terça-feira, 29 de novembro de 2011

Notas da última aula: do sentido e da referência, em Frege e Eco


Introdução a Semiótica (GEC 107)
Aula no 9 (23/11/2011)
Abordagens Lógicas do Significado: sentido e referência, em Frege e Eco

1. Se fixarmos nossa atenção ao modo como Umberto Eco introduz, em seu texto, a dimensão na qual os significados podem interessar às teorias semióticas, já vimos, pela exposição anterior que o tratamento deste conceito deve ser depurado das tinturas metafísicas que o caráter remissivo dos signos parece implicar: o conceito que a semiótica toma por centro de suas interrogações, naquilo que respeita o fato de que “non esse signum nisi aliquid significet”, os significados não podem ser assumidos na condição de uma entidade independente dos processos de significação, mas como o contexto de uma função sígnica; decorrência deste seu aspecto relacional, a idéia mesma de que os signos se definam como “função de remetimento”, coloca em vista o problema de como definir aquilo para o quê os signos estão, necessariamente.

2. O esforço de Eco por depurar conceitualmente aquilo a que podemos chamar de significados ecoa (perdoe-nos a infâmia) certas preocupações que já vislumbramos, em capítulos anteriores deste percurso, quando nos perguntávamos sobre os fundamentos ontológicos da pergunta sobre como compreendemos realidades: basta que nos recordemos do destaque que Quine faz, em “Sobre o ser”, para a distinção muito importante entre ter sentido e nomear, quando se interroga sobre que tipo de ontologia deve servir de base para a verificação de asserções sobre a existência de alguma coisa (em especial quando consideramos expressões que contêm variáveis pertencentes a discursos como os da ficção e da matemática). Uma ontologia que admite números e entidades ficcionais não pode ser estruturada na admissão de que os termos que designam tais coisas funcionem como substantivos ou nomes próprios.

“Comprometemo-nos com uma ontologia que contem números quando dizeos que há números primos maiores que um milhão; comprometemo-nos com uma ontologia que contem centauros quando dizemos que há centauros; e comprometemo-nos com uma ontologia que contem Pégaso que dizemos que há Pégaso. Mas não nos comprometemos com uma ontologia que contem Pégeaso, ou o autor de Waverley, ou a cúpula quadrada-redonda do Berkeley College, quando dizemos que Pégaso, ou o autor de Waverley ou a cúpula em questão,  não existem. Já não precisamos ser vítimas da ilusão de que o fato de que uma declarativa com um termo singular ter sentido pressupõe uma entidade nomeada pelo termo. Não é necessário que um termo singular nomeie para ter sentido”. Quine, “Sobre o que há”: p. 28.

3. Em Umberto Eco, estas questões ressoam como uma pergunta sobre qual é mesmo o caráter deste “remetido” que inere a toda significação, pelo qual afirmamos que uma expressão qualquer lhe faz referência: é ele da ordem de uma entidade existente, ou pede de nós outro critério para sua definição? Pois quando nos exprimimos sobre a relação entre a rainha e a feminilidade (mais simplesmente, quando dizemos “A rainha é uma mulher”), o que assumimos como real acerca desta expressão tem certa relação com aquilo que chamaríamos de sua verdade ou falsidade: em que sentido, os critérios de verdade, neste caso, seriam derivados da atualidade desta expressão?

“Decidimos definir provisoriamente como significado o que poderia localizar um remetido (um indivíduo, uma relação, um conceito, uma propriedade, um estado de coisas) em ao menos um mundo possível, independentemente de cada atribuição de existência atual (...). Por isso, pode-se provisoriamente decidir definir o significado de uma expressão também como tudo o que é passível de interpretação.” Eco, “Dicionário vs. Enciclopédia”: pp. 65,66.

4. Na medida em que a questão do significado implica em uma distinção especial entre os objetos do remetimento de um juízo e a ordem da referência, se introduz na discussão o horizonte no qual os significados implicam uma certa metafísica da referência: pois é neste ponto que se conectam as questões que abordamos na seção anterior e o estatuto semiótico do significado (ao menos no que respeita as versões que caracterizam as abordagens que o pensam a partir de marcos lógicos). Eco faz claras menções a esta distinção (originária em parte dos escritos de Frege) e tenta recobrar o fundo lógico e epistêmico da questão do significado, a partir da diferenciação entre o remetido e a referência (isto é, entre o caráter ontologicamente determinado do objeto dos signos – seu aspecto de coisa ou de entidade remetida - e o caráter funcionalmente determinado deste remetimento – isto é, o fato de que o significado é, como nos lembra Barthes, “relativo à significação e não à coisa significada”).

5. Assim sendo, podemos contemplar que a reflexão sobre os significados, assumida sua decorrência com respeito ao fato de que os signos são definidos fundamentalmente como relações, transfere para a análise de seus conteúdos, as mesmas constrições submetidas ao conceito mesmo de signo: se considerarmos o discurso lógicos sobre significados, de uma maneira geral, falar dos conteúdos não é, assim, falar das coisas às quais remetemos nossas expressões, mas sim da posição assumida pelo significado no contexto das operações e lugares estruturais sob os quais se especifica esta remissão dos signos a uma realidade atual ou possível; enfim, os significados são termos das funções sob as quais o pensamento põe em relação duas instancias de seu momentâneo interesse.

6. Ao recuperar os fundamentos lógicos da distinção entre significado e referencia, Eco nos relembra este aspecto da semiótica dos estóicos – aquela que permitiu a síntese entre as abordagens inferenciais e lingüísticas das teorias da significação – pelo qual a questão do significado era relativa ao quão dependente de contextos intra-discursivos se poderia supor que fossem os termos de uma proposição: ainda que os termos simples portadores de um significado já definido (podemos dizer aqui, os nomes próprios e os substantivos) estejam na condição de fontes sobre as quais proposições podem estipular alguma verdade acerca delas, há que se estabelecer um limite entre este significado previamente determinado e aquele mediante o qual estes termos mais simples (os lektá completos) entram em jogo na estrutura da predicação e da veridição.

7. Pois, ao entrarem em jogo com outros termos da proposição, explicita-se algo que não era tão claro, quando considerávamos o significados como originários da atomicidade dos termos simples: ao estabelecer com estes uma relação, a função dos predicados (e também, em certa medida, a dos verbos, dos indicativos e mesmo a das preposições) é a de segmentar aspectualmente o universo da referencia, instituindo uma ordem da compreensão das sentenças, que depende fundamentalmente de que se considere precisamente o conjunte de propriedades que o predicado pertinentiza acerca dos sujeitos. Em termos, o que uma proposição realiza, a titulo de função semântica, é fixar, na ordem predefinida da referência dos nomes próprios, um sentido específico com o qual tais nomes pode ser compreendidos, em situação: tudo isto implica pelo menos duas maneiras de se tomar em causa a questão do significado, como veremos a seguir.

“O problema do significado diz respeito então às convenções de significação essenciais à realização dos processos de referencia. Se se decide chamar intensão de y as propriedades que circunscrevem x e extensão a classe de todos os z a que o par y/z pode referir-se, dir-se-á que a determinação das intensões precede e funda a possibilidade do uso extensional, embora de um ponto de vista empírico um lingüista que não conheça os significados das palavras de uma certa língua proceda de modo oposto e procure ver a que objetos as palavras se referem”. Eco, ibid: p. 67

8. Um aspecto importante que decorre de um certo modo de distinguir os valores semânticos de termos simples e de proposições tem a ver com o caráter cognitivo da informação que estas diferentes expressões podem portar: se considerarmos, por exemplo, a sinonímia entre dois termos simples, podemos nos perguntar se há algo de novo que podemos adquirir acerca de sua semântica, que não seja apenas da ordem da extensão de um nome próprio. Digamos que eu esteja pensando nos significados de “Aristóteles” e “estagirita” como sinônimos: como pensar a sinonímia, do ponto de vista das concepções que tenho sobre o valor de cada termo simples desta comparação? É bem certo que, numa dada medida, eles têm o mesmo objeto ou referente. A pergunta é: terão o mesmo significado? Ao predicar coisas sobre cada um deles (“...é um homem”; “...foi aluno de Platão”; “...escreveu a Poética”; “...erao pai de Nicômaco”), as expressões que as contêm têm o mesmo valor?

9. Ao considerar que nem sempre no uso corriqueiro da linguagem estamos preocupados com o objeto de nossas expressões, mas apenas com o modo gramatical de apresentá-las, Frege assume uma distinção sugestiva entre os nomes como formas de apresentação nas quais um objeto é designado (seu sentido, em termos fregeanos), e sua referência propriamente dita: numa certa parte de seu texto, ele estabelece que o sentido é aquilo que exprimimos (através de um nome próprio, por exemplo), ao passo que a referência é aquilo que esta expressão representa.

“É, pois, plausível, pensar que exista, unido a um sinal, (nome, combinação de palavras, letras), além daquilo por ele designado, que pode ser chamado de sua referência, ainda o que eu gostaria de chamar de o sentido do sinal, onde está contido o modo de apresentação do objeto. Consequentemente, segundo nosso exemplo, a referência das expressões ‘o ponto de interseção de a e b’ e ‘o ponto de interseção de b e c’ seria a mesma, mas não o seu sentido. A referencia de ‘Estrela da Tarde’ e ‘Estrela da Manhã’ seria a mesma, mas não o sentido”. Cf. Frege, “Sobre sentido e referência”: p. 62.

10. Reportando-se às idéias lógicas de Frege, Eco faz uma observação à distinção fregeana entre “sentido” e referência”, e que merece consideração, quando examinamos o conceito semiótico de significado. Como está particularmente interessado em depurar da noção fregeana de bedeutung qualquer implicação que a vincule a uma idéia estritamente substantiva dos objetos da significação, Eco impõe às idéias de Frege uma certa cláusula restritiva: em primeiro lugar, ela envolve um esclarecimento sobre o conceito mesmo de “objeto”, na semântica lógica fregeana, pois este não envolve qualquer admissão sobre entidades físicas ou classes das mesmas, mas sobretudo o preenchimento ou não de funções ligadas à produção de juízos (o objeto é, assim, um dos termos da relação pela qual o signo funciona).

11. Nestes termos, se a bedeutung de um nome próprio é seu objeto, não podemos supor que este seja uma entidade que é nomeada pelo signo (ou pelo substantivo), mas sim o horizonte de sua referência possível, em relação ao qual ele exprime um sentido determiando. Nestes termos, Frege estabelece a noção de que uma mesma referência (um mesmo sujeito de juízo ou predicado) pode ser expresso por variados sentidos: há de saída, toda uma hierarquia na qual o valor semântico de uma expressão compromete um sentido e, por sua vez, uma referência. Mas para que isto seja compreendido, não se pode supor que a referência seja um objeto, tampouco que a existência de objetos seja condição para uma expressão veicular sentidos. Para isto, é necessário mais clareza sobre o conceito mesmo de objeto, na semântica de Frege.

12. É em tais termos que, para Umberto Eco, a idéia fregeana de referência deve ser restituída a uma matriz ontológica que é a da mera “possibilidade” dos objetos de uma expressão serem tomados como reais: assim sendo, não é o caso de supormos que aquilo a que um nome próprio se refere deva ser um ente para construir uma referência, pois o objeto da significação se constrói num horizonte de possibilidades que o sentido de cada juízo pretende instaurar. No contexto específico do uso comunicacional das expressões, este lugar da referencia é completamente funcional e, mais importante, não pode ser construído fora do contexto dos sentidos que cada expressão particular lança: neste caso, temos que reconhecer que, mesmo empregando nomes e substantivos em nossas expressões (supondo que os mesmos possuam uma referencia determinada), eles apenas significam quando os introduzimos no contexto das proposições, sendo aí que sua referência passa a se determinar pelo significado proposicional, que nada mais é que seu sentido.

“Basta então, para falar da Bedeutung, que se possa descrever um objeto qualqer (indivíduo real, entidade fictícia, conceito matemático) por meio de uma série concomitante de sentidos. Desse modo, então, a Bedeutung de Frege teria mais relação com o que até esse momento é chamado significado do que com aquilo que é chamado referencia. A Bedeutung é o objeto construível de uma referencia possível”.  Cf. Eco, “Dicionário vs. Enciclopédia”: p. 70.

13. Esta questão tem um valor especial, quando consideramos, por exemplo, que o significado ou a referência de um signo não é da ordem de uma remissão à concretude existenicial de seus remetidos, mas à mera possibilidade de sua postulação: assim sendo, ao falarmos do significado de uma expressão como “o décimo segundo planeta de nosso sistema solar” (ou “o corpo celeste mais distante da Terra”), não podemos supor que nossa compreensão da expressão dependa da capacidade de se determinar um valor estritamente individual de sua referência. Se nos pomos de volta ao debate sobre os fundamentos ontológicos do significado, isto quer dizer que a existência ou o ser pressuposto na ordem das significações não é uma exigência empírica, mas estrutural: significa dizer que nossas afirmações sobre o ser, pressupostas em nosso modo de determinar os significados, encontram sua base não nos objetos da referencia, mas nas funções pelas quais um discurso sobre objetos realiza sentidos de uma existência possível.

14. A assimilação dos objetos à ordem funcional do discurso cumpre uma finalidade essencial da ordem lógica da significação, no que diz respeito aos diversos usos da expressão, quando dela depende que apreendamos seu sentido apenas, ou sua referencia: ainda que nos seja difícil imaginar como empiricamente determinados os objetos do juízo matemático ou astronômico (pois números e determinadas forças agentes não são observáveis imediatamente), não é o caso de as equipararmos ao discurso puramente ficcional ou artístico (no qual o compromisso com o sentido não requisita o recurso à veridição, portanto, à referencia). Frege insiste no fato de que tais discursos, se podem ser apreendidos, na ordem específica em que funcionam, é porque são auxiliares a uma busca da verdade, mesmo que esta última não coincida com critérios empíricos de verificação.

“Ao ouvir um poema épico, por exemplo, além da euforia da linguagem, estamos interessados apenas no sentido das sentenças e nas representações e sentimentos que este sentido evoca. A questão da verdade nos faria abandonar o encanto estético por uma atitude de investigação científica. Logo, é totalmente irrelevante para nós se o nome ‘Ulisses’, por exemplo, tem referencia, contanto que aceitemos o poema como uma obra de arte. É, pois, a busca da verdade, onde quer que seja, o que nos dirige do sentido para a referencia”. Frege, “Sobre sentido e referencia”: p. 68,69.

15. O único aspecto comum a expressões desta natureza, seja na ficção ou na ciência, é que não há nada, na ordem das extensões do conceito de “planeta de nosso sistema solar” (poderíamos incluir aí proposições sobre “Pégaso” ou “D’Artagnan”) que possa fixar um valor definido para sua asserção (pois sabemos que não há, dentre as coisas que cairiam sob este conceito, uma décima segunda entidade). Mas, se assumimos que podemos compreender o que esta expressão significa (o que é precisamente seu sentido), não podemos admitir que o problema de sua existência estaria posto na ordem de uma “possibilidade”, operando na imaginação fabuladora independentemente de critérios de verdade e no raciocínio lógico, a partir dos marcos dedutivo-hipotéticos da ciência astronômica?

Referências Bibliográficas:
Eco, Umberto. “Dicionário vs. enciclopédia”. In: Semiótica e Filosofia da Linguagem;
Frege, Gottlöb. “Sobre sentido e referência”. In: Lógica e Filosofia da Linguagem;
Quine, W.v.O. “Sobre o que há”. In: Existência e Linguagem: ensaios de metafísica analítica.

Próximas Leituras:
Barthes, Roland. “Significado/significante”. In: Elementos de Semiologia;
Eco, Umberto. “Dicionário vs. enciclopédia”. In: Semiótica e Filosofia da Linguagem;
Hjelmslev, Louis. “Expressão e conteúdo”. In: Prolegômenos a uma Teoria da Linguagem.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Notas da última aula: metafísica da referência, em Quine e Eco


Introdução a Semiótica (GEC 107)
Aula no 8 (16/11/2011)
Metafísica da Referência: a relação entre os significados e aquilo “que há”

1. Nos textos que sugerimos para introduzir certos problemas de uma teoria semiótica geral, o que parece próprio a esta disciplina não se exprime tanto por aquilo que caracteriza seu objeto (grosso modo, o estudo dos signos e de seus modos próprios de funcionar), mas por toda uma ordem de pressupostos que caracterizam o que chamaremos doravante de fundo especulativo dessas teorias, um conjunto de assunções mais ou menos tácitas sobre a estrutura na qual o problema dos regimes da compreensão funciona ou, em outra formulação, a concepção de mundo na qual a questão da compreensão dos signos tem alguma pertinência.

2. Uma dessas assunções, e que constitui uma espécie de discurso velado de todas as escolas semióticas, concerne a uma interrogação sobre a natureza de determinação daquilo que existe ou, ainda mais radicalmente, sobre o que significa atribuir existência ao que quer que seja: na raiz de todo e qualquer saber sobre signos e interpretação, há uma suposição sobre a relação entre significar e ser; grosso modo, é essa ordem de problemas que permeia os textos aqui sugeridos para leitura, e que pode ser resumida como uma pergunta sobre o que há, pois é ela que fornece uma espécie de suposto metafísico de toda teoria da significação. Exatamente que problema é esse e como é que ele nutre as teorias semióticas que constituirá nosso assunto no dia de hoje.

3. Numa série de textos muito importantes de uma certa filosofia da significação (que é representada por um dos textos da bibliografia), este problema do ser não se coloca em termos de uma admissão de que as coisas sobre as quais falamos são a razão de ser da linguagem ou do pensamento: veremos mais adiante que há uma diferença considerável entre “fazer sentido” e “referir-se a algo”, quando examinamos os fenômenos de significação. Ainda assim, entretanto, há algo acerca da existência que precede o dizer que nos captura, na idéia de um núcleo próprio do “ser”, e que torna virtualmente impossível à reflexão refugiar a existência exclusivamente na ordem dos esquemas inferenciais ou da institucionalidade partilhada da língua.

4. Em seu clássico texto de 1948, “On what there is”, Quine se entrega a este problema central da ontologia (a pergunta sobre “o que há”) e constata as dificuldades de se escapar à força com a qual sua mera formulação nos arrasta a pressupostos que poderíamos desejar deixar de lado, na discussão sobre as relações entre nossos modos de conhecer e a natureza dos objetos que se apresentam a esta faculdade: assim sendo, há uma implicação inevitável entre o conhecer (ou seus correlatos signfiicativos, como o “dizer”) e o “haver”, o que instaura um dilemma característico da filosofia platônica da verdade, pela qual o ser se torna inevitável para o discurso. Em termos, negar a existência daquilo sobre o que falamos é contradito pela própria natureza propositiva da linguagem, pois sempre falamos de algo que há.

5. Assim sendo, quando nos perguntamos sobre o significado de atribuir existência a entidades ficcionais como “Pégaso” ou a entidades matemáticas como “a raiz cúbica de 27”, como supor que o atributo do ser valha nesses casos do mesmo modo que o da existência de objetos postos no espaço-tempo físicos? Estamos falando rigorosamente de coisas não-existentes e ademais muito diferentes entre si (seu aspecto de existência depende de condições muito diferentes, em cada um deles). Examinemos cada um destes casos, com algum detalhe.

6. Ao dizermos que o resultado de uma operação se exprime na estrutura do “ser” (pois dizemos que “a raiz cúbica de 27 é 3”), não estamos predicando a partir de uma substância concreta que corresponda à expressão predicativa, mas produzindo o resultado de uma função (estamos consumando uma operação): o percurso no qual se realiza essa atribuição do ser, expressa pelo verbo que significa o resultado da função, não é o mesmo no qual dizemos que “Pégaso é um cavalo alado”; neste último caso, podemos supor que a existência de uma entidade foi proposta como correlato daquilo que se predica do sujeito (o estatuto dessa existência de “Pégaso” poderemos discutir, um pouco mais adiante).

7. Negar rigorosamente algum grau de existência a essas coisas parece implicar em certa contradição, pois, de todo modo, aplicamos a essas coisas que não existem os mesmos dispositivos lingüísticos e lógicos através dos quais falamos de coisas que existem: é assim que dizemos que “Pégaso” é um “animal” (fazemo-lo que se inclua a uma classe de coisas cuja extensão compreende entidades reais e com as quais ele poderá ser comparado, mesmo que não exista uma tal entidade incluída na classe pela qual se predica sobre ela); do mesmo modo é que o número “3” é a “raiz cúbica de 27” (atribuímos ao valor numérico uma determinada propriedade das operações matemáticas). Investimos essas coisas de um ser, predicando sobre elas, (e ainda assim, admitimos que, dizendo que elas podem ter tais atributos, elas mesmas, a rigor, não existem). Aonde está efetivamente o problema?

8. Num segmento de uma entrevista concedida ao filósofo Bryan Magee (num programa dedicado a seu próprio pensamento), Quine reexamina certos aspectos desta relação entre existência e significação, que merecem ser considerados, de modo a esclarecer um pouco mais o modo como signos e entendimento podem ser pensados na ordem de uma mutual implicação (como nos parece sugerir, por exemplo, a argumentação de Peirce contra o “espírito do cartesianismo”, no modo como a observamos, algumas sessões atrás).

Bryan Magee, “The Ideas of Quine” (s/d)

9. Em primeiro lugar, apresentando Quine como um dos grandes filósofos vivos do século XX (ao lado de Popper, Sartre e Chomsky, entre outros), Magee destaca o modo como certos problemas fundamentais da filosofia permanecem presentes na obra de um autor que desenvolveu (ao menos nas primeiras etapas de sua carreira) um estilo de tratamento para estas questões que pareceria excessivamente técnico, na perpsectiva de um leigo em assuntos filosóficos. Nestes termos, seria um privilégio, diz o entrevistador, poder interrogar a um eminente pensador nesta área, sobre como é que as questões básicas da filosofia se manifestam, mesmo a um pensador aparentemente tão hermético como Quine.

10. Perguntando sobre as tarefas centrais da filosofia, Quine então responde dizendo que ela é concernida como uma reflexão sobre a natureza das coisas ou, tomando uma expressão de Newton, com o "sistema do mundo": nestes termos, reconhece quem suponha com isto que a filosofia tenha um papel de orientar a atividade científica, crença esta que Quine considera um "sonho vazio"; ao invés de orientar o trabalho da ciência na resolução de seus problemas, a filosofia é contínua com este campo, recolhendo muitas de suas questões do modo como a ciência opera, sem contudo se reduzir a seus termos nem tampouco servir para ela de base ou fundamento.

11. Isto posto, resta saber quais são, efetivamente falando, as diferenças entre ciência e filosofia: para Quine, a resposta é a de que a ciência é um continuum, que se desenvolve, desde os setores mais conectados com a especificidade do mundo (a física, a engenharia, a medicina, a história, a geografia), até aqueles em que esta relação com a realidade vai se tornando cada vez mais abstrata e menos específica (como a filosofia e a matemática). Nestes termos, a filosofia e a ciência se distingüem na generalidade que própria à primeira e não à segunda.

12. Desta admissão é que decorrem os exemplos de Quine sobre o modo como a física assume de antemão o conceito de causa e seu compromisso existencial prévio, ao passo que o filósofo se pergunta precisamente sobre as condições que o conceito deve preencher, de modo a que se possa dizer de qual quer coisa ou relação que nelas opera algo chamado de causalidade (ou de relação consequencial). De tal maneira a diferença entre o físico e o filósofo se instala que Quine reitera que a filosofia se define pela abstração e generalidade com a qual trata problemas que a ciência explora na especificidade de sua manifestação (pensemos, apenas como ilustração sobre a diferença de abordagens entre ciência e filosofia, sobre que tipo de médico clinicaria, por exemplo, colocando em dúvida a metafísica do conceito de ser vivo, diante de um caso de um paciente em particular).

13. Destacando que a análise de questões sobre, por exemplo, "como a vida tem origem" ou "quando o universo começou" são problemas característicos de certos ramos da ciência, Quine manifesta assentimento com a sugestão de Magee de que a filosofia tem por tarefa examinar os conceitos fundamentais dos ramos nos quais se define a atividade humana: é nestes termos que Magge fala de uma investigação sobre o "tecido conectivo do pensamento", o substrato sobre o qual é possível pensar que a causa é uma relação entre coisas ou eventos, que a vida é um fenômeno definível através do reconhecimento de certas características do mundo, e que a identidade entre partes do mundo é um critério pelo qual definimos que alguma coisa, mui simplesmente, "é".

14. E aqui começamos a chegar no ponto pelo qual a fala de Quine ilustra o ponto em que nos debatemos neste início de curso: perguntado por Magee se as questões filosóficas poderiam ser resumidas, de alguma maneira, Quine agrupa estes problemas em duas vertentes principais, a saber, as questões ontológicas ("o que há", "o que é existir") e as questões epistemológicas ("o que podemos saber sobre o que há", "o que se pode dizer com sentido"). Necessário é destacar o quanto as questões epistemológicas requisitam uma considerável clarificação das questões metafíficas, em suma: o quanto as perguntas sobre o sentido dependem de uma absoluta nitidez com a qual estabelecemos a resposta aos problemas sobre a existência.

15. Daí em diante, Quine e Magee entram em questões mais detalhadas sobre como se pode formular a questão sobre o que há: em primeiro lugar, Quine reitera sua posição enquanto materialista, em termos ontológicos (ou seja, o que há é algo que antecede e, até mesmo excede aquilo que pensamos sobre a realidade), de modo a distinguir sua posição daquela que caracteriza o convencionalismo ou o idealismo (para a qual a realidade é integralmente um produto mental). O que Quine introduz ao debate é a necessidade de pensar os "tipos de objetos" sobre os quais falamos e os critérios de existência que lhe são próprios ou comuns (objetos físicos e objetos abstratos precisam ser analisados, no que respeita os modos de dizer que são alguma coisa). Isto posto, a exploração destes detalhes do argumento de Quine não nos interessam neste momento, razão pela qual deixarei de comentar estes aspectos.

16. Quando nos deslocamos para o primeiro capítulo de Kant e o Ornitorrinco, de Umberto Eco – sob o título apropriado de “Sobre o ser” – nos encontramos no mesmo emaranhado problemático da pergunta sobre este núcleo da realidade: recapitulando as etapas da construção do problema da metafísica, desde Aristóteles (“o que é o ser, propriamente?”), notamos que este objeto é, de um lado, condição existencial, horizonte de experiências, perspectiva do discurso e do conhecimento; pois este haver condiciona até mesma a pergunta que podemos fazer sobre sua realidade (é nestes termos que Quine nos lembra da famosa “barba de Platão”). Mas Eco reconhece, de outro lado, que se o ser é antecedente ao discurso, se manifesta – ao menos naquilo em que ele nos concerne – no dizer; se ele é condição de nossa entrada no mundo, para nós não se manifesta em outro registro que não o de nossa interpretação. Tudo isto confere uma dignidade semiótica aos problemas da ontologia.

“No momento em que paramos à sua frente, o ser suscita interpretação; no momento em que podemos falar sobre ele, este já é interpretado. Não há mais nada a fazer (…). Com maior razão, o ser não existe nem deixa de existir sem palavras para Aristóteles: está ali, estamos dentro dele, mas não pensamos estar. A ontologia de Aristóteles, dissemos amplamente, tem raízes verbais. Na Metafísica, cada menção ao ser, cada pergunta e resposta sobre o ser está no contexto de um verbum dicendi (seja ele leghéin, semainein ou outro).”. Cf. Eco, “Sobre o ser”: p. 27.

17. No texto de Quine, ele se pergunta sobre a eficácia da resposta que damos à questão sobre “o que há”: quando dizemos que o que há é simplesmente “tudo”, apenas desviamos o foco da questão para a confirmação de que aquilo de que falamos deveria “haver”, de algum modo, mas com pouco esclarecimento sobre o significado desse compromisso entre afirmar uma existência e concretizá-la, de alguma maneira, no discurso. A importância das questões de ontologia para as teorias semióticas decorre precisamente do fato de que, em muitos casos, o que se exprime numa teoria da significação é a dependência entre o chamamos de “mundo”, “realidade”, “existência”, “ser”, de um lado, e a ordem do discurso, de outro. Tudo isso parece, uma vez mais, comprometer a teoria da significação com uma idéia de transcendência dessa mediação simbólica em relação a fisicalidade do mundo.

18. Em suma, todo discurso sobre a significação envolve uma espécie de “fundo ontológico”, o que quer dizer que não podemos falar sobre as relações entre signos, pensamento e linguagem, sem implicarmos aí uma certa concepção sobre a realidade: ou a realidade é aquilo que o próprio signo define como sendo uma instância de sua compreensão, o que será assunto de uma teoria semântica; ou então, o compromisso ontológico não se estabelece na relação puramente dual da significação (na reportagem entre linguagem e mundo, como instâncias ontologicamente independentes), mas no fato de que o próprio signo é constituído, em sua estrutura mesma, com capaz de instaurar, por suas próprias forces, uma realidade, desde que devidamente assimilado aos vários possíveis sistemas de referências ao qual poderá pertencer.

“Ser suposto como uma entidade é, pura e simplesmente, ser contado como o valor de uma variável. Em termos das categorias da gramática tradicional, isto equivale aproximadamente a dizer que ser é estar no domínio de referência de um pronome.”. Cf. Quine, “Sobre o que há”: p. 32.

19. Se usarmos a expressão “algo significa alguma coisa”, numa acepção um pouco mais larga do que aquela pela qual dizemos “algo representa alguma coisa”, poderemos talvez entender como é possível que uma operação matemática possa dizer que as relações entre entidades numéricas é da ordem do “ser”: o resultado de uma equação simples é aquilo que esta operação significa, do ponto de vista de sua finalidade. mais importante que isso, entretanto, a idéia de que expressões lógicas possuam significar implica na admissão de que há um sistema simbólico de base sob o qual funciona o discurso matemático, e quem quer que o compreenda, sabe que, ao atribuir um sentido de existência ao resultado de uma operação, está-se fazendo algo de específico na relação entre seus elementos.

20. Para dizer de outro modo, quando estamos cientes acerca da natureza dos objetos que nos circundam, já inscrevemos sua hipotética anterioridade aos aspectos através dos quais nosso pensamento torna essas coisas menos indiferentes a nós. Voltando ao exemplo da presença desta cadeira diante de mim, sua realidade me concerne sempre sob algum dos aspectos pelos quais sua manifestação se destaca em minha atenção, e de tal modo é ssim que dizer que ela é parte de uma experiência implica em que consideremos esta exterioridade e fisicalidade como que deflacionadas em seu poder de determinar o que isto efetivamente é.

Referências Bibliográficas:
Eco, Umberto. “Sobre o ser”. In: Kant e o Ornitorrinco;
Quine, W.V.O. “Sobre o que há”. In et al.: Existência e Linguagem.

Próximas Leituras:
Barthes, Roland. “Significado/significante”. In: Elementos de Semiologia;
Eco, Umberto. “Dicionário vs. enciclopedia”. In: Semiótica e Filosofia da Linguagem;
Frege, Gottlob. “Sobre sentido e referência”. In: Lógica e Filosofia da Linguagem.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

2a avaliação parcial


UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
INSTITUTO DE ARTES E COMUNICAÇÃO SOCIAL
DEPARTAMENTO DE ESTUDOS CULTURAIS E MÍDIA

Disciplina : Introdução a Semiótica (GEC 343)
Professor : Benjamim Picado
Horário : 4as, de 18 às 21:00
Local : Sala C220

2a AVALIAÇÃO PARCIAL

Modo de Usar : Para o correto tratamento das questões da prova, valorize sua capacidade de argumentação, procurando exercitar certo distanciamento com respeito ao modo de exposição das idéias dos textos centrais da unidade (ao invés de descrever os textos, procure parafraseá-los um pouco). No que respeita a compreensão dos itens da unidade, valorize um tratamento mais esquemático das idéias mais importantes, prestando sempre atenção naquilo que é especificamente pedido em cada questão. Nas perguntas de teor mais analítico (de exame de objetos), procure correlacionar os dois domínios requisitados (o da compreensão dos textos de base e o do exercício da análise dos materiais propostos).

1. Considere a seguinte passagem do texto « Comunicação », de Ugo Volli (in : Manual de Semiótica, p. 18,19) :

« Quando imaginamos uma comunicação, normalmente não pensamos em situações tão elementares como entender a direção do movimento de um carro, deduzir o tempo que faz pela cor do céu ou identificar um cão por certa imagem colorida em nosso campo visual. Referimo-nos, ao invés disto, a atividades como enviar uma carta, fazer publicidade, gritar alguma coisa a alguem, narrar uma historia (…). É claro que a significação da qual falamos no paragrafo anterior não é um fennomeno do mesmo tipo que uma autêntica comunicação. Neste caso, não existe um emissor que nos envia uma mensagem de céu nublado para fazer-nos prever chuva ; o rapaz que encontramos não está procurando parecer um estudante (simplesmente tem um jeito de estudante), os exantemas do sarampo não nos são enviados pelo virus da doença como uma espécie de carta para informar-nos, mas são uma desagradável consequência  biológica de sua presença em nosso corpo, que o médico é capaz de interpretar ».

Considerando a distinção proposta nesta passagem, entre as noções de « comunicação » e « significação », como vc. Correlacionaria cada uma destas noções com os modelos da pesquisa semiológica e semiótica, em Umberto Eco e Roland Barthes ?

2. Em que sentido vc. considera que as idéias de um sistema de significação, subjacente a qualquer fenômeno comunicacional, implicaria em maior ou menos grau a necessidade de recurso aos conceitos da linguística (em especial, o par opositivo de nções « Língua/Fala ») ? Argumente sobre este ponto, articulando sensatamente as idéias de Roland Barthes e Umberto Eco.

3. Considere o seguinte segmento de matéria publicada em revista mensal de informação (Claudia, outubro de 2005) :

« O Brasil é nosso ». In : Claudia. Abril Cultural (outubro/2005)

Procure analisar esta peça, tendo em vista suas componentes visuais e verbais, com especial ênfase nos procedimentos de conotação, no modo como Barthes elabora sua estrutura, em « O mito, hoje », em Mitologias.

Referências Bibliográficas :
Barthes, Roland. « Língua/fala ». In : Elementos de Semiologia ;
Eco, Umberto. « O universo do sentido ». In : A Estutura Ausente ;
Volli, Ugo. « Comunicação ». In : Manual de Semiótica. 

Notas da última aula: fundamento e significante, em Peirce e Saussure

Introdução a Semiótica – GEC 343
Aula no 7 – 09/11/2011
Elementos da Semiose: da confusão entre os veículos e objetos do signo

1. Como vimos no decorrer das últimas sessões, a idéia de “signo” com a qual se pode operar coerentemente, do ponto de vista de uma aproximação analítica aos fenômenos da signficação e da interpretação envolve pelo menos duas concepções distintas de nossa compreensão: se imaginamos que as alternativas lógicas ou linguísticas da semiótica concebem esta noção central a partir de princípios mutuamente incomensuráveis da estrutura da compreensão, então nos pomos de saída num terreno permanentemente dividido da definição mesma sobre esta noção central da disciplina; para muitos de seus comentadores mais importantes, esta diferenciação radical entre a lógica e a linguística aparta, de saída, qualquer idéia de uma unificação teórica das abordagens semióticas. 

"Vejamos esta intervenção de Gilbert Harman: 'a fumaça significa (means)  o fogo e o termos combustão significa fogo, mas não no mesmo sentido de significa. O termo significar é ambíguo. Dizer que a fumaça significa o fogo é dizer que a fumaça é um sintoma, um signo (sinal), uma indicação, uma prova de fogo. Dizer que o termo combustão significa fogo quer dizer que as pessoas usam aquele termo para significar fogo(...)'. A objeção de Harman choca-se com o consensus gentium  da tradição filosófica. Dos estóicos à Idade Média, de Locke a Peirce, de Husserl a Wittgenstein, não só se procurou o fundamento comum entre a teoria do significado linguístico e a teoria da representação 'pictórica', como também entre a teoria do significado e a teoria da referência". Eco, U. "Signo e inferência": p. 23.

2. Em primeiro lugar, há que se considerar que a noção de “signo” sequer nasceu como patrimônio de um projeto ou programa de disciplinas que pudessem ser originalmente pensadas como “semiótica”: já identificamos antes que a reflexão sobre os signos nasce no contexto de certas disciplinas interpretativas que possuíam como objeto central o exame de fenômenos como os sintomas clínicos; nestes termos, a noção de “signo” irrompe para as práticas médicas como o correlato de uma certa capacidade adestrada para a observação de fatos exteriors, com base em uma forma de conjectura a que poderíamos chamar de “indiciaria”, tal como a definiu o historiador Carlo Guinzburg.

3. Por outro lado, o desenvolvimento de um saber mais sistemático sobre os signos, no contexto das ciências humanas, no ultimo terço do século passado (em especial, no campo dos estudos sobre fenômenos e processos comunicacionais), decorreu da notória influência que as ciências da linguagem (em especial a fonologia) exerceram sobre largos segmentos da pesquisa etnológica, em especial quando certos ramos da antropologia buscavam examinar os fenômenos de diferentes culturas, a partir de uma chave que prescindisse das variáveis geográficas e históricas de sua sediemntação. No contexto da predominância do método estrutural nas ciências humanas, pode-se dizer que constituiu-se um autêntico “campo do signo”, como matriz para a reflexão sobre espectros consideráveis da cultura contemporânea, a partir da idéia de que estes fenômenos se manifestavam essencialmente, na ordem das significações.

"Para lá de uma função de estar por, todas as outras identidades desaparecem. A única coisa que parece ficar fora de discussão é a atividade da significação. Parece comum aos humanos (...) produzir fatos físicos - ou ter a capacidade de produzir classes de fatos físicos - que estão em substituição de outros fatos ou entidades, físicos ou não, que os humanos não são capazes de porduzir no ato da significação (...). Os processos de significação seriam o artifício indefinível que os seres humanos, em sua implossibilidade de ter o mundo inteiro (real e possível) ao alcance das mãos, poriam em ação para suprir a ausência dos signos.". Idem: p. 22

4. Estas duas matrizes da concepção sobre o signo, como já se disse, não são facilmente redutíveis uma a outra: significará isto, entretanto, que não seja possível integrá-las, em alguma medida? Tal é uma questão que se põe para as teorias semióticas, desde o momento em que suas categorias passaram a incorporar-se ao vocabulário das humanidades, no ultimo século. Mas esta não é a pergunta que nos motiva, muito embora nosso tema de momento possa ser auxiliar na maneira de enfrentar esta questão. Nos perguntamos, assim, de saída, sobre a unidade do signo, no modo como ela pôde ser concebida, no decorrer de mais de 2.500 anos da reflexão a seu respeito: nosso propósito é examinar com parcimônia os elementos através dos quais o signo pode ser assimilado a esta condição pela qual ele se concebeu como o veículo de nossas cognições e da estrutura de nossas expressões.

5. Ao início do primeiro capítulo de seu Semiótica e Filosofia da Linguagem, Umberto Eco evoca as várias idéias através das quais a noção de signo se formulou, na história do pensamento: não seria exagero postular uma espécie de via antiqua das teorias semióticas como consistindo em todas aquelas manifestações de uma concepção do signo como associada aos processos cognitivos (em última instância, relativos ao modelo conjectural das inferências): ao longo de toda uma série de registros da definição dos signos, ainda vigentes em nossos dias, esta noção de que nossos modos de conhecer a realidade implicam numa dada incompletude manifesta pela idéia de que nosso acesso à totalidade de alguma coisa é sempre mediado provisoriamente pelo signo; assim sendo as inferências naturais (e, em menor escala, os diagramas, os desenhos e o salvos) exprimem, segundo Eco, esta estrutura na qual o signo é um vetor de nossos modos de conhecer uma realidade, na estrutura que é própria à metonínima (isto é, de uma parte para seu todo).

"O que faz pensar numa relação sinedóquica, como se o signo fosse uma parte, um aspecto, uma manifestação periférica de algo que não se mostra em sua totalidade; portanto latente, mas não do todo, porque deste iceberg emerge pelo menos a ponta. Ou então a relação seria metonímica, visto que os dicionários falam do signo (sinal) também no caso de 'qualquer vestígio ou marca visível, deixado por um corpo sobre uma superfície'. Indício de um contato, portanto, mas indício que, através da própria forma, revela algo da forma do impressor". Idem: p. 17.

6. Há decerto uma razão histórica para que os signos sejam assimilados nesta condição de elementos do conhecimento e de sua justificação racional, sendo ela, na verdade, um dado da própria genealogia de um saber sobre signos: é que a filosofia da Antigüidade reservara aos signos esta condição de serem veículos de certos tipos de conjecturas pelas quais podemos dizer que alguma coisa é real ou que certos aspectos da conduta possam ser justificados, de modo seguro. Nestes casos, muito embora o emprego das palavras e do discurso verbal possam ser instrumentos importantes desta comunicação, não são estes pensados na condição de “signos” (na história da filosofia, esta assimilação da palavra à significação será feita bem mais tarde).

7. Neste contexto, precisamos nos interrogar sobre o que constitui, enfim, a estrutura do signo que opera na condição de ser o veículo de nossas inferências: um primeiro aspecto a se destacar é o de que tal signo não se define pelo conteúdo substantivo que assume, pois muitas coisas diferentes podem operar a título de “estímulos” para os processos inferenciais em que estas eventualmente participam. Neste caso, o caráter de significação que elas assumem é necessariamente relativo ao contexto da interpretação na qual estas substâncias jogam enquanto partes do signo. Isto significa apenas que, muito embora uma mancha de sangue no tapete de meu quarto possa funcionar como elemento disparador de uma série de inferências que eu posso praticar sobre sua ocorrência (o que a causou? De que é feita? Há quanto tempo está ali? a quem ou ao quê pertencia?), em nenhum sentido logicamente válido deve ser assumida como “sendo” um signo em si mesma.

8. Ao fim da exposição sobre as relações entre significação e inferência, examinamos o modo como Peirce investe contra o assim chamado “espírito do cartesianismo” na filosofia moderna, ao criticar o alcance de supostas faculdades inerentes ao espírito humano: em seu lugar, Peirce avança a idéia de uma implicação entre a estrutura das ações mentais que caracterizam o regime inferencial do entendimento e a noção mesma de “signo”, que dará origem às novas concepções sobre o conhecimento que ele avançará, a partir dali.

9. Se nosso pensamento se estrutura sobre uma base inferencial de implicações, é porque esta mesma base reflete uma estrutura mais profunda, que é a do funcionamento mesmo dos signos, isto é: aparece sob a forma de uma substância ou qualidade individual designada por seu conceito (como no predicado), ou como um fundamento (que pode ser tanto material como conceitual) que aponta para um universo de referências (os objetos supostos de todo signo), finalmente gerando uma lei ou um hábito inferencial ou ainda um significado proposicional (um interpretante).

10. Nos interessa examinar, em especial, a noção mesma de “fundamento” do signo, pois é nela que se concentram alguns dos problemas mais importantes da definção peirceana do signo: em primeiro lugar, o fato de que muitos dos comentadores da tradição semiótica frequentemente confundem este estrato com o conceito mesmo do signo. O “fundamento” do signo constitui, para Peirce a face materialmente mais proeminente dos processos de significação, pois manifestam a aspectualização que é inerente aos modos pelos quais a inferência constrói relações entre segmentos da experiência e do entendimento. Segundo Peirce, esta materialidade aspectual é apenas uma das referências que todo pensamento constrói, na base de uma inferência.

"Ora, um signo tem, como tal, três referências: primeiro, é um signo para algum pensamento que o interpreta: é um signo de algum objeto ao qual, naquele pensamento, é equivalente: terceiro, é um signo, em algum aspecto ou qualidade, que o põe em conexão com seu objeto". Peirce, “Algumas consequências…”: p. 269,270.

11. O conceito de signo em Peirce evoca certos aspectos que definem o modo como um hábito inferencial se reporta a certos objetos ou idéias da experiência: tais qualidades ou propriedades do signo Peirce as define como sendo o fundamento, tomado como elemento de todo processo de significação. Na ordem do sentido, qualquer coisa que se constitua como elemento de uma experiência, põe em jogo para o entendimento a possibilidade de que uma qualidade qualquer do mundo (uma cor ou uma forma; um grau de intensidade; uma quantidade ou um padrão de frequência) seja tomada em causa como aspecto remissível a algum conceito do entendimento, que servirá como parâmetro de sua interpretação e significação. Em suma, a noção periceana de “fundamento” é aquela que chama em causa as condições mediante as quais algo pode servir como signo.

12. O texto de Umberto Eco expõe ao claro o desafio implicado na definição do sentido preciso com o qual as teorias semióticas aportaram-se ao conceito mesmo de signo (que lhe seria supostamente próprio ou definidor de seu campo de atuação, no contexto das humanidades, por exemplo): se recobrarmos a imensa história do modo como, a variados títulos, este conceito central foi convocado à reflexão, o primeiro problema com o qual nos confrontamos é o da dificuldade de pensarmos a hipotética unidade sob a qual todas estas evocações poderiam ter sido postuladas (desta unidade dependeria, inclusive, a possibilidade de constituir a semiótica mesma enquanto disciplina teórica).

« Em todos estes casos, não importa que o signo tenha sido emitido de propósito e que seja o resultado de uma emissão humana. Pode ser signo (sinal) qualuqer fato natural, tanto que Morris, ao tentar uma ‘fundação da doutrina dos signos’, afirmava que ‘alguma coisa é signo só porque é interpretado como signo (sinal)  de alguma coisa por algum intéprete’ e que ‘a semiótica, portanto, não tem nada a ver com o estudo de um tipo de objetos especiais, mas com os objetos communs, enquanto (e somente enquanto) participam do processo da semiose’ ». Eco, “Signo e Inferência”: p. 18.

13. Neste ponto da exposição, entretanto, precisamos ter em conta um segundo conjunto de fenômenos associados ao conceito de signo: se no caso das “inferências naturais”, é a implicação causal que dá molde aos regimes da compreensão, em toda uma outra ordem de fenômenos (mais ou menos característicos de uma estrutura de compreensão típica do entendimento que temos sobre palavras e sentenças), não poderíamos reclamar, na condição de uma faculdade primordial desta compreensão, os mecanismos de implicação pelos quais a noção mesma de “signo” despontou para nossa exposição. Pois então examinemos este conjunto de fatos aos quais uma outra idéia de signo parece fazer sala.

14. Na relação que é própria ao modo como empregamos termos isolados da linguagem,   (em especial, as palavras), seus objetos são “afecções da alma”, sendo apenas neste sentido se pode dizer, com Aristóteles, que as palavras são signos: quando as empregamos, sinalizamos que há algo que se passa em nós e que desejamos exprimir através dos sons articulados que emitimos. No que respeita, em primeiro lugar, o modo como compreendemos palavras, a impossibilidade de defini-las enquanto signos diz respeito às condições sob as quais ela torna unidos os termos da expressão (as palavras) e as afecções da alma que elas representam: a matriz desta união não decorre das condições factuais mediante as quais as duas faces se ligam (palavras e afecções), pois não há motivação nesta relação, apenas convenção (é o que define as palavars como símbolos e não como signos, na perspectiva aristotélica).

15. Com os estóicos é que emerge pela primeira vez, ao menos no contexto da Antiguidade, o espírito com o qual a investigação filosófica sobre os signos assimila à ordem inferencial (na qual o signo era pensado inicialmente) o domínio da expressão linguística de conteúdos mentais: para isto, operam sobretudo um refinamento na caracterização daquilo a que podemos chamar de conteúdos da expressão verbal; a virtude dos estóicos é a de assumir a realidade do discurso nas suas próprias modalidades, sem correlacioná-las necessariamente com as condições de verdade dadas nas idéias e nas afecções. Nos termos em que Eco compreende estas transformações, é com a filosofia estóica, que os objetos da referência assumem a condição de entidades do discurso e da razão (os lekta “incorporais”) e não do mundo físico. Nestes termos, se não chegam a incorporar as palavras aos signos, decerto que os estóicos elaboram uma sugestiva filosofia dos conteúdos linguisticos e de sua correspondente forma lógica: quando examinarmos, mais tarde, o conceito semiótico de “significado”, verificaremos a importância deste tipo de abordagem, característico da antiguidade das teorias semióticas (mas do qual nos restou muito pouca documentação sobre os detalhes da argumentação).

16. No modo como, ainda segundo Eco, Santo Agostinho tentou unificar estas duas ordens da concepção do signo, sete séculos depois dos estóicos (e dezesseis séculos antes de Saussure), poderíamos estabelecer que a relação entre fatos é, de certo modo, uma resultante (decerto cronológica, oxalá ontológica) das relações entre as expressões linguísticas e seus conteúdos (em termos, entre as palavras e seus significados). Uma admissão como esta nos conduziria a pensar o estatuto lógico do signo como localizado no âmbito da conotação (do sentido indireto), ao passo que os signos linguísticos seriam, por definição, denotativos. Mais tarde, entretanto, a questão da significação se sofistica, em Agostinho, quando considera a função própria aos termos de ligação (os sincategoremáticos), o que dá início ao que Eco designa como “modelo instrucional” ou seja, a análise contexual do significado.

« Em De Magistro, Santo Agostinho analisa com Adeodato o verso virgiliano ‘si nihil ex tanta superis placet urbe relinqui’ e define as palavras como ‘octo signa’ ; em seguida passa a interrogar-se sobre o significado de ‘si’ e reconhece que este termo veicula um significado de ‘dúvida’. E como reconhece que ‘non esse signum nisi aliquid significet’, é obrigado a définir também o significado (…) de ‘nihil : como é impossível emitir signos para não dizer nada, e como o significado de ‘nada’ não parece ser nem um objeto nem um estado do mundo, Santo Agostinho conclui que este termo expressa uma afeição da alma, isto é, um estado da mente que, mesmo não reconhecendo algo, reconhece pelo menos sua ausência ». Eco, “Signo e inferência”: p. 44.

17. Em todas estas questõe, entretanto, estamos nos reportando muito mais àquilo dignifica semioticamente a expressão linguística, pelo fato de podermos estipular os conteúdos relativos a cada uma de suas manifestações ou ocorrências: assim sendo, enunciados e proposições verbais são “signos” porque seu significado pode ser determinado, no modo como a ordem de seus conteúdos manifesta-se em estado de sistema; mas é fato que este não é ainda o tema de nossa reflexão, pois é relativo à unidade dos “significados”, de que trataremos a seguir, o que deve então dirigir nossa atenção para aquilo que constitui o veículo propriamente dito de uma significação que se manifestaria na articulação das formas linguísticas. Precisamos, então, pensar no que é que faz dos sons um fenômeno de estudos próprio ao que chamaríamos de signos: o que há, enfim, nas expressões verbais, que as configura enquanto partes de uma significação?

18. A Linguística estrutural de Saussure vai resolver esta questão do sistema arbitrário sob o qual as expressões linguísticas podem ser explicadas, a partir do modo como ele concebe o próprio signo linguístico: neste caso, temos que separar momentaneamente aquilo que é central para a linguística (o estudo da língua enquanto sistema de regras), daquilo que nos interessa agora, a saber, o modo como Saussure define a unidade minima do signo, enquanto parte deste sistema. Vejamos como estas questões se constroem, em seguida.

19. A definição linguística do “signo”, assim como os princípios que regem sua articulação, no sistema de valores que é a língua, influenciou enormemente a constituição dos saberes semiológicos, como já vimos antes, em especial no modo como Roland Barthes restitui ao papel da descoberta da obra do lingüista genebrino a maior influência de seu turno semiológico, entre o fim dos anos 50 e o início dos 60; a incidência dos saberes lingüísticos no processo de constituição da semiologia enquanto ciência se justifica pelo modo como as ciências da linguagem permitem à nascente ciência geral dos signos a observação de uma série de fenômenos correlatos às linguagens naturais (mas não articulados a partir do mesmo tipo de matéria própria à língua), e que poderiam ser observados, a partir de princípios firmados pelo modo como Saussure definiu o objeto e as finalidades da própria linguística (o que não se deu de modo simples, mas por uma série de transposições e de especificações feitas à definição saussureana do signo linguístico).

20. Numa passagem do capítulo sobre o signo, nos Éléments, Barthes nos sugere um modo de pensar o lugar mais próprio desta instância mais concreta ou atual dos processo de significação (e que não deve ser jamais confundida com o conceito mesmo do “signo”, numa perspectiva estritamente linguística): se tomarmos como referência o princípio da dupla articulação dos signos linguísticos, podemos estipular o lugar mais próprio da dimensão significante no domínio das relações puramente diferenciais que caracterizam o signo linguístico (aquela que é própria à disposição estruturada dos sons, e que não tem correlação necessária com o sentido e a referência dos termos simples). O domínio da fonologia ilustraria , assim, um aspecto puramente significante, que constitui o signo linguístico enquanto unidade de um sistema (portanto, relativa a regras e valores), antes mesmo da remissão a um sentido propriamente semântico.

« …eis uma proposição capital e a que é sempre preciso voltar, pois há uma tendencia a tomar signo por significante, quando se trata de uma realidade bifacial ; a consequência (importante) é que, pelo menos para Saussure (…), como os significados fazem parte dos signos, a Semântica deve fazer parte da Linguística Estrutural (…). A partir de Saussure, a teoria do signo linguistico enriqueceu-se com o princípio da dupla articulação (…) : entre os signos linguísticos, é preciso, com efeito, separar as unidades significativas, cada uma das quais está provida de um sentido (as ‘pa lavras’ou, para ser mais exato, os ‘monemas’), e que formam a primeira articulação, das unidades distintivas, que participam da forma, mas não têm diretamente um sentido (os ‘sons’, ou melhor, os ‘fonemas’), e que constituem a segunda articulação ; é a dupla articulação que expliqua a economia da linguagem humana ; constitui, na verdade, uma espécie de poderosa desmultiplicação que faz com que o espanhol da América, por exemplo, com apenas 21 unidades distintivas, possa produzir 100.000 unidades significativas» Barthes, R. “Significado/significante”: pp. 42,43.

21. Segundo Barthes, a importância do conceito linguístico de signo como unidade é o de definir para a própria linguística, (ou pelo menos para seus ramos que encontram-se concernidos com a dimensão participativa dos significados como entidades linguísticas) um princípio operatório que consiste em estabelecer que na linguagem encontramos, como estruturalmente comprometidas, duas espécies de unidades: primeiramente, as unidades significativas (os monemas ou, simplesmente, as palavras) que são portadoras de um sentido semântico simples, assim como as unidades distintivas (grosso modo, os fonemas ou sons da língua), que, segundo Barthes, participam da forma, mas não são necessariamente portadoras de sentido. A suposição de que o signo linguístico envolva uma diferenciação teórica, mas não fenomênica, entre significantes e significados aparelha a própria linguística a firmar o princípio da dupla articulação dos signos da língua.

Referências Bibliográficas:
BARTHES, Roland. “Significado/significante”. In: Elementos de Semiologia;
ECO, Umberto. “Signo e Inferência”. In: Semiótica e Filosofia da Linguagem ;
VOLLI, U. « Signo ». In : Manual de Semiótica.

Próximas Leituras:
ECO, Umberto. “Sobre o ser”. In: Kant e o Ornitorrinco;
QUINE, W.v.O. “Sobre o que há”. In: Existência e Linguagem.