurso textual): do ponto de vista das disciplinas envolvidas neste processo de assimilação das ciências da linguagem, foi o campo da crítica e da teoria literárias que assimilou com mais força os instrumentais analíticos que certos ramos da linguística pareceram sistematizar, a partir do final do século XIX.

2. Isto tudo devidamente considerado, devemos ainda levar em conta que a abordagem semiológica não se constitui, entretanto, com sua força mesma, no conjunto das teorias da cultura, apenas por ser um prolongamento mais possante da análise de manifestações literárias, muito pelo contrário: se a teoria dos signos teve um valor próprio para as ciências humanas no último século, em geral, isto não decorreu apenas de seus atributos heurísticos inererentes, mas também pelo fato de que suscitou às humanidades o reconhecimento de uma ordem de fenômenos igualmente nova, e para a qual as ciências humanas haviam reservado senao uma atitude de suspeita; em termos, já vimos antes que o valor das teorias da significação não tem apenas fundamento teórico, mas sobretudo empírico.

3. Toda uma nova ordem de fenômenos característicos da cultura da modernidade passam a receber uma atenção devida, a partir de instrumentais que os valorizam como constituintes do tecido cultural e como fundadas em regras de um sistema de significações: se as relações sociais básicas, se os princípios econômicos da troca de bens, se as manifestações de uma cultura erudita, se todos estes segmentos da vida espiritual podem ser explanados pelos princípios de uma teoria dos signos (como reclamam Eco e Kristeva), ora também as manifestações mais comezinhas da experiência moderna (o cinema, a canção ligeira, as imagens do jornalismo e da publicidade, dentre tantas outras) também mereceriam a atenção de um olhar analítico, que fosse capaz de deslindar em cada uma delas sua porção de determinação por um sistema de significações, garantido que são fatos de comunicação e dados de uma cultura humana.

4. Voltemos, entretanto, ao problema das relações entre a comunicação e a significação: esta idéia da correlação entre uma ocorrência comunicacional e um sistema de significações que lhe é inerente, não é estranha a um autor como Roland Barthes, por exemplo; no início de seus Éléments de Sémiologie, ele faz indicações sobre a importância e alcance filosóficos que a noção de “solidariedade sistêmica” entre Língua e Fala poderia ter, numa direção distinta daquela postulada pela Lingüística Estrutural de Saussure (isto tudo remete a estas duas noções centrais da Lingüística Estrutural, e que podem ser recobradas no cap. 3 da Introdução do Cours de Linguistique Générale).

5. No caso da linguística, estas duas noções são postuladas para tratar de fenômenos exclusivamente ligados às manifestações verbais (o que poderemos explicitar com mais vagar, quando estivermos imersos nas tramas da conceituação do signo linguístico), ao passo que na semiologia barthesiana, elas permitiriam a assimilação de certos fatos que, ao menos em seu primeiro nível de apresentação, não parecem demarcados de uma origem lingüística: os ritos, a etiqueta, a sinalética, o vestuário, a gastronomia, nenhum desses fatos se constitui enquanto manifestação característica de um gênero de comunicação que pudesse ser restituído à matriz da língua; entretanto, eles estruturam-se, em última análise, sobre o mesmo tipo de princípios que caracterizam os fenômenos da linguagem articulada (segundo Barthes, mesmo estes fenômenos perpassam-se do que ele chama de uma essencial “linguisticidade”).

6. Decerto que, entre os anos 50 e 70, a inspiração do estruturalismo linguístico, de origem saussureana e jakobsoniana (e cujo fundamento remonta ao modo como estes autores firmaram a questão do princípio de diferenciação diacrítica do sentido, na base dos estudos fonológicos da linguagem), instituiu-se (primeiro no ambiente intelectual francês, depois no resto do mundo) como uma verdadeira corrente filosófica que inspirou variados campos das humanidades (entre eles, as teorias da comunicação), e firmando uma verdadeira tradição e uma certa escolástica dos discursos sobre a linguagem e a significação. Em boa medida, a razão deste sucesso está precisamente na operação que Barthes, por exemplo, propõe, quando sugere não apenas expandir o alcance das categorias linguísticas, mas sobretudo estabelecer que nenehuma análise semiológica poderá ir além do limite eminentemente linguístico de sua estruturação.

    “Saussure, retomado pelos principais semiólogos, pensava que a linguistica era apenas uma parte da ciência geral dos signos. Ora, não é absolutamente certo que existam, na vida social de nosso tempo, outros sistemas de signos de certa amplitude, além da linguagem humana. A semiologia só se ocupou até agora, de códigos de interesse irrisório, como o código rodoviário; logo que passamos a conjuntos dotados de uma verdadeira profundidade sociológica, deparamos novamente com a linguagem. Objetos, imagens, comportamentos podem significar, claro está, e o fazem abundantemente, mas nunca de maneira autônoma; qualquer sistema semiológica repassa-se de linguagem. Cf. Barthes, R. “Introdução”. In: Elementos de Semiologia: p. 11,12.

7. Os textos de Barthes e de Kristeva aqui examinados representam, exatamente neste sentido, uma espécie de programa de expansão (com implicações por vezes imperialistas) dos ensinamentos estruturalistas, de modo a justificar sobre suas bases (e, em especial, dado o caráter mais fortemente normativo e institcional do sistema linguístico) a pertinência de um discurso sobre a significação e a linguagem articulada, em domínios extra-linguísticos: no período em que foram escritos (ambos no decorrer dos anos 60), poder-se-ia imaginar que o grau de formalização e refinamento conceitual alcançado pelas disciplinas da linguagem (em especial a fonologia) e impulsionado finalmente pelo modelo estrutural da antropologia de Levi-Strauss, tornara interditado à interrogação sobre os fenômenos da significação qualquer aspecto que não pudesse visá-los como problemas de natureza estrutural (a saber, como sediados em última instância, no sistema da lingua). Deste modo, é que os dois textos parecem enunciar os conceitos de “língua” e de “estrutura” (ambos tomados enquanto sistema de valores e de funções simbólicas abstratas) como uma espécie de “grau zero” de toda investigação semiológica.


Entrevista de Claude Levi-Strauss (parte 2) – Canal Arte (1972)


Entrevista de Claude Levi-Strauss (parte 3) – Canal Arte (1972)

8. Mas é igualmente notável que este percurso que conduziu as investigações semióticas para dentro do campo dos fenômenos humanos (e mais especialmente da comunicação) tenha se manifestado em autores que não possuíam uma preocupação inicial evidente com este universo de problemas: e, neste aspecto, o caso de Barthes representa um curioso fenômeno de deriva temática, que caracteriza o modo como a comunicação acabou por emergir enquanto problema associado à gênese de uma disciplina semiológica (isto é, a origem da semiótica enquanto modelo ou método).

9. A questão de um saber semiótico parece emergir no contexto do refinamento de certas ferramentas da crítica cultural (no campo da literatura e no das artes), mas que parece reclamar igualmente o universo discursivo das comunicações de massa, como uma instância para o exame crítico das práticas culturais, em geral. Assim sendo, a relação entre significação e comunicação (que é sempre argumenatda como fundamento da pertinência dos estudos smeióticos pels disciplinas da comunicação) revela, como já destacamos anteriormente, uma faceta que é mais empírica do que propriamente teórica. É o que veremos a seguir.

10. No caso de Barthes, seus primeiros movimentos na direção da semiologia podem ser identificados com os exercícios estilísticos de crítica ligeira de atualidades culturais, originalmente escritos, entre 1954 e 1955, para a revista Lettres Nouvelles, de Maurice Nadeau, e que logo aparecerão sob a forma de livro em Mythologies, publicado em 1956. Até este ponto, Barthes houvera se estabelecido, no contexto cultural francês, como um crítico literário, devotado especialmente à interrogação sobre a atividade mesma da escritura, no campo literário e teatral; seus textos anteriores à Mythologies são, em geral, comentários à produção literária francesa (em geral, atendendo a encomendas de editores), ou ainda textos dedicados a problemas teóricos de análise do estilo ou da escritura literária, na sua relação com a história (é o caso de seu primeiro grande sucesso, Le Degrée Zero de l’Écriture, de 1953).

11. No caso desse turno semiológico, podemos identificar alguns de seus aspectos, no percurso mesmo de sua crítica literária pregressa de Barthes. Por exemplo, a noção de crítica da “ideologia pequeno-burguesa”, em Mythologies, e o papel que ela desempenha anteriormente na caracterização que Barthes faz de Jules Michelet (assim como em Balzac, e também em Sartre): essa idéia define uma espécie de enquadramento crítico de toda escritura (e que confere às obras literárias um certo aspecto de exame dos valores sociais predominantes). A identificação dos valores pequeno-burgueses com “cultura da mediocridade” conferirá ao exame das “pequenas mitologias” a que se dedica Barthes, em seu primeiro livro de semiologia, uma espécie de quadro de referências do qual se originam muitas destas manifestações (o “catch”, o cinema, o automóvel, a publicidade).

Barthes, Roland, “Mythologies”, In: Lecture pour Tous (1956)

12. Oferecemos, em seguida, comentários a algumas das passagens desta entrevista de Barthes ao programa Lecture pour Tous, da televisão francesa (em 1956): ao apresentar as dificuldades de uma introdução aos temas principais da obra Mythologies, o entrevistador pergunta a seu autor, Roland Barthes, como se pode definir este trabalho; Barthes responde, manifestando igual embaraço neste esforço de definição, dizendo tratar-se de uma coleção de materiais de análise de produtos ou mitologias da vida moderna, sendo o todo do trabalho coroado por uma certa reflexão teórica sobre o que constituiria a matéria do mito, nos dias de hoje; o entrevistador destaca, na entrevista, o caráter deste inventário de fenômenos escolhidos por Barthes para seu trabalho de análise, destacando neles o caráter de familiaridade da experiência cultural de nossos dias (a publicidade, o catch que se vê na televisão, o abade Pierre do qual se fala nos jornais), todos eles atravessados por esta idéia de que constituem segmentos de um mito que atravessa nossa vida cotidiana;

13. Avançando o exame dos fenômenos analisados por Barthes, o entrevistador o questiona sobre o que faz do catch um elemento da mitologia moderna, se este decorreria do sucesso deste fenômeno junto a seu público; Barthes concorda, destacando que ele mesmo é um freqüentador de espetáculos deste tipo, e que sempre o surpreendeu que esta forma cultural (que assume o disfarce de uma prática esportiva) se correlacionava muito intensamente com certos aspectos da comedia dell’arte: uma espécie de roteiro sobre o qual o lutador improvisa uma série de episódios (os atos da luta contra seu oponente, propriamente dito); mais importante, o fato de que estes episódios assumem uma dimensão predominantemente moral, mais que dramática ou propriamente esportiva, mimetizando certas figuras fundamentais do sentido e do resultado do combate, com suas figuras de justiça, derrota, triunfo, suplício e, sobretudo num contexto pequeno-burguês mais recente, a idéia do “pagamento” (“ele tem que pagar”, é o que gritam certos espectadores do catch, quando um vilão é derrotado no ringue).

14. Quanto ao mito do abade Pierre, Barthes se interessa pela manifestação iconográfica de sua presença, como dado mais importante dos discursos e das narrativas em seu entorno: as fotografias do religioso que se divulgam aqui e ali, em contextos variados, mobilizam sistematicamente um certo conjunto de significados e de conteúdos sobre a religiosidade e sobre o franciscanismo, em particular; o cabelo, a batina, a bengala, todos estes elementos da presença visual do abade são manifestos como dados que significam àquele que subscreve sua fé a substância de uma legenda, de uma incorporação mais material do mito religioso da entrega e do sacrifício piedoso e da santidade;

15. Nestes termos, as manifestações do espetáculos das comunicações de massa são assumidas, aqui, como uma espécie de sucedâneo (de substituto mais recente e visível) dos valores pequeno-burgueses, que tanto repugnavam a Balzac, no século XIX, e a Sartre, no último século: são, em suma, o universo de reprodução de um mundo cultural que pretende se universalizar e se estabelecer como princípio natural das coisas (e ao qual o comentário cultural procura fazer uma mais forte resistência. 

“Existe ainda gente para quem a greve é um escândalo: isto é, não só um erro, uma desordem ou um delito, mas também um crime moral, uma ação inntolerável que perturba a própria natureza. Inadmissível, escandalosa, revoltante, dizem alguns leitores do Figaro, comentando uma greve recente (…). Neste caso, o escândalo provém de um ilogismo: a greve é escandalosa porque incomoda aqueles a quem ela não diz respeito”. Cf. Barthes, R. “O Utente da greve”. In: Mythologies: pp. 82,83.

16. Outro aspecto nada desprezível desta virada em direção à comunicação, em Barthes, decorre do fato de que vemos aqui (talvez, pela primeira vez) o emprego de um método novo, em termos de crítica cultural: portanto, não apenas a introdução de um universo empírico diverso (o das comunicações de massa), mas também uma nova ordem de teorias, de repertórios conceituais e de formas de aproximação para a análise deste campo de fenômenos. Quando de uma nova edição de Mythologies, em 1970, Barthes faz questão de escrever um posfácio a seu livro, explicitando este aspecto de sua novidade metodológica: sobretudo, ele destaca o valor das teorias semiológicas, em relação aos modos de aproximação à ordem dos fenômenos culturais (sobretudo naquilo que neles se exprime enquanto valor ideológico).

“O leitor encontrará nele dois propósitos: realizar, por um lado, uma crítica ideológica da cultura dita de massa, por outro lado uma desmontagem semiológica desta linguagem: eu acabara de ler Saussure, e ficara com a convicção de que, tratando as “representações coletivas” como sistemas de signos, seria talvez possível sair da denúncia piedosa e revelar em detalhe a mistificação que transforma a cultura pequeno-burguesa em natureza universal.” Cf. Barthes, R. “Posfácio”. In: Mitologias: p. 181.

17. No período entre a primeira edição de Mythologies e a aparição dos Élements de Sémiologie (isto é, entre 1957 e 1963), Barthes vive aquilo a que chamará em retrospecto (em várias das recapitulações que é chamado a fazer sobre seu percurso intellectual) de uma “embriaguez metodológica”: este é o período em que se vê surgir, com toda força, o assim chamado método estrutural em semiologia, isto é, o amadurecimento da análise semiológica, em termos teóricos, metodológicos e empíricos mais sólidos e inclusive programáticos.

Leituras recomendadas:
Barthes, Roland. “Introdução’ e “Língua/Fala”. In: Elementos de Semiologia;
Barthes, Roland. " O mito, hoje". In: Mitologias;

Próximas Leituras:
Eco, Umberto. “O universo dos sinais” e " O universo do sentido". In: A Estrutura Ausente.

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