domingo, 18 de setembro de 2011

Notas de Aula: sentido e comunicação, em sentido lato e estrito

Queridos,

Seguem abaixo as notas da última sessão, sobre as relações entre o estudo dos signos e o conceito de comunicação: melhor dizendo, sobre como é que os fenômenos e processos comunicacionais podem ser instâncias de um exame sobre os processos de significação. Ao fim destas notas, faço indicações para as leituras das próximas sessões do curso.

Ad,

Benjamim


Introdução a Semiótica (GEC 107)
Aula no 2 (14/09/2011)
Da Comunicação e do sentido, em sentido lato e estrito

1. Já vimos até aqui a importância que a atenção conferida aos sistemas de significação assume para a abordagem de fenômenos atribuídos ao campo cultural, no modo como Umberto Eco e Julia Kristeva abordam (nos modos que lhe são próprios) os “limites naturais” de uma teoria semiótica: entretanto, especialmente no caso de Eco, a dimensão comunicacional dos fenômenos culturais é concebida numa latitude um pouco mais extensa, para incorporar fatos que, em geral, não são usualmente identificados com o universo da comunicação.

2. Grosso modo, quando consideramos a dimensão comunicacional de fenômenos como a transmissão parental, a troca econômica de bens ou o uso instrumental de objetos da natureza, não assimilamos necessariamente o que é do quinhão da comunicação nesses processos ao universo da expressão e compreensão de mensagens: em cada um desses casos predomina, ao invés, a noção de que trata-se de ocorrências de um costume humano, cujo fundamento é a existência de sistemas de regras que são, por sua vez, sistemas de signos (ou, ao menos, assumidos na sua similaridade com tais sistemas, como é o caso da relação do parentesco com a linguagem, em Levi-Strauss), e que estão na base de qualquer coisa que assumamos enquanto dado cultural.

3. O valor heurístico da semiótica não está, nesses casos, associado ao fato de que, sendo fenômenos de comunicação, devam ser, por exemplo, assimilados a enunciados mas, ao invés disto, que por se constituírem em fatos de cultura, têm seu sentido mesmo determinado por uma regra ou por um sistema. O conceito de comunicação decerto importa para as teorias da significação e da interpretação (fato de resto óbvio, pois a comunicação se institui em um horizonte partilhado de sentidos), mas podemos dizer que seu valor é menos importante para as teorias semióticas (e para as disciplinas do sentido em geral) do que se costuma supor. Nestes termos, devemos ter cuidado em raciocinar sobre a pertinência destas teorias no contexto dos estudos comunicacionais, condicionando-a a uma hipotética assimilação de seus conceitos e objetos ao universo das teorias da comunicação. Em termos, a semiótica é uma disciplina da compreensão e da interpretação, que são fenômenos claramente subjacentes à comunicação.

4. Antes de explorarmos determinadas alternativas desse tipo de concepção sobre os processos e fenômenos comuicacionais que nos são mais familiares, proponho que nos entretamos nesta pequena “aventura semiótica”, que nos foi certa vez proposta por um eminente pensador bolonhês:

·       “Premissa”, in: O Signo, de Umberto Eco

5. Quando examinamos com atenção aquelas etapas do processo pelo qual o Sr. Sigma, de Umberto Eco, dá conta de seu mal-estar e busca localizar um medico para com ele consultar-se, enfrentando em cada segmento deste percurso os obstáculos de um mundo que se revela ao sujeito na condição de algo que deve ser cogitado, interpretado e, em última instância, decifrado resolutamente, de tudo isto podemos inferir (com os devidos riscos de incorrermos no temido “imperialismo teórico” lembrado pelo próprio Eco) que a comunicação é uma espécie de tecido constitutivo de nossa existência, enquanto seres culturais.

6. No texto de Ugo Volli, que serve de condutor a esta exposição, propõe-se igualmente algo como a impossibilidade da incomunicação: assim sendo, diante de tudo aquilo que, para o horizonte de nossa experiência, manifesta-se com sentido, não há como ignorarmos a essencial comuicabilidade do mundo, quando ele passa pelo filtro da experiência. Há que se notar, em primeiro lugar que a comunicação, assim entendida, é um efeito de superfície de um fenômeno mais grave e importante: não é que o mundo se comunique a nós, por sua própria graça ou força, mas o fato de que esta transparência do mundo é o resultado de algo a que podemos chamar de uma “positividade do sentido ou significação”. Enfim, é porque sentido que as coisas comunicam (mesmo aquelas que estão na natureza, mesmo aquelas que são inertes e até mesmo as que sequer existem). E é importante ressaltar que esta capacidade não nos deve fazer pensar numa auto-reflexividade do mundo: a comunicabilidade é efeito do sentido, mas a origem do sentido não está nas coisas que fazem sentido (esta é inclusive a razão porque digo “as coisas comunicam” e não “as coisas se comunicam” ou “se fazem comunicar”).

7. Ora, nestes termos, podemos desde já estabelecer que, ao menos de um ponto de vista mais remoto, as teorias semióticas trabalham o conceito de comunicação a partir de sua assimilação à ordem do sentido: a impossibilidade de não comunicar implica a necesidade do sentido. Será este o fim da história? Evidentemente que não: por um lado, precisamos definir com exatidão o que quer dizer esta subscrição do comunicável ao sensato ou ao significativo, pois poderíamos estar apenas apondo termos uns sobre os outros, sem resolver questão de como a comunicação pode ser semioticamente abordada; por outro lado, subscrever pura e simplesmente a comunicação ao sentido tem o efeito contrario do desejado (esvazia precisamente o conceito de comunicação e não nos permite esclarecer em que sentido a semiótica tem algum concernimento com os fenômenos e processos de nosso campo).

8. Como já sugerimos um pouco mais acima, um modo possível de dimensionar a pertinência das teorias semióticas para a comunicação, é o de colocar a questão do partilhamento intersubjetivo do sentido (e sua relação necessária com a dimensão interpretativa de todo fenômeno de  significação) como uma componente essencial de nossos modos de compreender a realidade. Assim definida a pertinência dos saberes semióticos (pelo viés das mútuas implicações entre significação, compreensão e interpretação), é necessário que vinculemos a realidade do sentido à sua essencial comunicabilidade, às necessárias partilha e expressividade que marcam todo e qualquer ato de compreensão de nossa parte: somente tem significação aquilo que pode ser compartilhado através de uma expressão, seja de que ordem esta for (lingüística, gestual, comportamental, imagética, inter alia).

9. Há vários aspectos daquilo que faz o sentido das coisas acarretar o sentido comunicacional com que elas nos aparecem: no texto de Volli, um destes caracteres se define no âmbito das relações que estabelecemos para as coisas, quando elas se manifestam a nós com sentido (o sinal luminoso que indica a conduta que eu devo assumir; o cheiro familiar que dispara no espírito o movimento da distensão temporal da memoria; os sons musicais que suscitam uma elevação estética, não-ordinária, de nossa escuta). As manifestações do sentido têm uma dimensão comunicacional, em primeiro lugar, por infundirem na mente daquele que se confronta com elas as relações que são o fundamento de sua significação (se fazem sentido, é porque são signos, portanto, não são coisas que bastem-se em si mesmas, mas que estão necessariamente para outras coisas ou idéias, definem-se pelo princípio do aliquid pro aliquo).

“Aquela forma vermelha ali, por exemplo, é um carro; move-se em determinada direção, está para dobrar à esquerda, no entanto, situa-se na parte central do trânsito. Uma luz amarelada lampejante indica a intenção do motorista (que está lá, presumo, ainda que não o vislumbre) de dobrar a esquerda. Aqui, porem, este ruído é o tocar do telefone, que sei usar de determinada maneira não só técnica, mas também interpessoal (de dia, não à noite, com pessoas conhecidas e não casualmente, para dizer alguma coisa e não para cantar, etc.). De acordo com o momento, o seu tocar me dá alegria, angústia, surpresa, tédio. Tem sentido para mim porque me insere num contexto de relações interpessoais. O cheiro que sinto é alimento, vem da minha cozinha: sentido de casa. Aquele objeto negro é um guarda-chuva, se alguém o tem nas mãos quer dizer que está chuvendo. Aquela pessoa tem um sorriso cansado, é jovem, tem jeito de estudante, pela sua atitude sei que quer falar comigo. Vejo uma fumaça lá longe e compreendo que deve haver um incêndio em algum lugar.” Volli, Ugo. “Comunicação”, p. 17.

10. E isto é tudo? Novamente, não: pois se a relação entre ter sentido e comunicar se resolvesse no caráter eminentemente relacional da significação, estaríamos falando de um sentido muito pobre de comunicação (a rigor, como já destacamos acima, este seria apenas um sentido primário de comuncação, no limite mesmo, nem estaríamos falando dele, mas apenas de suas condições de possibilidade). Nestes termos, o fato de que compreendemos o mundo combinando seus segmentos mediante variados critérios de sua correlação possível (por semelhança ou oposição, por contigüidade ou por enumeração, dentre tantos outros) responde apenas ao princípio pelo qual podemos determinar a estrutura do próprio sentido, que é da ordem da relação significativa. A comunicação, em seu sentido mais importante (geral e específico), permanece fora do alcance desta interrogação.

11. Como fazer para que o conceito de comunicação finalmente se manifeste como a consequência de uma concepção semiótica sobre a tessitura do sentido? Neste caso, precisamos nos interrogar sobre as condições em que o mundo se manifesta significativamente ou sensatamente para alguém: é evidente que (ao menos numa perspectiva mais radicalmente fenomenológica), a emergencia do sentido parece vir associada a uma radical negatividade, com respeito a tudo aquilo que é da ordem do instituído, do convencional, do culturalizado; é neste contexto que se fala tão frequentemente no fenômeno do sentido como associado a uma certa abertura diferencial, que caracterizaria os modos de significação de inteiras regiões da expressão poética e artística, por exemplo. O modo de endereçamento próprio ao discurso da arte não deve supor, a não ser sob condições muito específicas, a concorrência de uma regra da interpretação, como chave condutora do sentido mesmo das obras.

http://www.youtube.com/watch?v=9_vYz4nQUcs
Martin Heidegger, “A linguagem da comunicação e a linguagem poética” (1953)

12. No texto de Volli, esta necessidade de conferir um lugar específico da comunicação, numa abordagem semiótica de suas manifestações, parece instaurar um limite intransponível entre os regimes de nossa compreensão do mundo (grosso modo, o fato de atribuímos sentido às coisas a partir do instante mesmo em que as percebemos) e as estruturas que mobilizamos para exprimir esta mesma compreensão (que constituiria o lugar próprio da comunicação, por assim dizer): uma tal concepção do que é próprio à comunicação acaba por abordar o problema de modo parcial, mais uma vez; nesta perspectiva, os fenômenos comunicacionais são abordados em seu aspecto mais ativo de manifestação, o que permite isolar a “autêntica” comunicação daquela que caracteriza a estrutura conceitual de nosso contato sensorial com o mundo. Mas, aqui, mais uma vez, sacrificamos o fenômeno da comunicação, em nome de sua suposta “pureza” ontológica.

“Por que tartar juntamente os processos da autêntica comunicação e de significação sob o nome comum da comunicação? Nos estudos sobre este assunto, a palavra comunicação foi usada de modo ambíguo, e é melhor respeitar este uso, para não provocar uma posterior confusão. No entanto, existem duas razões substanciais. Em primeiro lugar, os mecanismos que tornam possível a comunicação autêntica são caracterizados pela lógica da significação. Para que o objeto que é transmitido do emissor ao destinatário possa realizar a sua função, tem que parecer significativo. Em segundo lugar, é com frequência fácil, e em geral bastante comum, trabalhar no aspecto de uma coisa ou de uma pessoa, manipular, em suma, a sua significação, de modo a alcançar determinados efeitos comunicativos. Assim, podemos produzir a comunicação modificando a significação de um objeto (…). De modo geral, é até possível pensar toda a comunicação como uma complexa manipulação do ambiente operada por alguém (o emissor) interessado em fazer com que algum outro (o destinatário) perceba um certo sentido. Os fenômenos semióticos da comunicação e da significação, em suma, se cruzam densamente, e geralmente se contêm um ao outro em diferentes níveis.” Volli, U. “Comunicação”: p. 19, 20.

13. Em termos, a questão sobre a abordagem semiótica da comunicação não deve identificar-se com aquilo que é próprio à sua dimensão mais expressiva, mas também explorar o que esta face ativa de nossa compreensão (o fato de que falamos, percebemos e agimos sobre e a partir daquilo que faz sentido para nós) tem em comum com o fato de que, mesmo emudecidos, continuamos a existir dentro desta mesma legislação da significação: o que há de comum, enfim, entre simplesmente perceber as coisas “como são” e falar destes dados existenciais, através das formas do discurso? Que continuidade pode-se conceber entre sentir um mal-estar e descrevê-lo, em alguns de seus aspectos, a alguém a quem buscamos, para nosso socorro? O que há, enfim, de filosoficamente interessante em pensarmos sobre o fato de que uma obra de arte quer dizer alguma coisa, muito embora sua significação não se exprima materialmente numa forma absolutamente convencional ou previamente instituída e acordada intersubjetivamente?

14. Em todas estas questões, podemos entrever que há um sentido genericamente comunicacional que habita a ordem do sentido, mesmo quando não empregamos o discurso e a expressão para dele darmos conta. De maneira simples, podemos supor que isto se dá porque a comunicação de que podemos falar teoricamente (numa perspectiva semiótica, ao menos) é antecedente, por exemplo, ao advento da linguagem natural na qual empregamos muitas destas expressões. Numa abordagem mais genérica do conceito de comunicação que é privilegiada pelas teorias semióticas, pode-se dizer que exprime-se também um sentido mais radical e fundamental do conceito de comunicação.

15. A comunicação seria a condição dc possibilidade pela qual a mais privativa das experiências não se deixa enclausurar numa absoluta interioridade psicológica e individual, uma vez que é investida de sentido, por aquele que a vivencia: uma sensação, uma emoção, uma paixão, são necessariamente vivenciadas no horizonte de uma compreensão outra e é aqui que se manifesta aquilo que, para tantos quantos escrevem sobre estes fenômenos, caracteriza a indissociabilidade entre significação e comunicação.

Referências Bibliográficas:
Eco, Umberto. “Premissa”. In: O Signo;
Volli, Ugo. “Comunicação”. In: Manual de Semiótica.

Próximas leituras:
Barthes, Roland. “Introdução” e “Língua/fala”. In: Elementos de Semiologia;


Barthes, Roland. “O Mito, hoje”. In: Mitologias.

Nenhum comentário:

Postar um comentário