Queridos,
Seguem logo abaixo minhas anotações sobre o último tópico do curso, sobre as relações entre signos, inferência e linguagem, a partir de textos de Saussure e Peirce. Lembro a todos que não teremos aula na próxima quarta-feira, mas que retomaremos nossas atividades normais no dia 09/11.
Ad,
Benjamim
Introdução a Semiótica - GEC 107
Aula no 6 – 26/10/2011
Signos, Pensamento e Linguagem: as matriz lógicas e lingüísticas da significação (Ch.S. Peirce e F. de Saussure)
- Vimos um pouco antes que certas concepções acerca das relações entre signos e regimes da compreensão chamavam em causa as modalidades inferenciais como a matriz na qual um certo conceito de signo pôde emergir: pois bem, neste percurso, temos que considerar que, nas origens de um postulado lógico sobre o signo, há uma dúplice rejeição de idéias que nortearam durante muitos séculos, a interrogação sobre as estruturas mais profundas de nossa consciência (isto é, de nossa relação com o mundo exterior e com nossa própria interiorirdade). Pois bem, na matriz mesmo de uma certa semiótica, vemos com clareza como é que a noção mesma de signo nasce de uma crítica à noção de que podemos conhecer em razão de certas faculdades que nos seriam inerentes.
- Na fonte mesma de uma determinada filosofia da consciência e da subjetividade (originária, ao menos nos tempos modernos, da influência do cartesianismo, a partir do século XVII) identifica-se com o postulado de duas supostas capacidades que seriam próprias à nosso modo de intelecção do mundo: o conhecimento de nós mesmos e o conhecimento do mundo exterior. Na perspectiva do cartesianismo (há que se considerar nesta caracterização do matiz filosófico maio efeito das idéias de Descartes do que sua doutrina propriamente), conhecemos o mundo exterior como conseqüência de um certo estado de nossa consciência sobre nossa própria interioridade (este é o significado da implicação entre pensar e existir, proposta nas Meditações).
- No caso das perspectivas teóricas que se descortinam com a abordagem lógica dos processos de significação, os textos de Peirce dão prova do modo como uma concepção semiótica do conhecimento se impõe contra a idéia de uma matriz radicalmente subjetiva do conhecimento e da compreensão: não há como acessar compreensivelmente a doutrina dos signos de Peirce sem considerar este seu aspecto de rejeição de uma consciência baseada no conhecimento direto de nossa interioridade. Demarcando posição contra a idéia de um fundamento subjetivo do conhecimento (a consciência de si, mediante o exercício da introspecção), falar de uma cognição implica em admitir que mesmo esta consciência de um eu é derivada de certas relações prévias.
- Pois bem, em primeiro lugar, numa perspectiva semiótica, não podemos partir da suposição de que o conhecimento da nossa interioridade seja uma faculdade individual do sujeito que conhece: não conheço meu eu, independentemente de meu conhecimento sobre fatos externos, sendo isto algo que as escolas contemporâneas da psicologia do desenvolvimento e da psicanálise já puderam firmar como o problema da gênese da subjetividade (seja como questão relativa às fontes interacionais do “eu”ou a noção da “fase do espelho”, por exemplo).
« Ninguém questionna que, quando uma criança ouve um som, ela pensa não em si mesma na condição de ouvinte, mas sim no sino ou em outros objetos na condição de soantes (…). Está fora de dúvidas que é o segundo pensamento que nela ocorre ; e até que seja provada a existência de uma autoconsciência intuitiva, deve-se considerar como uma siposição arbitrária e sem fundamento a resposta que aponte para a primeira destas duas alternativas ». Peirce, “Questions on certain faculties... » : p. 248,249.
- Se a ocorrência desta interioridade fosse algo absolutamente restrito à ordem do indivíduo, jamais teríamos o que dizer de nós mesmos a outrem, de modo a nos fazermos entender. A tese sobre a “interioridade do eu” se confronta com a da “comunicabilidade” essencial da subjetividade (e que ressoará, por exemplo na afirmação de Volli sobre a inevitabilidade da comunicação, como horizonte experiencial. Peirce se refere a esta impossibilidade como sendo uma interdição à faculdade da introspecção, isto é, não temos nenhum conhecimento direto de nós mesmos, pois quando falamos de um “eu”, para nomear um centro de nossas experiências, nos valemos da derivação da estrutura pela qual conhecemos fatos externos.
“Aceitando a primeira proposição, precisamos deixar de lado todos os preconceitos que derivam de uma filosofia que baseia nosso conhecimento do mundo externo em nossa autoconsciência. Não podemos admitir colocação alguma concernente àquilo que se passa dentro de nós, a não ser como hipótese necessária para explicar o que acontece naquilo que habitualmente chamamos de mundo externo.” Peirce, “Algumas conseqüências de quatro incapacidades”: p. 261.
- Por sua vez, nosso conhecimento dos fatos externos não é igualmente direto, ou dado aos nossos sentidos, isto é, não possuímos a faculdade da intuição (como uma cognição imediata) daquilo que é exterior à nossa consciência: o que sabemos sobre a exterioridade é sempre algo derivado de proposições anteriores, é sempre algo que se coloca na estrutura implicativa da predicação proposicional. Isto é, conhecer objetivamente alguma coisa nunca é algo que se dê de modo absolutamente determinado pelos objetos de nossa consciência, mas pelos conceitos que formamos e sedimentamos num sistema de crenças, a seu respeito, ou pelas relações possíveis (cognsocíveis apenas por hipótese) com outros objetos de nossa cognição anterior.
- Sob este aspecto, o conhecimento inferencial, sendo um guia do modo como estabelecemos verdades seguras para nossa conduta, está longe de derivar esta verdade a partir daquilo que se encontra puramente afirmado nas premissas: os problemas derivados desta questão sobre a universalidade de uma cognição discursiva ou inferencial, já verificamos que é um traço carcaterístico do modelo cogitativo (o chamado “paradigma indiciário”), que caracteriza uma certa linhagem dos modelos fundamentais da investigação científica do século XIX (cuja matriz nos restitui ao modelo semiótico das práticas clínicas), que pudemos discutir um pouco antes, quando tratamos da estrutura inferencial da lógica detetivesca.
- No caso presente, nos interessa avaliar como é que a estrutura de nossas cognições sobre o que é “interior” ou “exterior” à consciência vai se rebater sobre a noção mesma de signo, na medida em que o concebamos como um “veículo” destes processos cognitivos: vimos que Peirce fala da impossibilidade de uma faculdade de pensamento sem o imediato concurso dos signos. Se nossa cognição da interioridade decorre do modo como conhecemos fatos externos e se este último modo de cognição depende de cognições anteriores, o que estamos dizendo é que a estrutura de nosso pensamento se organiza no modo próprio ao das remissões entre segmentos de nossa experiência, definidos como signos (isto é, como uma relação de remissões sucessivas – quem sabe até, infinitas - das quais é sempre impossível restituir uma origem absoluta, tampouco determinar um ponto final definitivo).
- Se nosso pensamento se estrutura sobre uma base inferencial de implicações, é porque esta mesma base reflete uma estrutura mais profunda, que é a do funcionamento dos signos mesmos. Isto significa que, na ordem de nossas cognições, aquilo que é “objetivo” ou “subjetivo” só o é assim relativamente a um sistema de referências e de crenças, cuja estrutura de funcionamento é da ordem dos signos, isto é: aparece sob a forma de uma substância individual designada por seu conceito (como no predicado), que confere ao signo seu fundamento (de ordem material ou mental), por seu turno apontando para um universo de referência (definida como um objeto), finalmente gerando uma lei ou um hábito inferencial, ou ainda um significado proposicional (que caracteriza o interpretante como segmento do signo). Examinemos esses conceitos em detalhe, em seguida.
- Na estrutura em que os signos são definidos como “veículos” de um pensamento (e uma vez dada esta definição de que a relação do pensamento com seus supostos objetos é sempre mediada por pensamentos anteriores), a ocorrência mesma de um signo é sempre relativa ao necessário efeito que outros signos instauraram para ele, do mesmo modo que cada cognição que temos é reportada por cognições anteriores: isto é apenas outra maneira de dizer que um signo emerge no pensamento sempre como decorrência de uma significação anterior (assim como também instaura a ocorrência de novos signos, mais adiante): nesse sentido, como afirma Peirce, o signo é inseparável do caráter interpretativo do pensamento. Esse aspecto define inclusive a instância do interpretante como um componente possivelmente inaugural da definição peirceana do signo: numa perspectiva mais genérica, podemos dizer que essa parte do conceito se reporta ao que chamaremos, mais adiante, de conceito semiótico do significado.
- Por outro lado, e como decorrência mesma de ser algo que se postula na necessária relação entre segmentos de nossas cognições, o conceito peirceano de signo exprime uma dimensão de alteridade, como constitutiva de sua própria concepção: um signo ocorre sempre na relação que é originária de sua definição mesma e, se assim é (se é algo que manifesta-se na relação com outra coisa), a sua manifestação sempre se reporta a outro objeto (ens realis ou ens rationalis, coisa ou idéia) que não aquele pelo qual ele exprime enquanto tal. Há portanto algo de manifestamente externo ao signo, e do qual ele não separa, na condição mesma de ser signo; Peirce designa esta parte do conceito de signo, como sendo o objeto do signo. Finalmente, naquilo que é próprio ao signo enquanto veículo de representações, são certos aspectos que definem o modo como ele se reporta aos objetos e aos significados que lhe correspondem, e aqui falamos das propriedades ou qualidades intensionais do signo, a que Peirce define como sendo o fundamento de todo signo.
- Concluindo nosso percurso pelas modalidades elementares da compreensão, encontramos finalmente uma linhagem das teorias da significação na qual o conceito mesmo de “signo” se caracteriza pela relação com os problemas que definem o regime do entendimento textual: pois bem, esta outra ordem de concepções na qual o signo aparece comprometido com a compreensão de sentenças e palavras é precisamente aquela na qual o interesse pelas teorias semióticas emergiu, pela primeira vez, como um traço característico de sua inclusão ao universo de problemas das ciências humanas e sociais (e, muito especialmente, no campo de estudos da comunicação).
- Pois é precisamente, esta ordem das concepções sobre o signo semiológico (que culminam, por exemplo, no programa de pesquisas semiológica de Roland Barthes, no decorrer dos anos 60 do século passado) que pretendemos averiguar: não é o caso,, entretanto, de retomarmos as questões relativas à aplicação das categorias linguísticas ao universo de manifestações extra-linguísticas (aspecto que já tratamos em unidades anteriores), mas o de examinar as fontes deste discurso que toma os fatos semiológicos enquanto fatos de linguagem. Nestes termos, nos interessa avaliar a noção mesma de “signo”, trabalhada pela semiologia, a partir do modo como ela se define, relativamente às estruturas elementares da compreensão (em especial, a capacidade do entendimento textual).
- Um aspecto que nos permitirá tratar, em separado, a definição do signo enquanto entidade ligada aos modos da expressão e da compreensão linguísticas, diz respeito ao estatuto epistemológico dos modos lógicos de implicação: em certos casos de inferência (por exemplo, “se usa um broche com foice e martelo, então comunista”), as condições de veridição de uma proposição não são dadas por fatos anteriores, mas firmadas por convenção, isto é, estabelecidas como um princípio coletivo e arbitrário da significação. O valor de conhecimento que se estabelece para as proposições, nestes casos funciona como uma resultante de práticas sociais institucionalizadas, e deve ser explicado como um recurso dos signos a este modo de sua compreensão. Entender enunciados, neste caso, é entender um conjunto de signos que se opera a partir dos princípios de concatenação próprios às regras da linguagem.
- A Linguística estrutural de Saussure vai resolver esta questão do sistema arbitrário sob o qual as expressões linguísticas podem ser explicadas, a partir do modo como ele concebe o próprio signo linguístico, como constituinte de um sistema de valores: neste caso, temos que separar momentaneamente aquilo que é central para a linguística (o estudo da língua enquanto sistema de regras), daquilo que nos interessa agora, a saber, o modo como Saussure define a unidade minima do signo, enquanto parte deste sistema. Vejamos como estas questões se constroem, em seguida.
- Assim sendo, a definição do signo linguistico está incluída na noção do “sistema”, através do qual Saussure concebe o objeto da linguística: sendo a língua definida como um “sistema de signos”, e não como um “conjunto” ou “enumeração” dos mesmos, a definição do signo linguístico, na perspectiva saussureana, não o introduz como uma unidade puramente individual, mas como o termo de uma função, união de certos aspectos dos processos de nomeação, que não podem ser separados, sem o sacrifício da idéia mesma de signo que funciona num sistema de valores.
- Saussure começa por identificar nas unidades que constituem a língua esta unidade entre um aspecto material (sonoro ou gráfico) e uma ordem de idéias (às quais associamos instantaneamente as emissões dotadas de certo grau de articulação). É assim portanto que surge a idéia de uma definição do signo linguístico como união de uma porção acústica (um significante) e outra de suas partes como referido aos conceitos (o significado): elas se constituem na unidade do signo como partes mutuamente indissociáveis (a imagem saussureana é a do verso e reverso de uma mesma folha de papel).
“Para certas pessoas, a língua, reduzida a seu princípio essencial, é uma nomenclatura, vale dizer, uma lista de termos que correspondem a outras tantas coisas (...). Tal concepção é criticável em numerosos aspectos. Supõe idéias completamente feitas, preexistentes às palavras (...); ela não diz se a palavra é de natureza vocal ou psíquica, pois arbor pode ser considerada sob um ou outro aspecto; por fim, ela faz supor que o vinculo que une um nome a uma coisa constitui uma operação muito simples, o que está bem longe da verdade (...). O signo lingüístico não une uma coisa e uma palavras, mas um conceito e uma imagem acústica. Esta não é o som matéria, coisa puramente física, ams a impressão psíquica deste som, a representação que dele nos dá o testemunho de nossos sentidos.” Saussure, Ferdinand de. “Princípios Gerais”: p. 79,80.
- Dois princípios regem fundamentalmente a constituição do signo enquanto tal unidade complexa: em primeiro lugar a arbitrariedade da relação entre significante e significado (isto é, o fato de que esta unidade não é explicável em termos de determinação de cada uma de suas partes, entre si, mas por um princípio convencionado, instituído no partilhamento social), fato este que explica o aspecto de instituição social, através do qual Saussure define a língua enquanto objeto de estudos da linguística; em segundo lugar, a porção acústica do signo é determinada em seu valor, apenas no contexto de suas relações com outras porções de sons e de palavras (isto significa que o valor de uma unidade sonora é sempre o resultado de sua articulação com outras unidades do sistema inteiro, seja no plano da oposição presencial pela qual sons e palavras se articulam, seja no nível da associação própria à relação entre uma porção de sons e enunciados e seus correspondentes conteúdos), o que caracteriza a dimensão de “sistema de signos” que define a língua enquanto objeto de estudos.
- A definição linguística do “signo”, assim como os princípios que regem sua articulação, no sistema de valores que é a língua, influenciou enormemente a constituição dos saberes semiológicos, como já vimos no passado, no modo como Roland Barthes restitui ao papel da descoberta da obra do lingüista genebrino a maior influência de seu turno semiológico, entre o fim dos anos 50 e o início dos 60; a incidência dos saberes lingüísticos no processo de constituição da semiologia enquanto ciência se justifica pelo modo como as ciências da linguagem permitem à nascente ciência geral dos signos a observação de uma série de fenômenos correlatos às linguagens naturais (mas não articulados a partir do mesmo tipo de matéria própria à língua), e que poderiam ser observados, a partir de princípios firmados pelo modo como Saussure definiu o objeto e as finalidades da própria linguística (o que não se deu de modo simples, mas por uma série de transposições e de especificações feitas à definição saussureana do signo linguístico).
- Segundo Barthes, a importância do conceito linguístico de signo como unidade é o de definir para a própria linguística, (ou pelo menos para seus ramos que encontram-se concernidos com a dimensão participativa dos significados como entidades linguísticas) um princípio operatório que consiste em estabelecer que na linguagem encontramos, como estruturalmente comprometidas, duas espécies de unidades: primeiramente, as unidades significativas (os monemas ou, simplesmente, as palavras) que são portadoras de um sentido semântico simples, assim como as unidades distintivas (grosso modo, os fonemas ou sons da língua), que, segundo Barthes, participam da forma, mas não são necessariamente portadoras de sentido. A suposição de que o signo linguístico envolva uma diferenciação teórica, mas não fenomênica, entre significantes e significados aparelha a própria linguística a firmar o princípio da dupla articulação dos signos da língua.
Referências Bibliográficas:
PEIRCE, Charles S. “Algumas conseqüências de quatro incapacidades”. In: Semiótica.
SAUSSURE, Ferdinand de. "Natureza do signo linguístico" e “Imutabilidade e mutabilidade do signo”. In: Curso de Linguística Geral.
Próximas Leituras:
BARTHES, Roland. “Significante/significado”. In: Elementos de Semiologia;
VOLLI, Ugo. “Signo”. In: Manual de Semiótica.