quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Notas da última aula: significados e figuras do conteúdo, em Hjelmslev e Eco


Introdução a Semiótica (GEC 107)
Aula no 10 (30/11/2011)
Significado e figuras do conteúdo na Semântica Estrutural (Eco, Barthes e Hjelmslev)

1. A partir das definições de Saussure sobre o signo lingüístico (como união indissociável entre significante e significado), estamos na mesma situação que descrevêramos anteriormente, no que concerne o estatuto ontológico que define os remetidos, na perspectiva do logicismo de Frege (o que afeta igualmente a definição de Peirce sobre o remetido, enquanto função “interpretante” de uma relação possível entre um “fundamento” e um “objeto”): do mesmo modo que na tradição lógica do estudo dos signos, a compreensão dos signos arbitrários não nos permite separar nas manifestações de um sentido comunicacional aquilo que é da ordem dos signos e aquilo que é da ordem de seu significado possível. De fato, inclusive, já exploramos este ponto, quando consideramos a definição mesma do signo linguístico, em Saussure.

2. Mesmo nas observações posteriores de Barthes sobre a união necessária entre o plano da expressão e o plano do conteúdo, na definição do signo semiológico, a ordem dos significados não pode ser exterior à definição mesma dos signos, mas está necesariamente comprometida com o regime de remetimento que é inerente à sua definição enquanto “função sígnica”. Na prática, aquilo que devemos separar no signo, de uma perspectiva de sua análise interna, dispõe em lugares próprios uma porção própria de veiculação (característica de sua porção significante) e uma outra, de destinação (definidora do significado): apenas neste sentido puramente analítico se pode conceber a separação dos significados enquanto tópico de interesse para as teorias semióticas.

3. Nos Élements de Sémiologie, Barthes dispõe a interrogação sobre o estatuto teórico dos significados face a uma ordem de problemas que é interna ao projeto de uma semântica estrutural (portanto, característica de um ramo das explorações da Linguística, enquanto tal): tendo em vista que a semiologia lida sobretudo com os fenômenos extra-linguísticos, o problema do significado é correlativo a um aspecto estrutural da compreensão das funções semânticas destas práticas, a que Barthes designa como “isologia”; assim sendo, o significado semiológico manifesta-se sempre numa estrutura que é própria à forma de uma proposição linguística, sendo aqui previsamente que se confirma a irredutibilidade ds fatos semiológicos aos princípios linguísticos de sua constituição

“No essencial, a situação não poderia ser diferente em Semiologia, em que objetos, imagens, gestos, etc., tanto quanto sejam significantes, remetem a algo que só é dizível por meio deles, salvo esta circunstância segundo a qua los signos da lingual podem encarregar-se do significado semiológico; diremos, por exemplo, que tal suéter significa os longos passeios de outono nos bosques; neste caso, o significado não é somente mediatizado pelo seu significante indumentario (o suéter), mas também por um fragmanto de palavra (o que é uma grande vantagem para manejá-lo); poderíamos dar o nome de isologia ao fenômeno pelo qual a lingua ‘cola’, de modo indiscernível e indissociável, seus significantes e significados.” Cf. Barthes, Roland. “Significado/Significante”: pp. 46,47.

4. A admissão deste aspecto específico do significado semiológico parece implicar uma longa tradição na qual o problema da compreensão chama em causa o status ontológico dos referentes aos quais correlacionamos uma expressão, e de que já tratamos, com algum vagar, no capítulo sobre a abordagem lógica dos significados: no caso das abordagens lógicas, se estipula que o sentido de uma expressão é algo que se distingue da referência pela qual um objeto é especificado como sendo aquele ao qual a expressão corresponde ou representa. As abordagens semiológicas introduzem uma nova variável para a abordagem dos significados, e que introduzem a dependência possível entre os conteúdos semiológicos e a ordem linguística de sua compreensão: assim sendo, a “dizibilidade” essencial de todo e qualquer material significante (e que venha a constituir um universo de manifestações semiológicas) introduz o problema do significado, em Barthes como algo que tem demarcação ou origem na ordem do dizer, nas formas do discurso.

5. Tudo isto, evidentemente, aporta toda uma série de riscos para uma teoria dos signos, no sentido de uma certa definição circular dos significados, fato que é reconhecido pelo próprio Barthes: o significado não é algo de simplesmente real (isto é, puramente anterior à nossos modos de compreensão e independente de nossas inclinações de interpretação), mas algo de real que só se torna mais específico quando assume seu valor próprio, correlativamente ao modo de manifestação dos signos (isto é, como “fato de significação”). Correndo o risco de antecipar um tema caro à uma metafísica inspirada semioticamente, tudo isto apenas significa que o conceito de signo e de significado não podem se separar do de significação, isto é da ação na qual o remetimento e a veiculação sígnicas se encontram inevitavelmente unidos. Deixemos esta questão em silêncio, por ora, apenas.

“Em Linguística, a natureza do significado deu lugar a discusses, sobretudo referentes a seu grau de ‘realidade’ (…); o próprio Saussure notou bem a natureza psíquica do significado, ao denominá-lo conceito: o significado da palavra boi não é o animal boi, mas sua imagem psíquica (…). Essas discussões permanecem todavia impregnadas de psicologismo; preferimos talvez seguir a análise dos estóicos; estes distinguiam cuidadosamente a (…) representação psíquica (…), a coisa real (…) e o ‘dizível’ (…); não sendo nem ato de consciência nem realidade, o significado só pode ser definido dentro do processo de significação, de um amaneira praticamente tautológica: é este ‘algo’ que quem emprega o termo entende por ele”. Cf. Barthes,”Significado/significante”: p. 46.

6. Na sua definição mesma do signo semiológico, feita um pouco antes – neste mesmo capítulo em que discute os elementos constituintes do signo - Barthes incorpora do modelo lingüístico de Louis Hjelmslev a noção de que a definição de signo deve ser contemplada em seu aspecto de fato relacional: em verdade, Hjelmeslev assimila a esta idéia de relação um projeto inteiro de sua ontologia da significação, em certa medida. É através da valorização das necessárias “interdependências” que caracterizam o sistema da língua que ele é levado a considerar a “função sígnica” (portanto, a relação entre termos) como núcleo de uma teoria geral da significação, ao invés de pensar a unidade do signo através de sua redução aos marcos de uma substância ou de um objeto das teorias semiológicas.

7. Nestes termos, o que constitui o signo como objeto de estudos é, em primeiro lugar, o fato de que ele é tomado essencialmente como “relação” e não como “coisa” (o que poderia estar implicado pelo fato de que, na história do signo, ele veio sendo definido invariavelmente como “uma coisa que é relativa a outras coisas”): tomado na condição de uma relação, ele se define pelo modo com contrai os elementos que entram em jogo, nos processo de significação.

8. Neste ponto, o signo é definido essencialmente como a função que joga com dois termos, invariavelmente: de um lado, a expressão através da qual o signo é necessariamente o caráter necessariamente maniefsto de um sentido (seja ele, pretendido, seja ele instituído arbitrariamente); do outro lado desta função encontra-se o conteúdo do signo, pelo qual sua ocorrência é mensurada em seu aspecto de destinação (ou, mais propriamnete falado, de significado). De maneira que é importante para nós destacar, nesta perspectiva em que se definem como “conteúdos” do signo, os significados são mais uma vez definidos como entidades internas ao próprio signo, num tipo de concepção sobre o funcionamento de nossos modos de compreensão que congrega na unidade sígnica seus modos de manifestação e seus poderes de referência.

“Não poderá haver função semiótica sem a presença simultânea desses dois funtivos, do mesmo modo como nem uma expressão e seu conteúdo e nem um conteúdo e sua expressão poderão existir sem a função semiótica que os une”. Cf. Hjelmslev, Louis. “Expressão e conteúdo”: p. 54.

9. Mas nos resta refletir sobre que espécies de fundamentos sustentam o caráter puramente funcional dos conteúdos, pois uma vez tomados nesta condição de termos da relação sígnica, eles perdem de saída uma suposta objetualidade que deveriam preencher: ainda na linhagem das concepções de Hjelmslev, Barthes considera os dois planos da relação sígnica devem-se subdividir igualmente, em substância e forma; no caso dos conteúdos, portanto, devemos separar os aspectos emotivos, ideológicos ou nocionais do significado (não especificáveis em termos exclusivamente linguísticos) daqueles que definem a organização formal dos significados, por ausência ou presença de marcas semânticas (sendo estes especificáveis em termos do que a estrutura da língua estabelece).

10. Tomando da definição de Saussure os elementos para pensar a função semiótica, naquilo que ela aporta o caráter de sistema à lingua (sua normatividade e arbitrariedade), Hjelmslev identifica na “forma” e não na “substância” dos conteúdos o caráter de funtivo através do qual os significados se introduzem ao sistema de regras que constitui a lingual enquanto objeto de estudos.

“Numa ciência que evita qualquer postulado não necessário, nada autoriza que se faça proceder a lingual pela ‘substância do conteúdo’ (pensamento) ou pela ‘substância da expressão’ (cadeia fônica) ou o contrário, quer seja numa ordemtemporal ou numa ordem hierárquica. Se conservamos a terminlogia de Sassure, temos então de nos dar conta – e justamente a partir de seus dados – de que a substância depende exclusivamente da forma e que não se pode, em sentido algum, atribuir-lhe uma existência independente”. Hjelmslev, Louis. “Expressão e conteúdo”: p. 55.

11. Na segunda parte de “Dicionário vs. enciclopédia”, Eco procura restituir os passos da reflexão hjlmsleveana sobre as relações entre o significado e as formas do conteúdo: ele reconhece que, dentre os artifícios teóricos dos quais nos valemos comumente para definir os significados, um dos mais freqüentes é aquele que assimila a idéia de remetimento à de sinonímia; quer consideremos as funções de definição, nomeação ou comparação entre nossas expressões e aquilo que as mesmas significam, em geral tratamos o domínio dos remetidos como sendo um correlato do que pode ser assumido como símile da expressão ela mesma. O problema de uma tal concepção do significado é o de sua evidente circularidade ou bicondicionalidade. Nestes termos, é melhor que se trabalhe com a idéia de que o universo da referência possui uma base categorial, isto é, o que chamamos de significado tem menos correlação com os fundamentos convencionais da sinonímia e muito mais com a estrutura categorial dos processos de referência.

“A forma da expressão torna pertinente uma determinada porção do sontinuum (sons, timbres, relações espaciais, etc.), construindo um sistema de tipos estruturado por oposições e cujas substâncias são cada uma das ocorrências. Do mesmo modo, a forma do conteúdo estrutura determinadas porções (idealmente, a totalidade) do continuum do exprimível (em outras palavras, o mundo como experiência possível), construindo um sistema de tipos estruturado por mútuas oposições”. Cf. Eco, “Dicionário vs. enciclopédia”: p.81.

12. Nestes termos, o objeto que caracteriza os significados, numa perspectiva mais próxima dos fatos lingüísticos, tem a ver com o problema da organização formal dos conteúdos da referência ou, em linguajar estrutural, tem a ver com as formas do conteúdo. O que isto significa? Na mesma perspectiva em que Barthes destaca a dependência do conceito de significado com respeito aos processos de significação, aqui, a noção de conteúdo destaca no âmbito da necessária remissão sígnica, seus aspectos puramente estruturais, em detrimento de suas substâncias originárias. Dizendo de outro modo, é necessário isolar, na análise dos significados, tudo aquilo que é circunstancial para sua referência, privilegiando os aspectos que, de um ponto de vista lingüístico, são permanentes. Restando ainda o desafio de descrever quais seriam mesmo esses elementos estruturais ou da forma do significado.

13. Em primeiro lugar, de um ponto de vista estrutural, os conteúdos não podem ser assumidos como estritamente coincidentes com a definição meramente assertiva daquilo que é associado à referência, ou seja, os significados não são a expressão pela qual definimos um determinado conteúdo. Melhor dizendo, a questão se põe da seguinte maneira: que assumamos que os conteúdos são aquilo que definimos como associado às expressões (por exemplo, definir a expressão simples “gato” como significando “animal quadrúpede da espécie dos felinos domésticos, do gênero masculino”) não se explica pelo caráter puramente afirmativo da definição mesma, posto que esta é apenas o ponto terminal dos processos de significação associados ao uso desta expressão.

14. Em suma, tomar os conteúdos como sendo definidos implica em que os assumamos como resultantes de uma composição de elementos mais básicos desta definção, e que são características de todo e qualquer processo semiósico: e o que faz a análise semântica é precisamente isolar os componentes estruturais desse processo. Ora, se somos conduzidos a definir aquela mesma expressão “gato”, nos termos que adotamos para sua referência usual, temos que reconhecer que esta maneira de defini-lo nos conduz, cada vez mais longe num processo de enredamento dos significados em um sistema complexo de conceitos e categorias que servem de base para a produção dos conteúdos: o que temos em vista aqui na exploração semiológica dos significados é a necessária correlação entre os conteúdos de um signo e a matriz categorial de sua formação.

15. Assim sendo, o valor definicional de uma unidade mínima de sentido (no caso da linguagem, uma palavra) será sempre decorrente da capacidade de estabelecermos, mediante análise semântica, uma correlação entre sua ocorrência concreta associada a uma expressão, e a ocorrência de outras unidades a ela associadas, a partir de critérios que são muito mais estruturais do que empíricos: assim sendo, a análise do significado tenta reduzir em figuras componenciais, de caráter numericamente limitadas (daí porque são “formas” e não “substâncias” do conteúdo) todo o universo de variáveis referenciais através das quais produzimos um sentido determinado para nossas expressões.

16. Segundo Eco, esta modalidade de uma abordagem dos significados nos permite isolar uma série de fenômenos semânticos que se definem precisamente nestes termos estruturais. Quais seriam estes elementos do processo semântico? No caso de uma expressão simples como “ovelha”, Eco identifica pelo menos doze fenómenos desta ordem:

“I) sinonímia e paráfrase (uma ovelha é um ovino fêmea); II) similaridade e diferença (há um componente semântico comum entre ovelha e garanhão, ou entre garanhão e égua, enquanto de outro lado se podem estabelecer com base em que outros components essas várias entidades de conteúdo se distinguem); III) antonímia (/homem/ é antônimo de /mulher/); IV) hiponímia e hiperonímia (/equino/ é o hiperônimo cujo hipônimo é /garanhão/); V) sensatez e anomalia semântica (/os garanhões são machos/ é dotado de sentido, enquanto /um garanhão fêmea/ é semanticamente anômalo); VI) redundância (infelizmente, enquanto exemplo de dicionário, por causa de seu formato reduzido, a redundância coincide com a sensatez…); VII) ambiguidade (um diconário mais amplo deveria explicar a diferença entre /toro/ como animal e /toro/ como figura topológica, e resolver as ambigïdades que resultam desta homonímia); VIII) verdade analítica (…); IX) contraditoriedade (não se pode dizer /as éguas são machos/); X) concisão (o dicionário estabelece que expressões como /as ovelhas produzem lã/ dependem de conhecimento do mundo); XI) inconsistência (/esta é uma ovelha/ e /este é um carneiro/ não podem ser afirmados como igualmente verdadeiros, se atribuídos ao mesmo indivíduo); XII) inclusão e implicitação semântica”. Cf. Eco, “Dicionário vs. enciclopédia”: pp. 84,85
     
17. A análise semântica em operação: quando consideramos um enunciado qualquer, como uma ocorrência concreta, na perspectiva da análise de seu significado, aquilo que nos interessa é o reconhecimento da correspondência entre esta mesma ocorrência e um inventário prévio de “tipos abstratos” equivalentes (supostamente especificados na forma de um sistema semântico, cujo fundamento é uma espécie de ordenamento conceitual dos campo semântico): assim sendo, face ao enunciado “Hoje, a maça está muito cara”, a determinação de seu suposto significado dependerá do modo como supomos encontrar repertoriado, em formas (isto é, nas figuras componenciais de seu significado) o conteúdo correspondente à forma de sua expressão.

18. Em termos mais precisos, falar do significado global desta sentença implicaria em determinar que cada um de seus termos possa estar previamente definido na forma de seus conteúdos. No caso da expressão que temos em vista, as coisas ficariam mais ou menos assim:

·       “Hoje” seria uma ocorrência concreta de um tipo semântico ligado a oposições de significado na ordem de expressões sobre tempo;
·   “a” seria uma especificação semântica de figuras de determinação do gênero (“masculino/feminino”), assim como em número “singular/plural”);
·       “maçã” seria a especificação de uma substância, na ordem das oposições que se poderia estabelecer na imensa árvore dos conceitos sobre seres vivos (desde a ordem dos reinos, até as espécies);
·       “está” manifestaria um caso de uma ação (um lekton, portanto um “inominável” ou “dizível”, mas semanticamente especificável em termos de relações efetivas entre os sujeitos do enunciado, nos termos de uma flexão temporal e de número);
·   “muito” seria o termo que especifica qualidades de intensidade, como determinadas no âmbito de sua possível gradação;
·      “cara” seria a inscrição de um valor semântico originado nas oposições possíveis de conceitos sobre valor.  

19. Deste modo, a modelação de um campo semântico se constituiria como operação que estrutura seus conteúdos na forma de termos de um possível dicionário finito de figuras da referência: justamente em razão de conceber o sistema dos conteúdos semânticos como um inventário finito de figuras componenciais do significado, o modelo da análise semântica hjelmsleveano assume esta forma - identificada por Eco - de um modelo semântico de dicionário, isto é, de um dispositivo inventariador de figuras do conteúdo, tomadas necessariamente na sua condição geral e abstrata, fixas do ponto de vista de seu valor extensional (portanto, previamente dados na assertividade de suas definições) e finalmente capazes de segmentar largas porções de ocorrências concretas (ou de substâncias) do conteúdo, atribuindo-lhes um correspondente tipo abstrato (ou uma forma) correspondente, e especificada segundo as regras do sistema da língua.

20. Pois bem, é exatamente na avaliação deste projeto de semântica estrutural de Hjelmslev, que Umberto Eco identifica os principais desafios das abordagens semióticas do significado: muito especilmente, deveríamos reconhecer a implicação entre as dimensões simultaneamente semântica e cognitiva do significado (quando o pensamos sub specie semioticae), o que descaracterizaria as assunções semiológicas sobre seu hipotético fundamento linguístico. Isto posto, é o próprio Eco quem identifica nas teses hjelmslevianas as dificuldades que as teorias semióticas enfrentam para escapar a esta hipoteca imposta pelos saberes linguísticos: embora a abordagem semiótica do significado se proponha numa abertura para uma imensa gama de problemas metafísicos, quando Hjelmslev os enfrenta, entretanto, acaba sofrendo de enormes limitações, no modo de separar os aspectos cognitivos do significado daqueles pelos quais ele exprime uma ordnação linguística do mundo. Enfim, em Hjelmslev, somos permanentemente cortados da dimensão em que conteúdos linguísticos e determinantes cognitivas (lógicas e perceptivas) poderiam ser traçadas, em simultâneo, para o bem de uma hipotética unidade das teorias da significação.

21. Infelizmente para tanto, há aspectos do fenômeno semântico que este modelo hjelmsleveano é incapaz de especificar, sem sacrificar a idéia mesma de que a modelação dos conteúdos se dá a partir da necessária finitude e abstração de suas figuras: assim sendo, o modelo do dicionário serve para estabelecer que a figura componencial de um campo semântico qualquer deve ter seu respectivo conteúdo definido de saída, na sua correlação com outros elementos do campo semântico (“ovinos” para definir “ovelha”, por oposição a figuras de gênero e de espécie); isto assim dado, o modelo não explica como é que se fixam originalmente os conteúdos de cada um desses termos que entram nas relações de oposição e de subordinação, uma vez que eles se ponham na cadeia das figuras de conteúdo (portanto, como é que formo, na ordem de um sistema categorical mais vasto, o conceito de “ovino” e de “fêmea”, como condições para formar o conteúdo correspondente a “ovelha”).

“Em todo caso, o dicionário hjelmsleveano deixa sem resolver dois importantes problemas. Primeiramente, define-se uma ovelha como um ovino fêmea, não se define o que é um ovino (nem o que é uma fêmea) e, por isto, deixa aberto o problema da interpretação das figures de conteúdo. Em segundo lugar, como se viu, Hjelmslev aspira a restringir os inventários das figures, mas não estabelece se e como isto é possível (…). O requisito que parece irrenunciável é precisamente que o dicionário permita analisar o significado das expressões linguísticas mediante um número finito de primitivos”. Cf. Eco, “Dicionário vs. enciclopedia”: p. 86.

22. Tudo isto parece ter correlação com a suposição de que a modelação linguística do fenômeno semântico seja inerente ao funcionamento dos signos e aos modos como estes produzem referências: mas esta abordagem dos significados acaba por deixar de fora da questão do funcionamento e das instâncias de remissão - próprias aos signos - aspectos que são constitutivos de um processo gerativo mais fundamental dos significados, e não apenas de seu estado terminal, cristalizado em formas finitas ou em primitivos semânticos. Tudo isto tem a ver, portanto, com a urgência de um modelo capaz de explicar a origem destas mesmas figuras, na ordem de um processo contínuo e potencialmente infinito (e, portanto, relativamente independente das especificações linguísticas que lhe parecem inerentes e mais concernente, por sua vez, à dinâmica potencialmente liberadora das interpretações e da expressão através dos signos): segundo Eco, estas questões nos conduziriam a um modelo semântico que assume a forma de uma enciclopédia, e que faz correlacionar o problema do significado aos aspectos definidores de uma pragmática da significação, assunto de nossa próxima aula, a seguir.

Leitura Obrigatória:
Barthes, Roland. “Significado/significante”. In: Elementos de Semiologia
Eco, Umberto. “Dicionário vs. Enciclopédia”: in: Semiótica e Filosofia da Linguagem
Hjelmslev, Louis. “Expressão e conteúdo”. In: Prolegômenos a um a Teoria da Linguagem

Próximas Leituras:
Eco, Umberto. “Dicionário vs. enciclopédia”. In: Semiótica e Filosofia da Linguagem



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