quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Notas da última aula: significados e figuras do conteúdo, em Hjelmslev e Eco


Introdução a Semiótica (GEC 107)
Aula no 10 (30/11/2011)
Significado e figuras do conteúdo na Semântica Estrutural (Eco, Barthes e Hjelmslev)

1. A partir das definições de Saussure sobre o signo lingüístico (como união indissociável entre significante e significado), estamos na mesma situação que descrevêramos anteriormente, no que concerne o estatuto ontológico que define os remetidos, na perspectiva do logicismo de Frege (o que afeta igualmente a definição de Peirce sobre o remetido, enquanto função “interpretante” de uma relação possível entre um “fundamento” e um “objeto”): do mesmo modo que na tradição lógica do estudo dos signos, a compreensão dos signos arbitrários não nos permite separar nas manifestações de um sentido comunicacional aquilo que é da ordem dos signos e aquilo que é da ordem de seu significado possível. De fato, inclusive, já exploramos este ponto, quando consideramos a definição mesma do signo linguístico, em Saussure.

2. Mesmo nas observações posteriores de Barthes sobre a união necessária entre o plano da expressão e o plano do conteúdo, na definição do signo semiológico, a ordem dos significados não pode ser exterior à definição mesma dos signos, mas está necesariamente comprometida com o regime de remetimento que é inerente à sua definição enquanto “função sígnica”. Na prática, aquilo que devemos separar no signo, de uma perspectiva de sua análise interna, dispõe em lugares próprios uma porção própria de veiculação (característica de sua porção significante) e uma outra, de destinação (definidora do significado): apenas neste sentido puramente analítico se pode conceber a separação dos significados enquanto tópico de interesse para as teorias semióticas.

3. Nos Élements de Sémiologie, Barthes dispõe a interrogação sobre o estatuto teórico dos significados face a uma ordem de problemas que é interna ao projeto de uma semântica estrutural (portanto, característica de um ramo das explorações da Linguística, enquanto tal): tendo em vista que a semiologia lida sobretudo com os fenômenos extra-linguísticos, o problema do significado é correlativo a um aspecto estrutural da compreensão das funções semânticas destas práticas, a que Barthes designa como “isologia”; assim sendo, o significado semiológico manifesta-se sempre numa estrutura que é própria à forma de uma proposição linguística, sendo aqui previsamente que se confirma a irredutibilidade ds fatos semiológicos aos princípios linguísticos de sua constituição

“No essencial, a situação não poderia ser diferente em Semiologia, em que objetos, imagens, gestos, etc., tanto quanto sejam significantes, remetem a algo que só é dizível por meio deles, salvo esta circunstância segundo a qua los signos da lingual podem encarregar-se do significado semiológico; diremos, por exemplo, que tal suéter significa os longos passeios de outono nos bosques; neste caso, o significado não é somente mediatizado pelo seu significante indumentario (o suéter), mas também por um fragmanto de palavra (o que é uma grande vantagem para manejá-lo); poderíamos dar o nome de isologia ao fenômeno pelo qual a lingua ‘cola’, de modo indiscernível e indissociável, seus significantes e significados.” Cf. Barthes, Roland. “Significado/Significante”: pp. 46,47.

4. A admissão deste aspecto específico do significado semiológico parece implicar uma longa tradição na qual o problema da compreensão chama em causa o status ontológico dos referentes aos quais correlacionamos uma expressão, e de que já tratamos, com algum vagar, no capítulo sobre a abordagem lógica dos significados: no caso das abordagens lógicas, se estipula que o sentido de uma expressão é algo que se distingue da referência pela qual um objeto é especificado como sendo aquele ao qual a expressão corresponde ou representa. As abordagens semiológicas introduzem uma nova variável para a abordagem dos significados, e que introduzem a dependência possível entre os conteúdos semiológicos e a ordem linguística de sua compreensão: assim sendo, a “dizibilidade” essencial de todo e qualquer material significante (e que venha a constituir um universo de manifestações semiológicas) introduz o problema do significado, em Barthes como algo que tem demarcação ou origem na ordem do dizer, nas formas do discurso.

5. Tudo isto, evidentemente, aporta toda uma série de riscos para uma teoria dos signos, no sentido de uma certa definição circular dos significados, fato que é reconhecido pelo próprio Barthes: o significado não é algo de simplesmente real (isto é, puramente anterior à nossos modos de compreensão e independente de nossas inclinações de interpretação), mas algo de real que só se torna mais específico quando assume seu valor próprio, correlativamente ao modo de manifestação dos signos (isto é, como “fato de significação”). Correndo o risco de antecipar um tema caro à uma metafísica inspirada semioticamente, tudo isto apenas significa que o conceito de signo e de significado não podem se separar do de significação, isto é da ação na qual o remetimento e a veiculação sígnicas se encontram inevitavelmente unidos. Deixemos esta questão em silêncio, por ora, apenas.

“Em Linguística, a natureza do significado deu lugar a discusses, sobretudo referentes a seu grau de ‘realidade’ (…); o próprio Saussure notou bem a natureza psíquica do significado, ao denominá-lo conceito: o significado da palavra boi não é o animal boi, mas sua imagem psíquica (…). Essas discussões permanecem todavia impregnadas de psicologismo; preferimos talvez seguir a análise dos estóicos; estes distinguiam cuidadosamente a (…) representação psíquica (…), a coisa real (…) e o ‘dizível’ (…); não sendo nem ato de consciência nem realidade, o significado só pode ser definido dentro do processo de significação, de um amaneira praticamente tautológica: é este ‘algo’ que quem emprega o termo entende por ele”. Cf. Barthes,”Significado/significante”: p. 46.

6. Na sua definição mesma do signo semiológico, feita um pouco antes – neste mesmo capítulo em que discute os elementos constituintes do signo - Barthes incorpora do modelo lingüístico de Louis Hjelmslev a noção de que a definição de signo deve ser contemplada em seu aspecto de fato relacional: em verdade, Hjelmeslev assimila a esta idéia de relação um projeto inteiro de sua ontologia da significação, em certa medida. É através da valorização das necessárias “interdependências” que caracterizam o sistema da língua que ele é levado a considerar a “função sígnica” (portanto, a relação entre termos) como núcleo de uma teoria geral da significação, ao invés de pensar a unidade do signo através de sua redução aos marcos de uma substância ou de um objeto das teorias semiológicas.

7. Nestes termos, o que constitui o signo como objeto de estudos é, em primeiro lugar, o fato de que ele é tomado essencialmente como “relação” e não como “coisa” (o que poderia estar implicado pelo fato de que, na história do signo, ele veio sendo definido invariavelmente como “uma coisa que é relativa a outras coisas”): tomado na condição de uma relação, ele se define pelo modo com contrai os elementos que entram em jogo, nos processo de significação.

8. Neste ponto, o signo é definido essencialmente como a função que joga com dois termos, invariavelmente: de um lado, a expressão através da qual o signo é necessariamente o caráter necessariamente maniefsto de um sentido (seja ele, pretendido, seja ele instituído arbitrariamente); do outro lado desta função encontra-se o conteúdo do signo, pelo qual sua ocorrência é mensurada em seu aspecto de destinação (ou, mais propriamnete falado, de significado). De maneira que é importante para nós destacar, nesta perspectiva em que se definem como “conteúdos” do signo, os significados são mais uma vez definidos como entidades internas ao próprio signo, num tipo de concepção sobre o funcionamento de nossos modos de compreensão que congrega na unidade sígnica seus modos de manifestação e seus poderes de referência.

“Não poderá haver função semiótica sem a presença simultânea desses dois funtivos, do mesmo modo como nem uma expressão e seu conteúdo e nem um conteúdo e sua expressão poderão existir sem a função semiótica que os une”. Cf. Hjelmslev, Louis. “Expressão e conteúdo”: p. 54.

9. Mas nos resta refletir sobre que espécies de fundamentos sustentam o caráter puramente funcional dos conteúdos, pois uma vez tomados nesta condição de termos da relação sígnica, eles perdem de saída uma suposta objetualidade que deveriam preencher: ainda na linhagem das concepções de Hjelmslev, Barthes considera os dois planos da relação sígnica devem-se subdividir igualmente, em substância e forma; no caso dos conteúdos, portanto, devemos separar os aspectos emotivos, ideológicos ou nocionais do significado (não especificáveis em termos exclusivamente linguísticos) daqueles que definem a organização formal dos significados, por ausência ou presença de marcas semânticas (sendo estes especificáveis em termos do que a estrutura da língua estabelece).

10. Tomando da definição de Saussure os elementos para pensar a função semiótica, naquilo que ela aporta o caráter de sistema à lingua (sua normatividade e arbitrariedade), Hjelmslev identifica na “forma” e não na “substância” dos conteúdos o caráter de funtivo através do qual os significados se introduzem ao sistema de regras que constitui a lingual enquanto objeto de estudos.

“Numa ciência que evita qualquer postulado não necessário, nada autoriza que se faça proceder a lingual pela ‘substância do conteúdo’ (pensamento) ou pela ‘substância da expressão’ (cadeia fônica) ou o contrário, quer seja numa ordemtemporal ou numa ordem hierárquica. Se conservamos a terminlogia de Sassure, temos então de nos dar conta – e justamente a partir de seus dados – de que a substância depende exclusivamente da forma e que não se pode, em sentido algum, atribuir-lhe uma existência independente”. Hjelmslev, Louis. “Expressão e conteúdo”: p. 55.

11. Na segunda parte de “Dicionário vs. enciclopédia”, Eco procura restituir os passos da reflexão hjlmsleveana sobre as relações entre o significado e as formas do conteúdo: ele reconhece que, dentre os artifícios teóricos dos quais nos valemos comumente para definir os significados, um dos mais freqüentes é aquele que assimila a idéia de remetimento à de sinonímia; quer consideremos as funções de definição, nomeação ou comparação entre nossas expressões e aquilo que as mesmas significam, em geral tratamos o domínio dos remetidos como sendo um correlato do que pode ser assumido como símile da expressão ela mesma. O problema de uma tal concepção do significado é o de sua evidente circularidade ou bicondicionalidade. Nestes termos, é melhor que se trabalhe com a idéia de que o universo da referência possui uma base categorial, isto é, o que chamamos de significado tem menos correlação com os fundamentos convencionais da sinonímia e muito mais com a estrutura categorial dos processos de referência.

“A forma da expressão torna pertinente uma determinada porção do sontinuum (sons, timbres, relações espaciais, etc.), construindo um sistema de tipos estruturado por oposições e cujas substâncias são cada uma das ocorrências. Do mesmo modo, a forma do conteúdo estrutura determinadas porções (idealmente, a totalidade) do continuum do exprimível (em outras palavras, o mundo como experiência possível), construindo um sistema de tipos estruturado por mútuas oposições”. Cf. Eco, “Dicionário vs. enciclopédia”: p.81.

12. Nestes termos, o objeto que caracteriza os significados, numa perspectiva mais próxima dos fatos lingüísticos, tem a ver com o problema da organização formal dos conteúdos da referência ou, em linguajar estrutural, tem a ver com as formas do conteúdo. O que isto significa? Na mesma perspectiva em que Barthes destaca a dependência do conceito de significado com respeito aos processos de significação, aqui, a noção de conteúdo destaca no âmbito da necessária remissão sígnica, seus aspectos puramente estruturais, em detrimento de suas substâncias originárias. Dizendo de outro modo, é necessário isolar, na análise dos significados, tudo aquilo que é circunstancial para sua referência, privilegiando os aspectos que, de um ponto de vista lingüístico, são permanentes. Restando ainda o desafio de descrever quais seriam mesmo esses elementos estruturais ou da forma do significado.

13. Em primeiro lugar, de um ponto de vista estrutural, os conteúdos não podem ser assumidos como estritamente coincidentes com a definição meramente assertiva daquilo que é associado à referência, ou seja, os significados não são a expressão pela qual definimos um determinado conteúdo. Melhor dizendo, a questão se põe da seguinte maneira: que assumamos que os conteúdos são aquilo que definimos como associado às expressões (por exemplo, definir a expressão simples “gato” como significando “animal quadrúpede da espécie dos felinos domésticos, do gênero masculino”) não se explica pelo caráter puramente afirmativo da definição mesma, posto que esta é apenas o ponto terminal dos processos de significação associados ao uso desta expressão.

14. Em suma, tomar os conteúdos como sendo definidos implica em que os assumamos como resultantes de uma composição de elementos mais básicos desta definção, e que são características de todo e qualquer processo semiósico: e o que faz a análise semântica é precisamente isolar os componentes estruturais desse processo. Ora, se somos conduzidos a definir aquela mesma expressão “gato”, nos termos que adotamos para sua referência usual, temos que reconhecer que esta maneira de defini-lo nos conduz, cada vez mais longe num processo de enredamento dos significados em um sistema complexo de conceitos e categorias que servem de base para a produção dos conteúdos: o que temos em vista aqui na exploração semiológica dos significados é a necessária correlação entre os conteúdos de um signo e a matriz categorial de sua formação.

15. Assim sendo, o valor definicional de uma unidade mínima de sentido (no caso da linguagem, uma palavra) será sempre decorrente da capacidade de estabelecermos, mediante análise semântica, uma correlação entre sua ocorrência concreta associada a uma expressão, e a ocorrência de outras unidades a ela associadas, a partir de critérios que são muito mais estruturais do que empíricos: assim sendo, a análise do significado tenta reduzir em figuras componenciais, de caráter numericamente limitadas (daí porque são “formas” e não “substâncias” do conteúdo) todo o universo de variáveis referenciais através das quais produzimos um sentido determinado para nossas expressões.

16. Segundo Eco, esta modalidade de uma abordagem dos significados nos permite isolar uma série de fenômenos semânticos que se definem precisamente nestes termos estruturais. Quais seriam estes elementos do processo semântico? No caso de uma expressão simples como “ovelha”, Eco identifica pelo menos doze fenómenos desta ordem:

“I) sinonímia e paráfrase (uma ovelha é um ovino fêmea); II) similaridade e diferença (há um componente semântico comum entre ovelha e garanhão, ou entre garanhão e égua, enquanto de outro lado se podem estabelecer com base em que outros components essas várias entidades de conteúdo se distinguem); III) antonímia (/homem/ é antônimo de /mulher/); IV) hiponímia e hiperonímia (/equino/ é o hiperônimo cujo hipônimo é /garanhão/); V) sensatez e anomalia semântica (/os garanhões são machos/ é dotado de sentido, enquanto /um garanhão fêmea/ é semanticamente anômalo); VI) redundância (infelizmente, enquanto exemplo de dicionário, por causa de seu formato reduzido, a redundância coincide com a sensatez…); VII) ambiguidade (um diconário mais amplo deveria explicar a diferença entre /toro/ como animal e /toro/ como figura topológica, e resolver as ambigïdades que resultam desta homonímia); VIII) verdade analítica (…); IX) contraditoriedade (não se pode dizer /as éguas são machos/); X) concisão (o dicionário estabelece que expressões como /as ovelhas produzem lã/ dependem de conhecimento do mundo); XI) inconsistência (/esta é uma ovelha/ e /este é um carneiro/ não podem ser afirmados como igualmente verdadeiros, se atribuídos ao mesmo indivíduo); XII) inclusão e implicitação semântica”. Cf. Eco, “Dicionário vs. enciclopédia”: pp. 84,85
     
17. A análise semântica em operação: quando consideramos um enunciado qualquer, como uma ocorrência concreta, na perspectiva da análise de seu significado, aquilo que nos interessa é o reconhecimento da correspondência entre esta mesma ocorrência e um inventário prévio de “tipos abstratos” equivalentes (supostamente especificados na forma de um sistema semântico, cujo fundamento é uma espécie de ordenamento conceitual dos campo semântico): assim sendo, face ao enunciado “Hoje, a maça está muito cara”, a determinação de seu suposto significado dependerá do modo como supomos encontrar repertoriado, em formas (isto é, nas figuras componenciais de seu significado) o conteúdo correspondente à forma de sua expressão.

18. Em termos mais precisos, falar do significado global desta sentença implicaria em determinar que cada um de seus termos possa estar previamente definido na forma de seus conteúdos. No caso da expressão que temos em vista, as coisas ficariam mais ou menos assim:

·       “Hoje” seria uma ocorrência concreta de um tipo semântico ligado a oposições de significado na ordem de expressões sobre tempo;
·   “a” seria uma especificação semântica de figuras de determinação do gênero (“masculino/feminino”), assim como em número “singular/plural”);
·       “maçã” seria a especificação de uma substância, na ordem das oposições que se poderia estabelecer na imensa árvore dos conceitos sobre seres vivos (desde a ordem dos reinos, até as espécies);
·       “está” manifestaria um caso de uma ação (um lekton, portanto um “inominável” ou “dizível”, mas semanticamente especificável em termos de relações efetivas entre os sujeitos do enunciado, nos termos de uma flexão temporal e de número);
·   “muito” seria o termo que especifica qualidades de intensidade, como determinadas no âmbito de sua possível gradação;
·      “cara” seria a inscrição de um valor semântico originado nas oposições possíveis de conceitos sobre valor.  

19. Deste modo, a modelação de um campo semântico se constituiria como operação que estrutura seus conteúdos na forma de termos de um possível dicionário finito de figuras da referência: justamente em razão de conceber o sistema dos conteúdos semânticos como um inventário finito de figuras componenciais do significado, o modelo da análise semântica hjelmsleveano assume esta forma - identificada por Eco - de um modelo semântico de dicionário, isto é, de um dispositivo inventariador de figuras do conteúdo, tomadas necessariamente na sua condição geral e abstrata, fixas do ponto de vista de seu valor extensional (portanto, previamente dados na assertividade de suas definições) e finalmente capazes de segmentar largas porções de ocorrências concretas (ou de substâncias) do conteúdo, atribuindo-lhes um correspondente tipo abstrato (ou uma forma) correspondente, e especificada segundo as regras do sistema da língua.

20. Pois bem, é exatamente na avaliação deste projeto de semântica estrutural de Hjelmslev, que Umberto Eco identifica os principais desafios das abordagens semióticas do significado: muito especilmente, deveríamos reconhecer a implicação entre as dimensões simultaneamente semântica e cognitiva do significado (quando o pensamos sub specie semioticae), o que descaracterizaria as assunções semiológicas sobre seu hipotético fundamento linguístico. Isto posto, é o próprio Eco quem identifica nas teses hjelmslevianas as dificuldades que as teorias semióticas enfrentam para escapar a esta hipoteca imposta pelos saberes linguísticos: embora a abordagem semiótica do significado se proponha numa abertura para uma imensa gama de problemas metafísicos, quando Hjelmslev os enfrenta, entretanto, acaba sofrendo de enormes limitações, no modo de separar os aspectos cognitivos do significado daqueles pelos quais ele exprime uma ordnação linguística do mundo. Enfim, em Hjelmslev, somos permanentemente cortados da dimensão em que conteúdos linguísticos e determinantes cognitivas (lógicas e perceptivas) poderiam ser traçadas, em simultâneo, para o bem de uma hipotética unidade das teorias da significação.

21. Infelizmente para tanto, há aspectos do fenômeno semântico que este modelo hjelmsleveano é incapaz de especificar, sem sacrificar a idéia mesma de que a modelação dos conteúdos se dá a partir da necessária finitude e abstração de suas figuras: assim sendo, o modelo do dicionário serve para estabelecer que a figura componencial de um campo semântico qualquer deve ter seu respectivo conteúdo definido de saída, na sua correlação com outros elementos do campo semântico (“ovinos” para definir “ovelha”, por oposição a figuras de gênero e de espécie); isto assim dado, o modelo não explica como é que se fixam originalmente os conteúdos de cada um desses termos que entram nas relações de oposição e de subordinação, uma vez que eles se ponham na cadeia das figuras de conteúdo (portanto, como é que formo, na ordem de um sistema categorical mais vasto, o conceito de “ovino” e de “fêmea”, como condições para formar o conteúdo correspondente a “ovelha”).

“Em todo caso, o dicionário hjelmsleveano deixa sem resolver dois importantes problemas. Primeiramente, define-se uma ovelha como um ovino fêmea, não se define o que é um ovino (nem o que é uma fêmea) e, por isto, deixa aberto o problema da interpretação das figures de conteúdo. Em segundo lugar, como se viu, Hjelmslev aspira a restringir os inventários das figures, mas não estabelece se e como isto é possível (…). O requisito que parece irrenunciável é precisamente que o dicionário permita analisar o significado das expressões linguísticas mediante um número finito de primitivos”. Cf. Eco, “Dicionário vs. enciclopedia”: p. 86.

22. Tudo isto parece ter correlação com a suposição de que a modelação linguística do fenômeno semântico seja inerente ao funcionamento dos signos e aos modos como estes produzem referências: mas esta abordagem dos significados acaba por deixar de fora da questão do funcionamento e das instâncias de remissão - próprias aos signos - aspectos que são constitutivos de um processo gerativo mais fundamental dos significados, e não apenas de seu estado terminal, cristalizado em formas finitas ou em primitivos semânticos. Tudo isto tem a ver, portanto, com a urgência de um modelo capaz de explicar a origem destas mesmas figuras, na ordem de um processo contínuo e potencialmente infinito (e, portanto, relativamente independente das especificações linguísticas que lhe parecem inerentes e mais concernente, por sua vez, à dinâmica potencialmente liberadora das interpretações e da expressão através dos signos): segundo Eco, estas questões nos conduziriam a um modelo semântico que assume a forma de uma enciclopédia, e que faz correlacionar o problema do significado aos aspectos definidores de uma pragmática da significação, assunto de nossa próxima aula, a seguir.

Leitura Obrigatória:
Barthes, Roland. “Significado/significante”. In: Elementos de Semiologia
Eco, Umberto. “Dicionário vs. Enciclopédia”: in: Semiótica e Filosofia da Linguagem
Hjelmslev, Louis. “Expressão e conteúdo”. In: Prolegômenos a um a Teoria da Linguagem

Próximas Leituras:
Eco, Umberto. “Dicionário vs. enciclopédia”. In: Semiótica e Filosofia da Linguagem



terça-feira, 29 de novembro de 2011

Notas da última aula: do sentido e da referência, em Frege e Eco


Introdução a Semiótica (GEC 107)
Aula no 9 (23/11/2011)
Abordagens Lógicas do Significado: sentido e referência, em Frege e Eco

1. Se fixarmos nossa atenção ao modo como Umberto Eco introduz, em seu texto, a dimensão na qual os significados podem interessar às teorias semióticas, já vimos, pela exposição anterior que o tratamento deste conceito deve ser depurado das tinturas metafísicas que o caráter remissivo dos signos parece implicar: o conceito que a semiótica toma por centro de suas interrogações, naquilo que respeita o fato de que “non esse signum nisi aliquid significet”, os significados não podem ser assumidos na condição de uma entidade independente dos processos de significação, mas como o contexto de uma função sígnica; decorrência deste seu aspecto relacional, a idéia mesma de que os signos se definam como “função de remetimento”, coloca em vista o problema de como definir aquilo para o quê os signos estão, necessariamente.

2. O esforço de Eco por depurar conceitualmente aquilo a que podemos chamar de significados ecoa (perdoe-nos a infâmia) certas preocupações que já vislumbramos, em capítulos anteriores deste percurso, quando nos perguntávamos sobre os fundamentos ontológicos da pergunta sobre como compreendemos realidades: basta que nos recordemos do destaque que Quine faz, em “Sobre o ser”, para a distinção muito importante entre ter sentido e nomear, quando se interroga sobre que tipo de ontologia deve servir de base para a verificação de asserções sobre a existência de alguma coisa (em especial quando consideramos expressões que contêm variáveis pertencentes a discursos como os da ficção e da matemática). Uma ontologia que admite números e entidades ficcionais não pode ser estruturada na admissão de que os termos que designam tais coisas funcionem como substantivos ou nomes próprios.

“Comprometemo-nos com uma ontologia que contem números quando dizeos que há números primos maiores que um milhão; comprometemo-nos com uma ontologia que contem centauros quando dizemos que há centauros; e comprometemo-nos com uma ontologia que contem Pégaso que dizemos que há Pégaso. Mas não nos comprometemos com uma ontologia que contem Pégeaso, ou o autor de Waverley, ou a cúpula quadrada-redonda do Berkeley College, quando dizemos que Pégaso, ou o autor de Waverley ou a cúpula em questão,  não existem. Já não precisamos ser vítimas da ilusão de que o fato de que uma declarativa com um termo singular ter sentido pressupõe uma entidade nomeada pelo termo. Não é necessário que um termo singular nomeie para ter sentido”. Quine, “Sobre o que há”: p. 28.

3. Em Umberto Eco, estas questões ressoam como uma pergunta sobre qual é mesmo o caráter deste “remetido” que inere a toda significação, pelo qual afirmamos que uma expressão qualquer lhe faz referência: é ele da ordem de uma entidade existente, ou pede de nós outro critério para sua definição? Pois quando nos exprimimos sobre a relação entre a rainha e a feminilidade (mais simplesmente, quando dizemos “A rainha é uma mulher”), o que assumimos como real acerca desta expressão tem certa relação com aquilo que chamaríamos de sua verdade ou falsidade: em que sentido, os critérios de verdade, neste caso, seriam derivados da atualidade desta expressão?

“Decidimos definir provisoriamente como significado o que poderia localizar um remetido (um indivíduo, uma relação, um conceito, uma propriedade, um estado de coisas) em ao menos um mundo possível, independentemente de cada atribuição de existência atual (...). Por isso, pode-se provisoriamente decidir definir o significado de uma expressão também como tudo o que é passível de interpretação.” Eco, “Dicionário vs. Enciclopédia”: pp. 65,66.

4. Na medida em que a questão do significado implica em uma distinção especial entre os objetos do remetimento de um juízo e a ordem da referência, se introduz na discussão o horizonte no qual os significados implicam uma certa metafísica da referência: pois é neste ponto que se conectam as questões que abordamos na seção anterior e o estatuto semiótico do significado (ao menos no que respeita as versões que caracterizam as abordagens que o pensam a partir de marcos lógicos). Eco faz claras menções a esta distinção (originária em parte dos escritos de Frege) e tenta recobrar o fundo lógico e epistêmico da questão do significado, a partir da diferenciação entre o remetido e a referência (isto é, entre o caráter ontologicamente determinado do objeto dos signos – seu aspecto de coisa ou de entidade remetida - e o caráter funcionalmente determinado deste remetimento – isto é, o fato de que o significado é, como nos lembra Barthes, “relativo à significação e não à coisa significada”).

5. Assim sendo, podemos contemplar que a reflexão sobre os significados, assumida sua decorrência com respeito ao fato de que os signos são definidos fundamentalmente como relações, transfere para a análise de seus conteúdos, as mesmas constrições submetidas ao conceito mesmo de signo: se considerarmos o discurso lógicos sobre significados, de uma maneira geral, falar dos conteúdos não é, assim, falar das coisas às quais remetemos nossas expressões, mas sim da posição assumida pelo significado no contexto das operações e lugares estruturais sob os quais se especifica esta remissão dos signos a uma realidade atual ou possível; enfim, os significados são termos das funções sob as quais o pensamento põe em relação duas instancias de seu momentâneo interesse.

6. Ao recuperar os fundamentos lógicos da distinção entre significado e referencia, Eco nos relembra este aspecto da semiótica dos estóicos – aquela que permitiu a síntese entre as abordagens inferenciais e lingüísticas das teorias da significação – pelo qual a questão do significado era relativa ao quão dependente de contextos intra-discursivos se poderia supor que fossem os termos de uma proposição: ainda que os termos simples portadores de um significado já definido (podemos dizer aqui, os nomes próprios e os substantivos) estejam na condição de fontes sobre as quais proposições podem estipular alguma verdade acerca delas, há que se estabelecer um limite entre este significado previamente determinado e aquele mediante o qual estes termos mais simples (os lektá completos) entram em jogo na estrutura da predicação e da veridição.

7. Pois, ao entrarem em jogo com outros termos da proposição, explicita-se algo que não era tão claro, quando considerávamos o significados como originários da atomicidade dos termos simples: ao estabelecer com estes uma relação, a função dos predicados (e também, em certa medida, a dos verbos, dos indicativos e mesmo a das preposições) é a de segmentar aspectualmente o universo da referencia, instituindo uma ordem da compreensão das sentenças, que depende fundamentalmente de que se considere precisamente o conjunte de propriedades que o predicado pertinentiza acerca dos sujeitos. Em termos, o que uma proposição realiza, a titulo de função semântica, é fixar, na ordem predefinida da referência dos nomes próprios, um sentido específico com o qual tais nomes pode ser compreendidos, em situação: tudo isto implica pelo menos duas maneiras de se tomar em causa a questão do significado, como veremos a seguir.

“O problema do significado diz respeito então às convenções de significação essenciais à realização dos processos de referencia. Se se decide chamar intensão de y as propriedades que circunscrevem x e extensão a classe de todos os z a que o par y/z pode referir-se, dir-se-á que a determinação das intensões precede e funda a possibilidade do uso extensional, embora de um ponto de vista empírico um lingüista que não conheça os significados das palavras de uma certa língua proceda de modo oposto e procure ver a que objetos as palavras se referem”. Eco, ibid: p. 67

8. Um aspecto importante que decorre de um certo modo de distinguir os valores semânticos de termos simples e de proposições tem a ver com o caráter cognitivo da informação que estas diferentes expressões podem portar: se considerarmos, por exemplo, a sinonímia entre dois termos simples, podemos nos perguntar se há algo de novo que podemos adquirir acerca de sua semântica, que não seja apenas da ordem da extensão de um nome próprio. Digamos que eu esteja pensando nos significados de “Aristóteles” e “estagirita” como sinônimos: como pensar a sinonímia, do ponto de vista das concepções que tenho sobre o valor de cada termo simples desta comparação? É bem certo que, numa dada medida, eles têm o mesmo objeto ou referente. A pergunta é: terão o mesmo significado? Ao predicar coisas sobre cada um deles (“...é um homem”; “...foi aluno de Platão”; “...escreveu a Poética”; “...erao pai de Nicômaco”), as expressões que as contêm têm o mesmo valor?

9. Ao considerar que nem sempre no uso corriqueiro da linguagem estamos preocupados com o objeto de nossas expressões, mas apenas com o modo gramatical de apresentá-las, Frege assume uma distinção sugestiva entre os nomes como formas de apresentação nas quais um objeto é designado (seu sentido, em termos fregeanos), e sua referência propriamente dita: numa certa parte de seu texto, ele estabelece que o sentido é aquilo que exprimimos (através de um nome próprio, por exemplo), ao passo que a referência é aquilo que esta expressão representa.

“É, pois, plausível, pensar que exista, unido a um sinal, (nome, combinação de palavras, letras), além daquilo por ele designado, que pode ser chamado de sua referência, ainda o que eu gostaria de chamar de o sentido do sinal, onde está contido o modo de apresentação do objeto. Consequentemente, segundo nosso exemplo, a referência das expressões ‘o ponto de interseção de a e b’ e ‘o ponto de interseção de b e c’ seria a mesma, mas não o seu sentido. A referencia de ‘Estrela da Tarde’ e ‘Estrela da Manhã’ seria a mesma, mas não o sentido”. Cf. Frege, “Sobre sentido e referência”: p. 62.

10. Reportando-se às idéias lógicas de Frege, Eco faz uma observação à distinção fregeana entre “sentido” e referência”, e que merece consideração, quando examinamos o conceito semiótico de significado. Como está particularmente interessado em depurar da noção fregeana de bedeutung qualquer implicação que a vincule a uma idéia estritamente substantiva dos objetos da significação, Eco impõe às idéias de Frege uma certa cláusula restritiva: em primeiro lugar, ela envolve um esclarecimento sobre o conceito mesmo de “objeto”, na semântica lógica fregeana, pois este não envolve qualquer admissão sobre entidades físicas ou classes das mesmas, mas sobretudo o preenchimento ou não de funções ligadas à produção de juízos (o objeto é, assim, um dos termos da relação pela qual o signo funciona).

11. Nestes termos, se a bedeutung de um nome próprio é seu objeto, não podemos supor que este seja uma entidade que é nomeada pelo signo (ou pelo substantivo), mas sim o horizonte de sua referência possível, em relação ao qual ele exprime um sentido determiando. Nestes termos, Frege estabelece a noção de que uma mesma referência (um mesmo sujeito de juízo ou predicado) pode ser expresso por variados sentidos: há de saída, toda uma hierarquia na qual o valor semântico de uma expressão compromete um sentido e, por sua vez, uma referência. Mas para que isto seja compreendido, não se pode supor que a referência seja um objeto, tampouco que a existência de objetos seja condição para uma expressão veicular sentidos. Para isto, é necessário mais clareza sobre o conceito mesmo de objeto, na semântica de Frege.

12. É em tais termos que, para Umberto Eco, a idéia fregeana de referência deve ser restituída a uma matriz ontológica que é a da mera “possibilidade” dos objetos de uma expressão serem tomados como reais: assim sendo, não é o caso de supormos que aquilo a que um nome próprio se refere deva ser um ente para construir uma referência, pois o objeto da significação se constrói num horizonte de possibilidades que o sentido de cada juízo pretende instaurar. No contexto específico do uso comunicacional das expressões, este lugar da referencia é completamente funcional e, mais importante, não pode ser construído fora do contexto dos sentidos que cada expressão particular lança: neste caso, temos que reconhecer que, mesmo empregando nomes e substantivos em nossas expressões (supondo que os mesmos possuam uma referencia determinada), eles apenas significam quando os introduzimos no contexto das proposições, sendo aí que sua referência passa a se determinar pelo significado proposicional, que nada mais é que seu sentido.

“Basta então, para falar da Bedeutung, que se possa descrever um objeto qualqer (indivíduo real, entidade fictícia, conceito matemático) por meio de uma série concomitante de sentidos. Desse modo, então, a Bedeutung de Frege teria mais relação com o que até esse momento é chamado significado do que com aquilo que é chamado referencia. A Bedeutung é o objeto construível de uma referencia possível”.  Cf. Eco, “Dicionário vs. Enciclopédia”: p. 70.

13. Esta questão tem um valor especial, quando consideramos, por exemplo, que o significado ou a referência de um signo não é da ordem de uma remissão à concretude existenicial de seus remetidos, mas à mera possibilidade de sua postulação: assim sendo, ao falarmos do significado de uma expressão como “o décimo segundo planeta de nosso sistema solar” (ou “o corpo celeste mais distante da Terra”), não podemos supor que nossa compreensão da expressão dependa da capacidade de se determinar um valor estritamente individual de sua referência. Se nos pomos de volta ao debate sobre os fundamentos ontológicos do significado, isto quer dizer que a existência ou o ser pressuposto na ordem das significações não é uma exigência empírica, mas estrutural: significa dizer que nossas afirmações sobre o ser, pressupostas em nosso modo de determinar os significados, encontram sua base não nos objetos da referencia, mas nas funções pelas quais um discurso sobre objetos realiza sentidos de uma existência possível.

14. A assimilação dos objetos à ordem funcional do discurso cumpre uma finalidade essencial da ordem lógica da significação, no que diz respeito aos diversos usos da expressão, quando dela depende que apreendamos seu sentido apenas, ou sua referencia: ainda que nos seja difícil imaginar como empiricamente determinados os objetos do juízo matemático ou astronômico (pois números e determinadas forças agentes não são observáveis imediatamente), não é o caso de as equipararmos ao discurso puramente ficcional ou artístico (no qual o compromisso com o sentido não requisita o recurso à veridição, portanto, à referencia). Frege insiste no fato de que tais discursos, se podem ser apreendidos, na ordem específica em que funcionam, é porque são auxiliares a uma busca da verdade, mesmo que esta última não coincida com critérios empíricos de verificação.

“Ao ouvir um poema épico, por exemplo, além da euforia da linguagem, estamos interessados apenas no sentido das sentenças e nas representações e sentimentos que este sentido evoca. A questão da verdade nos faria abandonar o encanto estético por uma atitude de investigação científica. Logo, é totalmente irrelevante para nós se o nome ‘Ulisses’, por exemplo, tem referencia, contanto que aceitemos o poema como uma obra de arte. É, pois, a busca da verdade, onde quer que seja, o que nos dirige do sentido para a referencia”. Frege, “Sobre sentido e referencia”: p. 68,69.

15. O único aspecto comum a expressões desta natureza, seja na ficção ou na ciência, é que não há nada, na ordem das extensões do conceito de “planeta de nosso sistema solar” (poderíamos incluir aí proposições sobre “Pégaso” ou “D’Artagnan”) que possa fixar um valor definido para sua asserção (pois sabemos que não há, dentre as coisas que cairiam sob este conceito, uma décima segunda entidade). Mas, se assumimos que podemos compreender o que esta expressão significa (o que é precisamente seu sentido), não podemos admitir que o problema de sua existência estaria posto na ordem de uma “possibilidade”, operando na imaginação fabuladora independentemente de critérios de verdade e no raciocínio lógico, a partir dos marcos dedutivo-hipotéticos da ciência astronômica?

Referências Bibliográficas:
Eco, Umberto. “Dicionário vs. enciclopédia”. In: Semiótica e Filosofia da Linguagem;
Frege, Gottlöb. “Sobre sentido e referência”. In: Lógica e Filosofia da Linguagem;
Quine, W.v.O. “Sobre o que há”. In: Existência e Linguagem: ensaios de metafísica analítica.

Próximas Leituras:
Barthes, Roland. “Significado/significante”. In: Elementos de Semiologia;
Eco, Umberto. “Dicionário vs. enciclopédia”. In: Semiótica e Filosofia da Linguagem;
Hjelmslev, Louis. “Expressão e conteúdo”. In: Prolegômenos a uma Teoria da Linguagem.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Notas da última aula: metafísica da referência, em Quine e Eco


Introdução a Semiótica (GEC 107)
Aula no 8 (16/11/2011)
Metafísica da Referência: a relação entre os significados e aquilo “que há”

1. Nos textos que sugerimos para introduzir certos problemas de uma teoria semiótica geral, o que parece próprio a esta disciplina não se exprime tanto por aquilo que caracteriza seu objeto (grosso modo, o estudo dos signos e de seus modos próprios de funcionar), mas por toda uma ordem de pressupostos que caracterizam o que chamaremos doravante de fundo especulativo dessas teorias, um conjunto de assunções mais ou menos tácitas sobre a estrutura na qual o problema dos regimes da compreensão funciona ou, em outra formulação, a concepção de mundo na qual a questão da compreensão dos signos tem alguma pertinência.

2. Uma dessas assunções, e que constitui uma espécie de discurso velado de todas as escolas semióticas, concerne a uma interrogação sobre a natureza de determinação daquilo que existe ou, ainda mais radicalmente, sobre o que significa atribuir existência ao que quer que seja: na raiz de todo e qualquer saber sobre signos e interpretação, há uma suposição sobre a relação entre significar e ser; grosso modo, é essa ordem de problemas que permeia os textos aqui sugeridos para leitura, e que pode ser resumida como uma pergunta sobre o que há, pois é ela que fornece uma espécie de suposto metafísico de toda teoria da significação. Exatamente que problema é esse e como é que ele nutre as teorias semióticas que constituirá nosso assunto no dia de hoje.

3. Numa série de textos muito importantes de uma certa filosofia da significação (que é representada por um dos textos da bibliografia), este problema do ser não se coloca em termos de uma admissão de que as coisas sobre as quais falamos são a razão de ser da linguagem ou do pensamento: veremos mais adiante que há uma diferença considerável entre “fazer sentido” e “referir-se a algo”, quando examinamos os fenômenos de significação. Ainda assim, entretanto, há algo acerca da existência que precede o dizer que nos captura, na idéia de um núcleo próprio do “ser”, e que torna virtualmente impossível à reflexão refugiar a existência exclusivamente na ordem dos esquemas inferenciais ou da institucionalidade partilhada da língua.

4. Em seu clássico texto de 1948, “On what there is”, Quine se entrega a este problema central da ontologia (a pergunta sobre “o que há”) e constata as dificuldades de se escapar à força com a qual sua mera formulação nos arrasta a pressupostos que poderíamos desejar deixar de lado, na discussão sobre as relações entre nossos modos de conhecer e a natureza dos objetos que se apresentam a esta faculdade: assim sendo, há uma implicação inevitável entre o conhecer (ou seus correlatos signfiicativos, como o “dizer”) e o “haver”, o que instaura um dilemma característico da filosofia platônica da verdade, pela qual o ser se torna inevitável para o discurso. Em termos, negar a existência daquilo sobre o que falamos é contradito pela própria natureza propositiva da linguagem, pois sempre falamos de algo que há.

5. Assim sendo, quando nos perguntamos sobre o significado de atribuir existência a entidades ficcionais como “Pégaso” ou a entidades matemáticas como “a raiz cúbica de 27”, como supor que o atributo do ser valha nesses casos do mesmo modo que o da existência de objetos postos no espaço-tempo físicos? Estamos falando rigorosamente de coisas não-existentes e ademais muito diferentes entre si (seu aspecto de existência depende de condições muito diferentes, em cada um deles). Examinemos cada um destes casos, com algum detalhe.

6. Ao dizermos que o resultado de uma operação se exprime na estrutura do “ser” (pois dizemos que “a raiz cúbica de 27 é 3”), não estamos predicando a partir de uma substância concreta que corresponda à expressão predicativa, mas produzindo o resultado de uma função (estamos consumando uma operação): o percurso no qual se realiza essa atribuição do ser, expressa pelo verbo que significa o resultado da função, não é o mesmo no qual dizemos que “Pégaso é um cavalo alado”; neste último caso, podemos supor que a existência de uma entidade foi proposta como correlato daquilo que se predica do sujeito (o estatuto dessa existência de “Pégaso” poderemos discutir, um pouco mais adiante).

7. Negar rigorosamente algum grau de existência a essas coisas parece implicar em certa contradição, pois, de todo modo, aplicamos a essas coisas que não existem os mesmos dispositivos lingüísticos e lógicos através dos quais falamos de coisas que existem: é assim que dizemos que “Pégaso” é um “animal” (fazemo-lo que se inclua a uma classe de coisas cuja extensão compreende entidades reais e com as quais ele poderá ser comparado, mesmo que não exista uma tal entidade incluída na classe pela qual se predica sobre ela); do mesmo modo é que o número “3” é a “raiz cúbica de 27” (atribuímos ao valor numérico uma determinada propriedade das operações matemáticas). Investimos essas coisas de um ser, predicando sobre elas, (e ainda assim, admitimos que, dizendo que elas podem ter tais atributos, elas mesmas, a rigor, não existem). Aonde está efetivamente o problema?

8. Num segmento de uma entrevista concedida ao filósofo Bryan Magee (num programa dedicado a seu próprio pensamento), Quine reexamina certos aspectos desta relação entre existência e significação, que merecem ser considerados, de modo a esclarecer um pouco mais o modo como signos e entendimento podem ser pensados na ordem de uma mutual implicação (como nos parece sugerir, por exemplo, a argumentação de Peirce contra o “espírito do cartesianismo”, no modo como a observamos, algumas sessões atrás).

Bryan Magee, “The Ideas of Quine” (s/d)

9. Em primeiro lugar, apresentando Quine como um dos grandes filósofos vivos do século XX (ao lado de Popper, Sartre e Chomsky, entre outros), Magee destaca o modo como certos problemas fundamentais da filosofia permanecem presentes na obra de um autor que desenvolveu (ao menos nas primeiras etapas de sua carreira) um estilo de tratamento para estas questões que pareceria excessivamente técnico, na perpsectiva de um leigo em assuntos filosóficos. Nestes termos, seria um privilégio, diz o entrevistador, poder interrogar a um eminente pensador nesta área, sobre como é que as questões básicas da filosofia se manifestam, mesmo a um pensador aparentemente tão hermético como Quine.

10. Perguntando sobre as tarefas centrais da filosofia, Quine então responde dizendo que ela é concernida como uma reflexão sobre a natureza das coisas ou, tomando uma expressão de Newton, com o "sistema do mundo": nestes termos, reconhece quem suponha com isto que a filosofia tenha um papel de orientar a atividade científica, crença esta que Quine considera um "sonho vazio"; ao invés de orientar o trabalho da ciência na resolução de seus problemas, a filosofia é contínua com este campo, recolhendo muitas de suas questões do modo como a ciência opera, sem contudo se reduzir a seus termos nem tampouco servir para ela de base ou fundamento.

11. Isto posto, resta saber quais são, efetivamente falando, as diferenças entre ciência e filosofia: para Quine, a resposta é a de que a ciência é um continuum, que se desenvolve, desde os setores mais conectados com a especificidade do mundo (a física, a engenharia, a medicina, a história, a geografia), até aqueles em que esta relação com a realidade vai se tornando cada vez mais abstrata e menos específica (como a filosofia e a matemática). Nestes termos, a filosofia e a ciência se distingüem na generalidade que própria à primeira e não à segunda.

12. Desta admissão é que decorrem os exemplos de Quine sobre o modo como a física assume de antemão o conceito de causa e seu compromisso existencial prévio, ao passo que o filósofo se pergunta precisamente sobre as condições que o conceito deve preencher, de modo a que se possa dizer de qual quer coisa ou relação que nelas opera algo chamado de causalidade (ou de relação consequencial). De tal maneira a diferença entre o físico e o filósofo se instala que Quine reitera que a filosofia se define pela abstração e generalidade com a qual trata problemas que a ciência explora na especificidade de sua manifestação (pensemos, apenas como ilustração sobre a diferença de abordagens entre ciência e filosofia, sobre que tipo de médico clinicaria, por exemplo, colocando em dúvida a metafísica do conceito de ser vivo, diante de um caso de um paciente em particular).

13. Destacando que a análise de questões sobre, por exemplo, "como a vida tem origem" ou "quando o universo começou" são problemas característicos de certos ramos da ciência, Quine manifesta assentimento com a sugestão de Magee de que a filosofia tem por tarefa examinar os conceitos fundamentais dos ramos nos quais se define a atividade humana: é nestes termos que Magge fala de uma investigação sobre o "tecido conectivo do pensamento", o substrato sobre o qual é possível pensar que a causa é uma relação entre coisas ou eventos, que a vida é um fenômeno definível através do reconhecimento de certas características do mundo, e que a identidade entre partes do mundo é um critério pelo qual definimos que alguma coisa, mui simplesmente, "é".

14. E aqui começamos a chegar no ponto pelo qual a fala de Quine ilustra o ponto em que nos debatemos neste início de curso: perguntado por Magee se as questões filosóficas poderiam ser resumidas, de alguma maneira, Quine agrupa estes problemas em duas vertentes principais, a saber, as questões ontológicas ("o que há", "o que é existir") e as questões epistemológicas ("o que podemos saber sobre o que há", "o que se pode dizer com sentido"). Necessário é destacar o quanto as questões epistemológicas requisitam uma considerável clarificação das questões metafíficas, em suma: o quanto as perguntas sobre o sentido dependem de uma absoluta nitidez com a qual estabelecemos a resposta aos problemas sobre a existência.

15. Daí em diante, Quine e Magee entram em questões mais detalhadas sobre como se pode formular a questão sobre o que há: em primeiro lugar, Quine reitera sua posição enquanto materialista, em termos ontológicos (ou seja, o que há é algo que antecede e, até mesmo excede aquilo que pensamos sobre a realidade), de modo a distinguir sua posição daquela que caracteriza o convencionalismo ou o idealismo (para a qual a realidade é integralmente um produto mental). O que Quine introduz ao debate é a necessidade de pensar os "tipos de objetos" sobre os quais falamos e os critérios de existência que lhe são próprios ou comuns (objetos físicos e objetos abstratos precisam ser analisados, no que respeita os modos de dizer que são alguma coisa). Isto posto, a exploração destes detalhes do argumento de Quine não nos interessam neste momento, razão pela qual deixarei de comentar estes aspectos.

16. Quando nos deslocamos para o primeiro capítulo de Kant e o Ornitorrinco, de Umberto Eco – sob o título apropriado de “Sobre o ser” – nos encontramos no mesmo emaranhado problemático da pergunta sobre este núcleo da realidade: recapitulando as etapas da construção do problema da metafísica, desde Aristóteles (“o que é o ser, propriamente?”), notamos que este objeto é, de um lado, condição existencial, horizonte de experiências, perspectiva do discurso e do conhecimento; pois este haver condiciona até mesma a pergunta que podemos fazer sobre sua realidade (é nestes termos que Quine nos lembra da famosa “barba de Platão”). Mas Eco reconhece, de outro lado, que se o ser é antecedente ao discurso, se manifesta – ao menos naquilo em que ele nos concerne – no dizer; se ele é condição de nossa entrada no mundo, para nós não se manifesta em outro registro que não o de nossa interpretação. Tudo isto confere uma dignidade semiótica aos problemas da ontologia.

“No momento em que paramos à sua frente, o ser suscita interpretação; no momento em que podemos falar sobre ele, este já é interpretado. Não há mais nada a fazer (…). Com maior razão, o ser não existe nem deixa de existir sem palavras para Aristóteles: está ali, estamos dentro dele, mas não pensamos estar. A ontologia de Aristóteles, dissemos amplamente, tem raízes verbais. Na Metafísica, cada menção ao ser, cada pergunta e resposta sobre o ser está no contexto de um verbum dicendi (seja ele leghéin, semainein ou outro).”. Cf. Eco, “Sobre o ser”: p. 27.

17. No texto de Quine, ele se pergunta sobre a eficácia da resposta que damos à questão sobre “o que há”: quando dizemos que o que há é simplesmente “tudo”, apenas desviamos o foco da questão para a confirmação de que aquilo de que falamos deveria “haver”, de algum modo, mas com pouco esclarecimento sobre o significado desse compromisso entre afirmar uma existência e concretizá-la, de alguma maneira, no discurso. A importância das questões de ontologia para as teorias semióticas decorre precisamente do fato de que, em muitos casos, o que se exprime numa teoria da significação é a dependência entre o chamamos de “mundo”, “realidade”, “existência”, “ser”, de um lado, e a ordem do discurso, de outro. Tudo isso parece, uma vez mais, comprometer a teoria da significação com uma idéia de transcendência dessa mediação simbólica em relação a fisicalidade do mundo.

18. Em suma, todo discurso sobre a significação envolve uma espécie de “fundo ontológico”, o que quer dizer que não podemos falar sobre as relações entre signos, pensamento e linguagem, sem implicarmos aí uma certa concepção sobre a realidade: ou a realidade é aquilo que o próprio signo define como sendo uma instância de sua compreensão, o que será assunto de uma teoria semântica; ou então, o compromisso ontológico não se estabelece na relação puramente dual da significação (na reportagem entre linguagem e mundo, como instâncias ontologicamente independentes), mas no fato de que o próprio signo é constituído, em sua estrutura mesma, com capaz de instaurar, por suas próprias forces, uma realidade, desde que devidamente assimilado aos vários possíveis sistemas de referências ao qual poderá pertencer.

“Ser suposto como uma entidade é, pura e simplesmente, ser contado como o valor de uma variável. Em termos das categorias da gramática tradicional, isto equivale aproximadamente a dizer que ser é estar no domínio de referência de um pronome.”. Cf. Quine, “Sobre o que há”: p. 32.

19. Se usarmos a expressão “algo significa alguma coisa”, numa acepção um pouco mais larga do que aquela pela qual dizemos “algo representa alguma coisa”, poderemos talvez entender como é possível que uma operação matemática possa dizer que as relações entre entidades numéricas é da ordem do “ser”: o resultado de uma equação simples é aquilo que esta operação significa, do ponto de vista de sua finalidade. mais importante que isso, entretanto, a idéia de que expressões lógicas possuam significar implica na admissão de que há um sistema simbólico de base sob o qual funciona o discurso matemático, e quem quer que o compreenda, sabe que, ao atribuir um sentido de existência ao resultado de uma operação, está-se fazendo algo de específico na relação entre seus elementos.

20. Para dizer de outro modo, quando estamos cientes acerca da natureza dos objetos que nos circundam, já inscrevemos sua hipotética anterioridade aos aspectos através dos quais nosso pensamento torna essas coisas menos indiferentes a nós. Voltando ao exemplo da presença desta cadeira diante de mim, sua realidade me concerne sempre sob algum dos aspectos pelos quais sua manifestação se destaca em minha atenção, e de tal modo é ssim que dizer que ela é parte de uma experiência implica em que consideremos esta exterioridade e fisicalidade como que deflacionadas em seu poder de determinar o que isto efetivamente é.

Referências Bibliográficas:
Eco, Umberto. “Sobre o ser”. In: Kant e o Ornitorrinco;
Quine, W.V.O. “Sobre o que há”. In et al.: Existência e Linguagem.

Próximas Leituras:
Barthes, Roland. “Significado/significante”. In: Elementos de Semiologia;
Eco, Umberto. “Dicionário vs. enciclopedia”. In: Semiótica e Filosofia da Linguagem;
Frege, Gottlob. “Sobre sentido e referência”. In: Lógica e Filosofia da Linguagem.