quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Avaliação-1a Unidade

Queridos,

Seguem abaixo as questões referentes às primeiras unidades do curso (o estudo dos signos e a lógica da cultura e as relações entre significação e comunicação). Prestem atenção nas instruções para o preenchimento das respostas, consultando-me em caso de ainda persistirem dúvidas. A data para a entrega das respostas é a próxima quarta-feira, dia 05/10 e podem ser enviadas a mim pelo e-mail (no endereço seguinte: jbpicado@hotmail.com).

Boa sorte,

Benjamim



UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
INSTITUTO DE ARTES E COMUNICAÇÃO SOCIAL
DEPARTAMENTO DE ESTUDOS CULTURAIS E MÍDIA

Disciplina: Introdução a Semiótica (GEC 107)
Professor: Benjamim Picado
Horário: 4as, de 18 às 21:00
Local: Sala C-220

AVALIAÇÃO PARCIAL

Modo de Usar: Vc. deve responder ao menos uma questão de cada unidade do curso (na escolha das questões, dê preferência a responder uma de teor mais teórico e a outra, de teor mais analítico). Para o correto tratamento das questões da prova, utilize sua própria capacidade de argumentação, procurando exercitar certo distanciamento com respeito ao modo de exposição das idéias dos textos centrais da unidade (por exemplo, dê preferência às paráfrases em oposição à transcrição literal dos textos, a não ser nos casos estritamente necessários). No que respeita a compreensão dos itens da unidade, valorize um tratamento mais esquemático das idéias mais importantes, prestando sempre atenção naquilo que é especificamente solicitado em cada questão. Nas perguntas de teor mais analítico (de exame de objetos), procure correlacionar os dois domínios requisitados (o da compreensão dos textos de base e o do exercício da análise dos materiais propostos).

1a Unidade: o estudo dos signos e a “lógica da cultura”

1. Discorra breve mas suficientemente sobre as relações entre o estudo dos signos e o universo dos fenômenos culturais, procurando articular em sua argumentação as leituras dos textos de Umberto Eco, Iuri Lotman e Julia Kristeva.

2. Considere a seguinte matéria, publicada no caderno “Ciência”, do jornal diário Folha de São Paulo, de 09/03/2011 (para lê-la na íntegra, basta clicar o link logo abaixo):


Tendo em vista o assunto da reportagem em questão, como vc. avaliaria a questão do desenvolvimento de habilidades instrumentais no trato com a natureza, por parte do reino animal, à luz das teses manifestas nos textos de base da unidade, especialmente tendo em conta uma concepção antropológica da cultura, visada pelos estudos semióticos?

2a Unidade: a Semiótica no contexto das disciplinas da comunicação

3. Considere a seguinte passagem do texto « Comunicação », de Ugo Volli (in : Manual de Semiótica, p. 18,19) : 

« Quando imaginamos uma comunicação, normalmente não pensamos em situações tão elementares como entender a direção do movimento de um carro, deduzir o tempo que faz pela cor do céu ou identificar um cão por certa imagem colorida em nosso campo visual. Referimo-nos, ao invés disto, a atividades como enviar uma carta, fazer publicidade, gritar alguma coisa a alguem, narrar uma historia (…). É claro que a significação da qual falamos no paragrafo anterior não é um fennomeno do mesmo tipo que uma autêntica comunicação. Neste caso, não existe um emissor que nos envia uma mensagem de céu nublado para fazer-nos prever chuva ; o rapaz que encontramos não está procurando parecer um estudante (simplesmente tem um jeito de estudante), os exantemas do sarampo não nos são enviados pelo virus da doença como uma espécie de carta para informar-nos, mas são uma desagradável consequência biológica de sua presença em nosso corpo, que o médico é capaz de interpretar ». 

Considerando a distinção proposta nesta passagem, entre as noções de «comunicação» e «significação», como vc. correlacionaria cada uma destas noções com os modelos da pesquisa semiológica e semiótica, em Umberto Eco e Roland Barthes ? 

4. Considere o seguinte segmento de matéria publicada no caderno “Poder”, do jornal Folha de São Paulo, de 27/04/2011 (para ler o artigo, acesse o link abaixo): 


Procure analisar o texto desta matéria, tendo em vista os procedimentos de conotação que ele mobiliza, no modo como Roland Barthes elabora sua estrutura, no capítulo «Língua/Fala», de Elementos de Semiologia, assim como Umberto Eco, em “O universo do sentido”, capítulo de A Estrutura Ausente.


Referências Bibliográficas :
BARTHES, Roland. « Introdução » e « Língua/Fala ». In : Elementos de Semiologia ;
ECO, Umberto. « Introdução : rumo a uma lógica da cultura ». In : Tratado Geral de Semiótica ;
ECO, Umberto. « O universo dos sinais » e « O universo do sentido ». In : A Estrutura Ausente ;
KRISTEVA, Julia. « A sémiotica ». In : A História da Linguagem ;
LOTMAN, Iuri. « Sobre o problema da tipologia da cultura ». In : Semiótica Russa ;
VOLLI, Ugo. « Comunicação ». In : Manual de Semiótica.

Notas de Aula: dos sinais ao sentido, o programa semiótico em U.Eco

Introdução à Semiótica – GEC 107 
Aula nº 4 – 27/09/2011 
Entre os sinais e o sentido: o programa da pesquisa semiótica, em Umberto Eco

1. O percurso que conduz Umberto Eco a sua formulação mais própria de um programa de pesquisas semióticas se caracteriza, em primeira instância, por um aspecto de digressão temática que se assemelha, em parte, àquele que havia conduzido Roland Barthes ao encontro da semiologia. Mas, enquanto o caso deste parecia mais afeito às descobertas teóricas feitas por um critico literário, desdobrando-se em questões de ordem metodológica sobre os novos modos de aproximação a objetos do campo cultural, a transformação havida em Eco tinha um caráter mais epistemológico, por assim dizer. Tentemos expor as linhas gerais desta diferença.


2. Uma distinção essencial, no caso de Eco, é que o encontro com as teorias da significação afeta em cheio um determinado conjunto de problemas com os quais ele mesmo já vinha se defrontado, nas fases iniciais de sua interrogação (aquela a que certos autores se referem como sendo seu período “pré-semiótico”): com isso, queremos dizer que, muito embora haja esse dado de um entusiasmo comum de ambos com as sugestões de aporte metodológico implicadas na introdução de um saber semiológico (manifestas por expressões como da “embriaguez” ou da “virada” em direção aos signos, em cada um dos casos), os problemas teóricos dos quais se origina cada um desses movimentos não poderiam ser mais diferentes entre si. 

3. Pois enquanto Barthes se defronta com um novo programa de pesquisas, no transcurso de seu exercício continuado de uma estilística da crítica cultural, Eco chega à semiótica através de um caminho mais caracteristicamente “acadêmico”: o ponto de partida do pensador italiano se manifesta mais claramente em uma de suas primeiras obras mais conhecidas, na qual ele aborda o problema das estratégias do discurso poético da modernidade (a questão dos programas de abertura do sentido das obras de uma certa época, que ainda seria a nossa), e que inaugura uma forma de abordagem das estratégias textuais, em geral, e que as permita compreender, antes de tudo, como sistemas de significação.

4. Mas ainda entre estes dois movimentos (o da pergunta sobre uma poética da “obra aberta” e a proposição de um método semiológico, como matriz de uma crítica dos fenômenos da cultura mediática), há ainda um outro aspecto desta “virada semiótica” de Umberto Eco, sendo precisamente este aspecto que nos permite coligar (sob o signo de um relativo antagonismo), suas abordagens e aquelas que caracterizam o viés barthesiano da semiologia estrutural. É sob este ponto da empreitada semiológica de Eco que devemos começar a apresentar seu viés mais próprio de pensamento sobre as tarefas de uma teoria da significação no contexto das comunicações de massa.

5. No início daquela que é reconhecida como sua fase mais expressamente semiótica (que se cristaliza em sua primeira grande obra sobre o tópica, A Estrutura Ausente, de 1968), o programa de pesquisas que ele avança coloca em cheque, de saída, o modo com se poderia abordar a herança da lingüística estrutural, no momento mesmo em que postulava uma teoria geral da significação: pois, à época de Barthes e Eco, a idéia mesma de uma semiologia parecia trazer de arrasto, como dado de pressuposto de qualquer proposição sobre sistemas de significação, esta espécie de transcendência do lingüístico, como modelo de toda ordem do sentido; ora, no caso de Eco, esta relação é posta sob exame necessariamente crítico, já que ele questiona (desde o início mesmo de suas primeiras formulações sobre a possibilidade mesmo de uma pesquisa semiológica) a necessária vinculação de seus objetos de estudos ao patamar através dos quais a lingüística firmou as estruturas mínimas do sentido. 

6. Em sua primeira grande obra propriamente devotada às questões de método de uma pesquisa semiológica (La Struttura Assente, de 1968), Eco assume, em primeiro lugar, as tarefas deste programa de pesquisas, nos mesmos termos em que formulará, sete anos mais tarde, a questão da lógica dos processos culturais, no Tratatto de Semiótica Generale, ou seja: estudar os fenômenos culturais na condição em que os mesmo são tomados como fenômenos de comunicação. Isto dado, o que afasta a posição de Eco do restante do estruturalismo diz respeito à assimilação quase automática dos sistemas de significação subjacentes à comunicação como necessariamente materializados na forma que as teorias lingüísticas o caracterizaram (ao menos, a partir de Saussure).

“A psicologia estuda a percepção como fato de comunicação, a Genética ocupa-se com a transmissão em código dos caracteres hereditários, a Neurofissiologia explica os fenômenos sensórios como passagens de sinais de terminações nervosas periféricas à zona cortical; e essas disciplinas valem-se dos instrumentos fornecidos pela teoria matemática da informação, que nasceu para explicar fenômenos de transmissão de sinais no campo das máquinas, mas baseou-se em princípios comuns às outras disciplinas, físico-matemáticas (...). Nesse ínterim, os modelos comunicacionais passavam a ser aplicados também aos fatos sociais, ao mesmo tempo em que se verificava um encontro dos mais frutíferos entre a Lingüística Estrutural e a Teoria da Informação: daí a aplicação de modelos estruturais e informacionais ao estudo das culturais humanas, das relações de parentesco, da cozinha, da moda, dos getsos, da organização do espaço, daí por diante.”. Eco, “O universo dos sinais”: p. 3,4.

7. Neste livro fundamental, Eco retoma o modelo mais elementar da comunicação disponível até então (aquele frequentemente associado às teorias matemáticas da informação), para dele extrair o valor próprio do conceito de código, assumindo-o doravante como um “sistema de signos”: mediante esta operação de homologia conceitual, Eco pretende estabelecer que aquilo que a incidência de um código, definido como uma instância necessária dos processos comunicacionais mais elementares (em especial quando estes envolvem o condicionamento probabilístico da conduta como critério de resposta operacional, como num sistema fechado), na qual a faculdade de reação é determinada pela nível probabilístico (portanto, matematicamente previsível) da capacidade de interpretação dos sinais oferecidos pelo meio-ambiente, poder-se-ia imaginar que este termo recobriria, em princípio, a mesma ordem de problemas que a noção de “sistema de signos” permitiu descrever, para o caso da língua. Nestes termos, é que Eco propõe, de início, assimilar o conceito de código ao de estrutura.

“Ao lembrarmos a forma como Saussure distingue oportunamente a langue, como o depósito de regras no qual se baseia o falante, da parole, como o ato individual através do qual o falante usa a langue e se comunica com seus semelhantes, termos encontrado o par código-mensagem; e, à semelhança do par código-mensagem, também o par langue-parole define a oposição entre um sistema teórico (a langue não existe fisicamente, é uma abstração, um modelo criado pelo lingüista) e um fenômeno concreto (a minha mensagem de agora, a sua mensagem de resposta, e assim por diante)”. Eco, “O universo do sentido”: pp. 29,30.

8. A este propósito, entretanto, a noção de sistema de signos que Eco apreende, como fundamento de um programa de pesquisas semiológico não implica, como é o caso de Barthes, na assimilação da presumida generalidade com a qual o conceito de língua poderia ser empregada, uma vez aplicada ao universo das manifestações extra-linguísticas: ao contrário do quadro dedutivo da semiologia barthesiana, Eco prefere examinar com mais paciência a possibilidade mesma de adotar o esquema e as propriedades sistemáticas da língua, a partir de considerações sobre determinados universos empíricos de observação. Em seu caso, um dos corpora privilegiados por ele (e explorado mais extensamente, no decorrer de sua obra semiótica) é o do universo das mensagens visuais, com especial atenção aos regimes comunicacionais em que ela é encontrada, no contexto mediático (por isto mesmo é que notamos que suas observações recaem sempre em campos como os da retórica publicitária ou do emprego narrativo das imagens, como no caso do cinema).

9. Se considerarmos um especial segmento do universo dos fenômenos semiológicos, em particular (a saber, o das mensagens visuais), veremos que a possibilidade mesma de fundamentar as abordagens próprias a uma teoria da significação implicará, segundo Eco, num descarte de ao menos uma das assunções fundamentais da semiologia barthesiana, ambas oriundas da influência do estruturalismo sobre o programa das pesquisas semiológicas: é neste ponto que o vemos identificar certos aspectos da relação entre semiologia e lingüística como partes de um dogma que se propaga indesejavelmente nos fundamentos mesmos da arquitetura dos saberes sobre signos e interpretação.

10. Assim sendo, Eco reconhece que determinados limites devem se interpor à marcação heurística que os instrumentais da lingüística estrutural propiciaram à pesquisa semiológica, uma vez reconhecida a abrangência empírica do universo das mensagens visuais (envolvendo, dentre outras, a linguagem da arquitetura e a da pintura, a retórica publicitária e os símbolos heráldicos, o cinema e a gestualidade): a tão reclamada unidade da empresa semiológica deveria então decorrer do grau com o qual o campo destas investigações pudesse assumir que nem todos os fenômenos comunicacionais poderiam implicar uma estrita redutibilidade de suas ocorrências aos caracteres definidores da língua (ao menos no sentido definido pela lingüística estrutural, a partir de Saussure). 

11. Ao menos de início, Eco parece querer firmar que certos aspectos da significação das mensagens visuais não poderiam ser aludidos por uma noção forte de código (isto é, por aquela que poderia estabelecer uma relação de dependência ou de servidão entre os códigos visuais e os níveis articulatórios das línguas naturais), mas por uma componente aproximadamente estética destas mensagens.  

12. Um pouco mais tarde, veremos que a posição de Eco em relação a uma semiótica do iconismo atingirá os preceitos da semiologia, numa instância algo inesperada, que é a de suas próprias assunções sobre a natureza de constituição do signo analógico, na sua relação com o objeto referencial: ora, a semiologia de Barthes se interrompe nesta questão, para estabelecer que o significado dos ícones requisita, de uma maneira ou de outra, o concurso de saberes linguisticamente organizados (seja sob a forma dos acervos simbólicos comunicáveis através de certas técnicas culturais, seja por intermédio das estratégias discursivas, próprias ao campo retórico e narrativo, e que convertem a imagem visual à ordem dos enunciados, das descrições, dos mitos e das ficções). 

13. O campo de repercussões destas idéias iniciais de Eco sobre uma semiologia das mensagens visuais tem decerto um alcance que escapa aos limites da exposição sobre as origens da semiologia (devem ser tratadas, portanto, no âmbito de um outro universo de questões, que planejamos para breve). Por ora, o que nos interessa guardar desta exposição é aquilo a que nos dedicaremos, em seguida, ou seja: o fato de que, ao invés de nos restituir aos marcos de uma discriminação lingüística da significação, o problema da semiologia deve-se localizar nas conexões entre significação e interpretação. Este deverá ser o ponto de nossa próxima exposição.

Leitura recomendada:
Eco, Umberto. “O universo dos sinais” e “O universo do sentido”. In: A Estrutura Ausente.

Próximas Leituras: 
Guinzburg, Carlo. “Sinais: raízes de um paradigma indiciário”. In: Mitos, Emblemas, Sinais;
Volli, Ugo. "Interpretação". In: Manual de Semiótica.

domingo, 25 de setembro de 2011

Notas de Aula: signos e mitologias, na semiologia estrutural de Roland Barthes

Queridos,

Seguem abaixo as notas da última aula, sobre a gênese do programa de pesquisas semiológicas, na letra de Roland Barthes, no início dos anos 60 do século passado. Na próxima aula, veremos como este mesmo programa é avaliado, na perspectiva de Umberto Eco, o que deve fechar esta unidade introdutória sobre as relações entre significação, cultura e comunicação. Nos vemos na quarta-feira.

Ad,

Benjamim


Introdução a Semiótica – GEC 107
Aula nº 3 – 21/09/2011
Das mitologias à ideologia como estratégia sígnica: a semiologia de Roland Barthes

1. Sabemos agora que a recepção dos princípios de uma teoria da significação no ultimo século se deu com muito mais força (ao menos nas ciências humanas) naquelas disciplinas em que a noção de comunicação que estava em jogo era precisamente uma que valorizava esse aspecto de integração entre a ordem da compreensão e da interpretação e a admissão de uma estruturação interna das formas textuais ou enunciativas (em termos, uma concepção da interpretação que tinha por objeto as formas estruturadas do discurso textual): do ponto de vista das disciplinas envolvidas neste processo de assimilação das ciências da linguagem, foi o campo da crítica e da teoria literárias que assimilou com mais força os instrumentais analíticos que certos ramos da linguística pareceram sistematizar, a partir do final do século XIX.

2. Isto tudo devidamente considerado, devemos ainda levar em conta que a abordagem semiológica não se constitui, entretanto, com sua força mesma, no conjunto das teorias da cultura, apenas por ser um prolongamento mais possante da análise de manifestações literárias, muito pelo contrário: se a teoria dos signos teve um valor próprio para as ciências humanas no último século, em geral, isto não decorreu apenas de seus atributos heurísticos inererentes, mas também pelo fato de que suscitou às humanidades o reconhecimento de uma ordem de fenômenos igualmente nova, e para a qual as ciências humanas haviam reservado senao uma atitude de suspeita; em termos, já vimos antes que o valor das teorias da significação não tem apenas fundamento teórico, mas sobretudo empírico.

3. Toda uma nova ordem de fenômenos característicos da cultura da modernidade passam a receber uma atenção devida, a partir de instrumentais que os valorizam como constituintes do tecido cultural e como fundadas em regras de um sistema de significações: se as relações sociais básicas, se os princípios econômicos da troca de bens, se as manifestações de uma cultura erudita, se todos estes segmentos da vida espiritual podem ser explanados pelos princípios de uma teoria dos signos (como reclamam Eco e Kristeva), ora também as manifestações mais comezinhas da experiência moderna (o cinema, a canção ligeira, as imagens do jornalismo e da publicidade, dentre tantas outras) também mereceriam a atenção de um olhar analítico, que fosse capaz de deslindar em cada uma delas sua porção de determinação por um sistema de significações, garantido que são fatos de comunicação e dados de uma cultura humana.

4. Voltemos, entretanto, ao problema das relações entre a comunicação e a significação: esta idéia da correlação entre uma ocorrência comunicacional e um sistema de significações que lhe é inerente, não é estranha a um autor como Roland Barthes, por exemplo; no início de seus Éléments de Sémiologie, ele faz indicações sobre a importância e alcance filosóficos que a noção de “solidariedade sistêmica” entre Língua e Fala poderia ter, numa direção distinta daquela postulada pela Lingüística Estrutural de Saussure (isto tudo remete a estas duas noções centrais da Lingüística Estrutural, e que podem ser recobradas no cap. 3 da Introdução do Cours de Linguistique Générale).

5. No caso da linguística, estas duas noções são postuladas para tratar de fenômenos exclusivamente ligados às manifestações verbais (o que poderemos explicitar com mais vagar, quando estivermos imersos nas tramas da conceituação do signo linguístico), ao passo que na semiologia barthesiana, elas permitiriam a assimilação de certos fatos que, ao menos em seu primeiro nível de apresentação, não parecem demarcados de uma origem lingüística: os ritos, a etiqueta, a sinalética, o vestuário, a gastronomia, nenhum desses fatos se constitui enquanto manifestação característica de um gênero de comunicação que pudesse ser restituído à matriz da língua; entretanto, eles estruturam-se, em última análise, sobre o mesmo tipo de princípios que caracterizam os fenômenos da linguagem articulada (segundo Barthes, mesmo estes fenômenos perpassam-se do que ele chama de uma essencial “linguisticidade”).

6. Decerto que, entre os anos 50 e 70, a inspiração do estruturalismo linguístico, de origem saussureana e jakobsoniana (e cujo fundamento remonta ao modo como estes autores firmaram a questão do princípio de diferenciação diacrítica do sentido, na base dos estudos fonológicos da linguagem), instituiu-se (primeiro no ambiente intelectual francês, depois no resto do mundo) como uma verdadeira corrente filosófica que inspirou variados campos das humanidades (entre eles, as teorias da comunicação), e firmando uma verdadeira tradição e uma certa escolástica dos discursos sobre a linguagem e a significação. Em boa medida, a razão deste sucesso está precisamente na operação que Barthes, por exemplo, propõe, quando sugere não apenas expandir o alcance das categorias linguísticas, mas sobretudo estabelecer que nenehuma análise semiológica poderá ir além do limite eminentemente linguístico de sua estruturação.

    “Saussure, retomado pelos principais semiólogos, pensava que a linguistica era apenas uma parte da ciência geral dos signos. Ora, não é absolutamente certo que existam, na vida social de nosso tempo, outros sistemas de signos de certa amplitude, além da linguagem humana. A semiologia só se ocupou até agora, de códigos de interesse irrisório, como o código rodoviário; logo que passamos a conjuntos dotados de uma verdadeira profundidade sociológica, deparamos novamente com a linguagem. Objetos, imagens, comportamentos podem significar, claro está, e o fazem abundantemente, mas nunca de maneira autônoma; qualquer sistema semiológica repassa-se de linguagem. Cf. Barthes, R. “Introdução”. In: Elementos de Semiologia: p. 11,12.

7. Os textos de Barthes e de Kristeva aqui examinados representam, exatamente neste sentido, uma espécie de programa de expansão (com implicações por vezes imperialistas) dos ensinamentos estruturalistas, de modo a justificar sobre suas bases (e, em especial, dado o caráter mais fortemente normativo e institcional do sistema linguístico) a pertinência de um discurso sobre a significação e a linguagem articulada, em domínios extra-linguísticos: no período em que foram escritos (ambos no decorrer dos anos 60), poder-se-ia imaginar que o grau de formalização e refinamento conceitual alcançado pelas disciplinas da linguagem (em especial a fonologia) e impulsionado finalmente pelo modelo estrutural da antropologia de Levi-Strauss, tornara interditado à interrogação sobre os fenômenos da significação qualquer aspecto que não pudesse visá-los como problemas de natureza estrutural (a saber, como sediados em última instância, no sistema da lingua). Deste modo, é que os dois textos parecem enunciar os conceitos de “língua” e de “estrutura” (ambos tomados enquanto sistema de valores e de funções simbólicas abstratas) como uma espécie de “grau zero” de toda investigação semiológica.


Entrevista de Claude Levi-Strauss (parte 2) – Canal Arte (1972)


Entrevista de Claude Levi-Strauss (parte 3) – Canal Arte (1972)

8. Mas é igualmente notável que este percurso que conduziu as investigações semióticas para dentro do campo dos fenômenos humanos (e mais especialmente da comunicação) tenha se manifestado em autores que não possuíam uma preocupação inicial evidente com este universo de problemas: e, neste aspecto, o caso de Barthes representa um curioso fenômeno de deriva temática, que caracteriza o modo como a comunicação acabou por emergir enquanto problema associado à gênese de uma disciplina semiológica (isto é, a origem da semiótica enquanto modelo ou método).

9. A questão de um saber semiótico parece emergir no contexto do refinamento de certas ferramentas da crítica cultural (no campo da literatura e no das artes), mas que parece reclamar igualmente o universo discursivo das comunicações de massa, como uma instância para o exame crítico das práticas culturais, em geral. Assim sendo, a relação entre significação e comunicação (que é sempre argumenatda como fundamento da pertinência dos estudos smeióticos pels disciplinas da comunicação) revela, como já destacamos anteriormente, uma faceta que é mais empírica do que propriamente teórica. É o que veremos a seguir.

10. No caso de Barthes, seus primeiros movimentos na direção da semiologia podem ser identificados com os exercícios estilísticos de crítica ligeira de atualidades culturais, originalmente escritos, entre 1954 e 1955, para a revista Lettres Nouvelles, de Maurice Nadeau, e que logo aparecerão sob a forma de livro em Mythologies, publicado em 1956. Até este ponto, Barthes houvera se estabelecido, no contexto cultural francês, como um crítico literário, devotado especialmente à interrogação sobre a atividade mesma da escritura, no campo literário e teatral; seus textos anteriores à Mythologies são, em geral, comentários à produção literária francesa (em geral, atendendo a encomendas de editores), ou ainda textos dedicados a problemas teóricos de análise do estilo ou da escritura literária, na sua relação com a história (é o caso de seu primeiro grande sucesso, Le Degrée Zero de l’Écriture, de 1953).

11. No caso desse turno semiológico, podemos identificar alguns de seus aspectos, no percurso mesmo de sua crítica literária pregressa de Barthes. Por exemplo, a noção de crítica da “ideologia pequeno-burguesa”, em Mythologies, e o papel que ela desempenha anteriormente na caracterização que Barthes faz de Jules Michelet (assim como em Balzac, e também em Sartre): essa idéia define uma espécie de enquadramento crítico de toda escritura (e que confere às obras literárias um certo aspecto de exame dos valores sociais predominantes). A identificação dos valores pequeno-burgueses com “cultura da mediocridade” conferirá ao exame das “pequenas mitologias” a que se dedica Barthes, em seu primeiro livro de semiologia, uma espécie de quadro de referências do qual se originam muitas destas manifestações (o “catch”, o cinema, o automóvel, a publicidade).

Barthes, Roland, “Mythologies”, In: Lecture pour Tous (1956)

12. Oferecemos, em seguida, comentários a algumas das passagens desta entrevista de Barthes ao programa Lecture pour Tous, da televisão francesa (em 1956): ao apresentar as dificuldades de uma introdução aos temas principais da obra Mythologies, o entrevistador pergunta a seu autor, Roland Barthes, como se pode definir este trabalho; Barthes responde, manifestando igual embaraço neste esforço de definição, dizendo tratar-se de uma coleção de materiais de análise de produtos ou mitologias da vida moderna, sendo o todo do trabalho coroado por uma certa reflexão teórica sobre o que constituiria a matéria do mito, nos dias de hoje; o entrevistador destaca, na entrevista, o caráter deste inventário de fenômenos escolhidos por Barthes para seu trabalho de análise, destacando neles o caráter de familiaridade da experiência cultural de nossos dias (a publicidade, o catch que se vê na televisão, o abade Pierre do qual se fala nos jornais), todos eles atravessados por esta idéia de que constituem segmentos de um mito que atravessa nossa vida cotidiana;

13. Avançando o exame dos fenômenos analisados por Barthes, o entrevistador o questiona sobre o que faz do catch um elemento da mitologia moderna, se este decorreria do sucesso deste fenômeno junto a seu público; Barthes concorda, destacando que ele mesmo é um freqüentador de espetáculos deste tipo, e que sempre o surpreendeu que esta forma cultural (que assume o disfarce de uma prática esportiva) se correlacionava muito intensamente com certos aspectos da comedia dell’arte: uma espécie de roteiro sobre o qual o lutador improvisa uma série de episódios (os atos da luta contra seu oponente, propriamente dito); mais importante, o fato de que estes episódios assumem uma dimensão predominantemente moral, mais que dramática ou propriamente esportiva, mimetizando certas figuras fundamentais do sentido e do resultado do combate, com suas figuras de justiça, derrota, triunfo, suplício e, sobretudo num contexto pequeno-burguês mais recente, a idéia do “pagamento” (“ele tem que pagar”, é o que gritam certos espectadores do catch, quando um vilão é derrotado no ringue).

14. Quanto ao mito do abade Pierre, Barthes se interessa pela manifestação iconográfica de sua presença, como dado mais importante dos discursos e das narrativas em seu entorno: as fotografias do religioso que se divulgam aqui e ali, em contextos variados, mobilizam sistematicamente um certo conjunto de significados e de conteúdos sobre a religiosidade e sobre o franciscanismo, em particular; o cabelo, a batina, a bengala, todos estes elementos da presença visual do abade são manifestos como dados que significam àquele que subscreve sua fé a substância de uma legenda, de uma incorporação mais material do mito religioso da entrega e do sacrifício piedoso e da santidade;

15. Nestes termos, as manifestações do espetáculos das comunicações de massa são assumidas, aqui, como uma espécie de sucedâneo (de substituto mais recente e visível) dos valores pequeno-burgueses, que tanto repugnavam a Balzac, no século XIX, e a Sartre, no último século: são, em suma, o universo de reprodução de um mundo cultural que pretende se universalizar e se estabelecer como princípio natural das coisas (e ao qual o comentário cultural procura fazer uma mais forte resistência. 

“Existe ainda gente para quem a greve é um escândalo: isto é, não só um erro, uma desordem ou um delito, mas também um crime moral, uma ação inntolerável que perturba a própria natureza. Inadmissível, escandalosa, revoltante, dizem alguns leitores do Figaro, comentando uma greve recente (…). Neste caso, o escândalo provém de um ilogismo: a greve é escandalosa porque incomoda aqueles a quem ela não diz respeito”. Cf. Barthes, R. “O Utente da greve”. In: Mythologies: pp. 82,83.

16. Outro aspecto nada desprezível desta virada em direção à comunicação, em Barthes, decorre do fato de que vemos aqui (talvez, pela primeira vez) o emprego de um método novo, em termos de crítica cultural: portanto, não apenas a introdução de um universo empírico diverso (o das comunicações de massa), mas também uma nova ordem de teorias, de repertórios conceituais e de formas de aproximação para a análise deste campo de fenômenos. Quando de uma nova edição de Mythologies, em 1970, Barthes faz questão de escrever um posfácio a seu livro, explicitando este aspecto de sua novidade metodológica: sobretudo, ele destaca o valor das teorias semiológicas, em relação aos modos de aproximação à ordem dos fenômenos culturais (sobretudo naquilo que neles se exprime enquanto valor ideológico).

“O leitor encontrará nele dois propósitos: realizar, por um lado, uma crítica ideológica da cultura dita de massa, por outro lado uma desmontagem semiológica desta linguagem: eu acabara de ler Saussure, e ficara com a convicção de que, tratando as “representações coletivas” como sistemas de signos, seria talvez possível sair da denúncia piedosa e revelar em detalhe a mistificação que transforma a cultura pequeno-burguesa em natureza universal.” Cf. Barthes, R. “Posfácio”. In: Mitologias: p. 181.

17. No período entre a primeira edição de Mythologies e a aparição dos Élements de Sémiologie (isto é, entre 1957 e 1963), Barthes vive aquilo a que chamará em retrospecto (em várias das recapitulações que é chamado a fazer sobre seu percurso intellectual) de uma “embriaguez metodológica”: este é o período em que se vê surgir, com toda força, o assim chamado método estrutural em semiologia, isto é, o amadurecimento da análise semiológica, em termos teóricos, metodológicos e empíricos mais sólidos e inclusive programáticos.

Leituras recomendadas:
Barthes, Roland. “Introdução’ e “Língua/Fala”. In: Elementos de Semiologia;
Barthes, Roland. " O mito, hoje". In: Mitologias;

Próximas Leituras:
Eco, Umberto. “O universo dos sinais” e " O universo do sentido". In: A Estrutura Ausente.

domingo, 18 de setembro de 2011

Notas de Aula: sentido e comunicação, em sentido lato e estrito

Queridos,

Seguem abaixo as notas da última sessão, sobre as relações entre o estudo dos signos e o conceito de comunicação: melhor dizendo, sobre como é que os fenômenos e processos comunicacionais podem ser instâncias de um exame sobre os processos de significação. Ao fim destas notas, faço indicações para as leituras das próximas sessões do curso.

Ad,

Benjamim


Introdução a Semiótica (GEC 107)
Aula no 2 (14/09/2011)
Da Comunicação e do sentido, em sentido lato e estrito

1. Já vimos até aqui a importância que a atenção conferida aos sistemas de significação assume para a abordagem de fenômenos atribuídos ao campo cultural, no modo como Umberto Eco e Julia Kristeva abordam (nos modos que lhe são próprios) os “limites naturais” de uma teoria semiótica: entretanto, especialmente no caso de Eco, a dimensão comunicacional dos fenômenos culturais é concebida numa latitude um pouco mais extensa, para incorporar fatos que, em geral, não são usualmente identificados com o universo da comunicação.

2. Grosso modo, quando consideramos a dimensão comunicacional de fenômenos como a transmissão parental, a troca econômica de bens ou o uso instrumental de objetos da natureza, não assimilamos necessariamente o que é do quinhão da comunicação nesses processos ao universo da expressão e compreensão de mensagens: em cada um desses casos predomina, ao invés, a noção de que trata-se de ocorrências de um costume humano, cujo fundamento é a existência de sistemas de regras que são, por sua vez, sistemas de signos (ou, ao menos, assumidos na sua similaridade com tais sistemas, como é o caso da relação do parentesco com a linguagem, em Levi-Strauss), e que estão na base de qualquer coisa que assumamos enquanto dado cultural.

3. O valor heurístico da semiótica não está, nesses casos, associado ao fato de que, sendo fenômenos de comunicação, devam ser, por exemplo, assimilados a enunciados mas, ao invés disto, que por se constituírem em fatos de cultura, têm seu sentido mesmo determinado por uma regra ou por um sistema. O conceito de comunicação decerto importa para as teorias da significação e da interpretação (fato de resto óbvio, pois a comunicação se institui em um horizonte partilhado de sentidos), mas podemos dizer que seu valor é menos importante para as teorias semióticas (e para as disciplinas do sentido em geral) do que se costuma supor. Nestes termos, devemos ter cuidado em raciocinar sobre a pertinência destas teorias no contexto dos estudos comunicacionais, condicionando-a a uma hipotética assimilação de seus conceitos e objetos ao universo das teorias da comunicação. Em termos, a semiótica é uma disciplina da compreensão e da interpretação, que são fenômenos claramente subjacentes à comunicação.

4. Antes de explorarmos determinadas alternativas desse tipo de concepção sobre os processos e fenômenos comuicacionais que nos são mais familiares, proponho que nos entretamos nesta pequena “aventura semiótica”, que nos foi certa vez proposta por um eminente pensador bolonhês:

·       “Premissa”, in: O Signo, de Umberto Eco

5. Quando examinamos com atenção aquelas etapas do processo pelo qual o Sr. Sigma, de Umberto Eco, dá conta de seu mal-estar e busca localizar um medico para com ele consultar-se, enfrentando em cada segmento deste percurso os obstáculos de um mundo que se revela ao sujeito na condição de algo que deve ser cogitado, interpretado e, em última instância, decifrado resolutamente, de tudo isto podemos inferir (com os devidos riscos de incorrermos no temido “imperialismo teórico” lembrado pelo próprio Eco) que a comunicação é uma espécie de tecido constitutivo de nossa existência, enquanto seres culturais.

6. No texto de Ugo Volli, que serve de condutor a esta exposição, propõe-se igualmente algo como a impossibilidade da incomunicação: assim sendo, diante de tudo aquilo que, para o horizonte de nossa experiência, manifesta-se com sentido, não há como ignorarmos a essencial comuicabilidade do mundo, quando ele passa pelo filtro da experiência. Há que se notar, em primeiro lugar que a comunicação, assim entendida, é um efeito de superfície de um fenômeno mais grave e importante: não é que o mundo se comunique a nós, por sua própria graça ou força, mas o fato de que esta transparência do mundo é o resultado de algo a que podemos chamar de uma “positividade do sentido ou significação”. Enfim, é porque sentido que as coisas comunicam (mesmo aquelas que estão na natureza, mesmo aquelas que são inertes e até mesmo as que sequer existem). E é importante ressaltar que esta capacidade não nos deve fazer pensar numa auto-reflexividade do mundo: a comunicabilidade é efeito do sentido, mas a origem do sentido não está nas coisas que fazem sentido (esta é inclusive a razão porque digo “as coisas comunicam” e não “as coisas se comunicam” ou “se fazem comunicar”).

7. Ora, nestes termos, podemos desde já estabelecer que, ao menos de um ponto de vista mais remoto, as teorias semióticas trabalham o conceito de comunicação a partir de sua assimilação à ordem do sentido: a impossibilidade de não comunicar implica a necesidade do sentido. Será este o fim da história? Evidentemente que não: por um lado, precisamos definir com exatidão o que quer dizer esta subscrição do comunicável ao sensato ou ao significativo, pois poderíamos estar apenas apondo termos uns sobre os outros, sem resolver questão de como a comunicação pode ser semioticamente abordada; por outro lado, subscrever pura e simplesmente a comunicação ao sentido tem o efeito contrario do desejado (esvazia precisamente o conceito de comunicação e não nos permite esclarecer em que sentido a semiótica tem algum concernimento com os fenômenos e processos de nosso campo).

8. Como já sugerimos um pouco mais acima, um modo possível de dimensionar a pertinência das teorias semióticas para a comunicação, é o de colocar a questão do partilhamento intersubjetivo do sentido (e sua relação necessária com a dimensão interpretativa de todo fenômeno de  significação) como uma componente essencial de nossos modos de compreender a realidade. Assim definida a pertinência dos saberes semióticos (pelo viés das mútuas implicações entre significação, compreensão e interpretação), é necessário que vinculemos a realidade do sentido à sua essencial comunicabilidade, às necessárias partilha e expressividade que marcam todo e qualquer ato de compreensão de nossa parte: somente tem significação aquilo que pode ser compartilhado através de uma expressão, seja de que ordem esta for (lingüística, gestual, comportamental, imagética, inter alia).

9. Há vários aspectos daquilo que faz o sentido das coisas acarretar o sentido comunicacional com que elas nos aparecem: no texto de Volli, um destes caracteres se define no âmbito das relações que estabelecemos para as coisas, quando elas se manifestam a nós com sentido (o sinal luminoso que indica a conduta que eu devo assumir; o cheiro familiar que dispara no espírito o movimento da distensão temporal da memoria; os sons musicais que suscitam uma elevação estética, não-ordinária, de nossa escuta). As manifestações do sentido têm uma dimensão comunicacional, em primeiro lugar, por infundirem na mente daquele que se confronta com elas as relações que são o fundamento de sua significação (se fazem sentido, é porque são signos, portanto, não são coisas que bastem-se em si mesmas, mas que estão necessariamente para outras coisas ou idéias, definem-se pelo princípio do aliquid pro aliquo).

“Aquela forma vermelha ali, por exemplo, é um carro; move-se em determinada direção, está para dobrar à esquerda, no entanto, situa-se na parte central do trânsito. Uma luz amarelada lampejante indica a intenção do motorista (que está lá, presumo, ainda que não o vislumbre) de dobrar a esquerda. Aqui, porem, este ruído é o tocar do telefone, que sei usar de determinada maneira não só técnica, mas também interpessoal (de dia, não à noite, com pessoas conhecidas e não casualmente, para dizer alguma coisa e não para cantar, etc.). De acordo com o momento, o seu tocar me dá alegria, angústia, surpresa, tédio. Tem sentido para mim porque me insere num contexto de relações interpessoais. O cheiro que sinto é alimento, vem da minha cozinha: sentido de casa. Aquele objeto negro é um guarda-chuva, se alguém o tem nas mãos quer dizer que está chuvendo. Aquela pessoa tem um sorriso cansado, é jovem, tem jeito de estudante, pela sua atitude sei que quer falar comigo. Vejo uma fumaça lá longe e compreendo que deve haver um incêndio em algum lugar.” Volli, Ugo. “Comunicação”, p. 17.

10. E isto é tudo? Novamente, não: pois se a relação entre ter sentido e comunicar se resolvesse no caráter eminentemente relacional da significação, estaríamos falando de um sentido muito pobre de comunicação (a rigor, como já destacamos acima, este seria apenas um sentido primário de comuncação, no limite mesmo, nem estaríamos falando dele, mas apenas de suas condições de possibilidade). Nestes termos, o fato de que compreendemos o mundo combinando seus segmentos mediante variados critérios de sua correlação possível (por semelhança ou oposição, por contigüidade ou por enumeração, dentre tantos outros) responde apenas ao princípio pelo qual podemos determinar a estrutura do próprio sentido, que é da ordem da relação significativa. A comunicação, em seu sentido mais importante (geral e específico), permanece fora do alcance desta interrogação.

11. Como fazer para que o conceito de comunicação finalmente se manifeste como a consequência de uma concepção semiótica sobre a tessitura do sentido? Neste caso, precisamos nos interrogar sobre as condições em que o mundo se manifesta significativamente ou sensatamente para alguém: é evidente que (ao menos numa perspectiva mais radicalmente fenomenológica), a emergencia do sentido parece vir associada a uma radical negatividade, com respeito a tudo aquilo que é da ordem do instituído, do convencional, do culturalizado; é neste contexto que se fala tão frequentemente no fenômeno do sentido como associado a uma certa abertura diferencial, que caracterizaria os modos de significação de inteiras regiões da expressão poética e artística, por exemplo. O modo de endereçamento próprio ao discurso da arte não deve supor, a não ser sob condições muito específicas, a concorrência de uma regra da interpretação, como chave condutora do sentido mesmo das obras.

http://www.youtube.com/watch?v=9_vYz4nQUcs
Martin Heidegger, “A linguagem da comunicação e a linguagem poética” (1953)

12. No texto de Volli, esta necessidade de conferir um lugar específico da comunicação, numa abordagem semiótica de suas manifestações, parece instaurar um limite intransponível entre os regimes de nossa compreensão do mundo (grosso modo, o fato de atribuímos sentido às coisas a partir do instante mesmo em que as percebemos) e as estruturas que mobilizamos para exprimir esta mesma compreensão (que constituiria o lugar próprio da comunicação, por assim dizer): uma tal concepção do que é próprio à comunicação acaba por abordar o problema de modo parcial, mais uma vez; nesta perspectiva, os fenômenos comunicacionais são abordados em seu aspecto mais ativo de manifestação, o que permite isolar a “autêntica” comunicação daquela que caracteriza a estrutura conceitual de nosso contato sensorial com o mundo. Mas, aqui, mais uma vez, sacrificamos o fenômeno da comunicação, em nome de sua suposta “pureza” ontológica.

“Por que tartar juntamente os processos da autêntica comunicação e de significação sob o nome comum da comunicação? Nos estudos sobre este assunto, a palavra comunicação foi usada de modo ambíguo, e é melhor respeitar este uso, para não provocar uma posterior confusão. No entanto, existem duas razões substanciais. Em primeiro lugar, os mecanismos que tornam possível a comunicação autêntica são caracterizados pela lógica da significação. Para que o objeto que é transmitido do emissor ao destinatário possa realizar a sua função, tem que parecer significativo. Em segundo lugar, é com frequência fácil, e em geral bastante comum, trabalhar no aspecto de uma coisa ou de uma pessoa, manipular, em suma, a sua significação, de modo a alcançar determinados efeitos comunicativos. Assim, podemos produzir a comunicação modificando a significação de um objeto (…). De modo geral, é até possível pensar toda a comunicação como uma complexa manipulação do ambiente operada por alguém (o emissor) interessado em fazer com que algum outro (o destinatário) perceba um certo sentido. Os fenômenos semióticos da comunicação e da significação, em suma, se cruzam densamente, e geralmente se contêm um ao outro em diferentes níveis.” Volli, U. “Comunicação”: p. 19, 20.

13. Em termos, a questão sobre a abordagem semiótica da comunicação não deve identificar-se com aquilo que é próprio à sua dimensão mais expressiva, mas também explorar o que esta face ativa de nossa compreensão (o fato de que falamos, percebemos e agimos sobre e a partir daquilo que faz sentido para nós) tem em comum com o fato de que, mesmo emudecidos, continuamos a existir dentro desta mesma legislação da significação: o que há de comum, enfim, entre simplesmente perceber as coisas “como são” e falar destes dados existenciais, através das formas do discurso? Que continuidade pode-se conceber entre sentir um mal-estar e descrevê-lo, em alguns de seus aspectos, a alguém a quem buscamos, para nosso socorro? O que há, enfim, de filosoficamente interessante em pensarmos sobre o fato de que uma obra de arte quer dizer alguma coisa, muito embora sua significação não se exprima materialmente numa forma absolutamente convencional ou previamente instituída e acordada intersubjetivamente?

14. Em todas estas questões, podemos entrever que há um sentido genericamente comunicacional que habita a ordem do sentido, mesmo quando não empregamos o discurso e a expressão para dele darmos conta. De maneira simples, podemos supor que isto se dá porque a comunicação de que podemos falar teoricamente (numa perspectiva semiótica, ao menos) é antecedente, por exemplo, ao advento da linguagem natural na qual empregamos muitas destas expressões. Numa abordagem mais genérica do conceito de comunicação que é privilegiada pelas teorias semióticas, pode-se dizer que exprime-se também um sentido mais radical e fundamental do conceito de comunicação.

15. A comunicação seria a condição dc possibilidade pela qual a mais privativa das experiências não se deixa enclausurar numa absoluta interioridade psicológica e individual, uma vez que é investida de sentido, por aquele que a vivencia: uma sensação, uma emoção, uma paixão, são necessariamente vivenciadas no horizonte de uma compreensão outra e é aqui que se manifesta aquilo que, para tantos quantos escrevem sobre estes fenômenos, caracteriza a indissociabilidade entre significação e comunicação.

Referências Bibliográficas:
Eco, Umberto. “Premissa”. In: O Signo;
Volli, Ugo. “Comunicação”. In: Manual de Semiótica.

Próximas leituras:
Barthes, Roland. “Introdução” e “Língua/fala”. In: Elementos de Semiologia;


Barthes, Roland. “O Mito, hoje”. In: Mitologias.