segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Notas da última aula: signos, inferência e convencionalidade, em Peirce e Saussure

Queridos,

Seguem logo abaixo minhas anotações sobre o último tópico do curso, sobre as relações entre signos, inferência e linguagem, a partir de textos de Saussure e Peirce. Lembro a todos que não teremos aula na próxima quarta-feira, mas que retomaremos nossas atividades normais no dia 09/11.

Ad,

Benjamim

Introdução a Semiótica - GEC 107
Aula no 6 – 26/10/2011
Signos, Pensamento e Linguagem: as matriz lógicas e lingüísticas da significação (Ch.S. Peirce e F. de Saussure)

  1. Vimos um pouco antes que certas concepções acerca das relações entre signos e regimes da compreensão chamavam em causa as modalidades inferenciais como a matriz na qual um certo conceito de signo pôde emergir: pois bem, neste percurso, temos que considerar que, nas origens de um postulado lógico sobre o signo, há uma dúplice rejeição de idéias que nortearam durante muitos séculos, a interrogação sobre as estruturas mais profundas de nossa consciência (isto é, de nossa relação com o mundo exterior e com nossa própria interiorirdade). Pois bem, na matriz mesmo de uma certa semiótica, vemos com clareza como é que a noção mesma de signo nasce de uma crítica à noção de que podemos conhecer em razão de certas faculdades que nos seriam inerentes.
  1. Na fonte mesma de uma determinada filosofia da consciência e da subjetividade (originária, ao menos nos tempos modernos, da influência do cartesianismo, a partir do século XVII) identifica-se com o postulado de duas supostas capacidades que seriam próprias à nosso modo de intelecção do mundo: o conhecimento de nós mesmos e o conhecimento do mundo exterior. Na perspectiva do cartesianismo (há que se considerar nesta caracterização do matiz filosófico maio efeito das idéias de Descartes do que sua doutrina propriamente), conhecemos o mundo exterior como conseqüência de um certo estado de nossa consciência sobre nossa própria interioridade (este é o significado da implicação entre pensar e existir, proposta nas Meditações).
  1. No caso das perspectivas teóricas que se descortinam com a abordagem lógica dos processos de significação, os textos de Peirce dão prova do modo como uma concepção semiótica do conhecimento se impõe contra a idéia de uma matriz radicalmente subjetiva do conhecimento e da compreensão: não há como acessar compreensivelmente a doutrina dos signos de Peirce sem considerar este seu aspecto de rejeição de uma consciência baseada no conhecimento direto de nossa interioridade. Demarcando posição contra a idéia de um fundamento subjetivo do conhecimento (a consciência de si, mediante o exercício da introspecção), falar de uma cognição implica em admitir que mesmo esta consciência de um eu é derivada de certas relações prévias.
  1. Pois bem, em primeiro lugar, numa perspectiva semiótica, não podemos partir da suposição de que o conhecimento da nossa interioridade seja uma faculdade individual do sujeito que conhece: não conheço meu eu, independentemente de meu conhecimento sobre fatos externos, sendo isto algo que as escolas contemporâneas da psicologia do desenvolvimento e da psicanálise já puderam firmar como o problema da gênese da subjetividade (seja como questão relativa às fontes interacionais do “eu”ou a noção da “fase do espelho”, por exemplo). 
« Ninguém questionna que, quando uma criança ouve um som, ela pensa não em si mesma na condição de ouvinte, mas sim no sino ou em outros objetos na condição de soantes (…). Está fora de dúvidas que é o segundo pensamento que nela ocorre ; e até que seja provada a existência de uma autoconsciência intuitiva, deve-se considerar como uma siposição arbitrária e sem fundamento a resposta que aponte para a primeira destas duas alternativas ». Peirce, “Questions on certain faculties... » : p. 248,249.

  1. Se a ocorrência desta interioridade fosse algo absolutamente restrito à ordem do indivíduo, jamais teríamos o que dizer de nós mesmos a outrem, de modo a nos fazermos entender. A tese sobre a “interioridade do eu” se confronta com a da “comunicabilidade” essencial da subjetividade (e que ressoará, por exemplo na afirmação de Volli sobre a inevitabilidade da comunicação, como horizonte experiencial. Peirce se refere a esta impossibilidade como sendo uma interdição à faculdade da introspecção, isto é, não temos nenhum conhecimento direto de nós mesmos, pois quando falamos de um “eu”, para nomear um centro de nossas experiências, nos valemos da derivação da estrutura pela qual conhecemos fatos externos.
“Aceitando a primeira proposição, precisamos deixar de lado todos os preconceitos que derivam de uma filosofia que baseia nosso conhecimento do mundo externo em nossa autoconsciência. Não podemos admitir colocação alguma concernente àquilo que se passa dentro de nós, a não ser como hipótese necessária para explicar o que acontece naquilo que habitualmente chamamos de mundo externo.” Peirce, “Algumas conseqüências de quatro incapacidades”: p. 261.

  1. Por sua vez, nosso conhecimento dos fatos externos não é igualmente direto, ou dado aos nossos sentidos, isto é, não possuímos a faculdade da intuição (como uma cognição imediata) daquilo que é exterior à nossa consciência: o que sabemos sobre a exterioridade é sempre algo derivado de proposições anteriores, é sempre algo que se coloca na estrutura implicativa da predicação proposicional. Isto é, conhecer objetivamente alguma coisa nunca é algo que se dê de modo absolutamente determinado pelos objetos de nossa consciência, mas pelos conceitos que formamos e sedimentamos num sistema de crenças, a seu respeito, ou pelas relações possíveis (cognsocíveis apenas por hipótese) com outros objetos de nossa cognição anterior. 
  1. Sob este aspecto, o conhecimento inferencial, sendo um guia do modo como estabelecemos verdades seguras para nossa conduta, está longe de derivar esta verdade a partir daquilo que se encontra puramente afirmado nas premissas: os problemas derivados desta questão sobre a universalidade de uma cognição discursiva ou inferencial, já verificamos que é um traço carcaterístico do modelo cogitativo (o chamado “paradigma indiciário”), que caracteriza uma certa linhagem dos modelos fundamentais da  investigação científica do século XIX (cuja matriz nos restitui ao modelo semiótico das práticas clínicas), que pudemos  discutir um pouco antes, quando tratamos da estrutura inferencial da lógica detetivesca.
  1. No caso presente, nos interessa avaliar como é que a estrutura de nossas cognições sobre o que é “interior” ou “exterior” à consciência vai se rebater sobre a noção mesma de signo, na medida em que o concebamos como um “veículo” destes processos cognitivos: vimos que Peirce fala da impossibilidade de uma faculdade de pensamento sem o imediato concurso dos signos. Se nossa cognição da interioridade decorre do modo como conhecemos fatos externos e se este último modo de cognição depende de cognições anteriores, o que estamos dizendo é que a estrutura de nosso pensamento se organiza no modo próprio ao das remissões entre segmentos de nossa experiência, definidos como signos (isto é, como uma relação de remissões sucessivas – quem sabe até, infinitas - das quais é sempre impossível restituir uma origem absoluta, tampouco determinar um ponto final definitivo).
  1. Se nosso pensamento se estrutura sobre uma base inferencial de implicações, é porque esta mesma base reflete uma estrutura mais profunda, que é a do funcionamento dos signos mesmos. Isto significa que, na ordem de nossas cognições, aquilo que é “objetivo” ou “subjetivo” só o é assim relativamente a um sistema de referências e de crenças, cuja estrutura de funcionamento é da ordem dos signos, isto é: aparece sob a forma de uma substância individual designada por seu conceito (como no predicado), que confere ao signo seu fundamento (de ordem material ou mental), por seu turno apontando para um universo de referência (definida como um objeto), finalmente gerando uma lei ou um hábito inferencial, ou ainda um significado proposicional (que caracteriza o interpretante como segmento do signo). Examinemos esses conceitos em detalhe, em seguida.
  1. Na estrutura em que os signos são definidos como “veículos” de um pensamento (e uma vez dada esta definição de que a relação do pensamento com seus supostos objetos é sempre mediada por pensamentos anteriores), a ocorrência mesma de um signo é sempre relativa ao necessário efeito que outros signos instauraram para ele, do mesmo modo que cada cognição que temos é reportada por cognições anteriores: isto é apenas outra maneira de dizer que um signo emerge no pensamento sempre como decorrência de uma significação anterior (assim como também instaura a ocorrência de novos signos, mais adiante): nesse sentido, como afirma Peirce, o signo é inseparável do caráter interpretativo do pensamento. Esse aspecto define inclusive a instância do interpretante como um componente possivelmente inaugural da definição peirceana do signo: numa perspectiva mais genérica, podemos dizer que essa parte do conceito se reporta ao que chamaremos, mais adiante, de conceito semiótico do significado.
  1. Por outro lado, e como decorrência mesma de ser algo que se postula na necessária relação entre segmentos de nossas cognições, o conceito peirceano de signo exprime uma dimensão de alteridade, como constitutiva de sua própria concepção: um signo ocorre sempre na relação que é originária de sua definição mesma e, se assim é (se é algo que manifesta-se na relação com  outra coisa), a sua manifestação sempre se reporta a outro objeto (ens realis ou ens rationalis, coisa ou idéia) que não aquele pelo qual ele exprime enquanto tal. Há portanto algo de manifestamente externo ao signo, e do qual ele não separa, na condição mesma de ser signo; Peirce designa esta parte do conceito de signo, como sendo o objeto do signo. Finalmente, naquilo que é próprio ao signo enquanto veículo de representações, são certos aspectos que definem o modo como ele se reporta aos objetos e aos significados que lhe correspondem, e aqui falamos das propriedades ou qualidades intensionais do signo, a que Peirce define como sendo o fundamento de todo signo.
  1. Concluindo nosso percurso pelas modalidades elementares da compreensão, encontramos finalmente uma linhagem das teorias da significação na qual o conceito mesmo de “signo” se caracteriza pela relação com os problemas que definem o regime do entendimento textual: pois bem, esta outra ordem de concepções na qual o signo aparece comprometido com a compreensão de sentenças e palavras é precisamente aquela na qual o interesse pelas teorias semióticas emergiu, pela primeira vez, como um traço característico de sua inclusão ao universo de problemas das ciências humanas e sociais (e, muito especialmente, no campo de estudos da comunicação).
  1. Pois é precisamente, esta ordem das concepções sobre o signo semiológico (que culminam, por exemplo, no programa de pesquisas semiológica de Roland Barthes, no decorrer dos anos 60 do século passado) que pretendemos averiguar: não é o caso,, entretanto, de retomarmos as questões relativas à aplicação das categorias linguísticas ao universo de manifestações extra-linguísticas (aspecto que já tratamos em unidades anteriores), mas o de examinar as fontes deste discurso que toma os fatos semiológicos enquanto fatos de linguagem. Nestes termos, nos interessa avaliar a noção mesma de “signo”, trabalhada pela semiologia, a partir do modo como ela se define, relativamente às estruturas elementares da compreensão (em especial, a capacidade do entendimento textual).
  1. Um aspecto que nos permitirá tratar, em separado, a definição do signo enquanto entidade ligada aos modos da expressão e da compreensão linguísticas, diz respeito ao estatuto epistemológico dos modos lógicos de implicação: em certos casos de inferência (por exemplo, “se usa um broche com foice e martelo, então comunista”), as condições de veridição de uma proposição não são dadas por fatos anteriores, mas firmadas por convenção, isto é, estabelecidas como um princípio coletivo e arbitrário da significação. O valor de conhecimento que se estabelece para as proposições, nestes casos funciona como uma resultante de práticas sociais institucionalizadas, e deve ser explicado como um recurso dos signos a este modo de sua compreensão. Entender enunciados, neste caso, é entender um conjunto de signos que se opera a partir dos princípios de concatenação próprios às regras da linguagem. 
  1. A Linguística estrutural de Saussure vai resolver esta questão do sistema arbitrário sob o qual as expressões linguísticas podem ser explicadas, a partir do modo como ele concebe o próprio signo linguístico, como constituinte de um sistema de valores: neste caso, temos que separar momentaneamente aquilo que é central para a linguística (o estudo da língua enquanto sistema de regras), daquilo que nos interessa agora, a saber, o modo como Saussure define a unidade minima do signo, enquanto parte deste sistema. Vejamos como estas questões se constroem, em seguida.
  1. Assim sendo, a definição do signo linguistico está incluída na noção do “sistema”, através do qual Saussure concebe o objeto da linguística: sendo a língua definida como um “sistema de signos”, e não como um “conjunto” ou “enumeração” dos mesmos, a definição do signo linguístico, na perspectiva saussureana, não o introduz como uma unidade puramente individual, mas como o termo de uma função, união de certos aspectos dos processos de nomeação, que não podem ser separados, sem o sacrifício da idéia mesma de signo que funciona num sistema de valores.
  1. Saussure começa por identificar nas unidades que constituem a língua esta unidade entre um aspecto material (sonoro ou gráfico) e uma ordem de idéias (às quais associamos instantaneamente as emissões dotadas de certo grau de articulação). É assim portanto que surge a idéia de uma definição do signo linguístico como união de uma porção acústica (um significante) e outra de suas partes como referido aos conceitos (o significado): elas se constituem na unidade do signo como partes mutuamente indissociáveis (a imagem saussureana é a do verso e reverso de uma mesma folha de papel).
“Para certas pessoas, a língua, reduzida a seu princípio essencial, é uma nomenclatura, vale dizer, uma lista de termos que correspondem a outras tantas coisas (...). Tal concepção é criticável em numerosos aspectos. Supõe idéias completamente feitas, preexistentes às palavras (...); ela não diz se a palavra é de natureza vocal ou psíquica, pois arbor pode ser considerada sob um ou outro aspecto; por fim, ela faz supor que o vinculo que une um nome a uma coisa constitui uma operação muito simples, o que está bem longe da verdade (...). O signo lingüístico não une uma coisa e uma palavras, mas um conceito e uma imagem acústica. Esta não é o som matéria, coisa puramente física, ams a impressão psíquica deste som, a representação que dele nos dá o testemunho de nossos sentidos.”  Saussure, Ferdinand de. “Princípios Gerais”: p. 79,80.

  1. Dois princípios regem fundamentalmente a constituição do signo enquanto tal unidade complexa: em primeiro lugar a arbitrariedade da relação entre significante e significado (isto é, o fato de que esta unidade não é explicável em termos de determinação de cada uma de suas partes, entre si, mas por um princípio convencionado, instituído no partilhamento social), fato este que explica o aspecto de instituição social, através do qual Saussure define a língua enquanto objeto de estudos da linguística; em segundo lugar, a porção acústica do signo é determinada em seu valor, apenas no contexto de suas relações com outras porções de sons e de palavras (isto significa que o valor de uma unidade sonora é sempre o resultado de sua articulação com outras unidades do sistema inteiro, seja no plano da oposição presencial pela qual sons e palavras se articulam, seja no nível da associação própria à relação entre uma porção de sons e enunciados e seus correspondentes conteúdos), o que caracteriza a dimensão de “sistema de signos” que define a língua enquanto objeto de estudos.
  1. A definição linguística do “signo”, assim como os princípios que regem sua articulação, no sistema de valores que é a língua, influenciou enormemente a constituição dos saberes semiológicos, como já vimos no passado, no modo como Roland Barthes restitui ao papel da descoberta da obra do lingüista genebrino a maior influência de seu turno semiológico, entre o fim dos anos 50 e o início dos 60; a incidência dos saberes lingüísticos no processo de constituição da semiologia enquanto ciência se justifica pelo modo como as ciências da linguagem permitem à nascente ciência geral dos signos a observação de uma série de fenômenos correlatos às linguagens naturais (mas não articulados a partir do mesmo tipo de matéria própria à língua), e que poderiam ser observados, a partir de princípios firmados pelo modo como Saussure definiu o objeto e as finalidades da própria linguística (o que não se deu de modo simples, mas por uma série de transposições e de especificações feitas à definição saussureana do signo linguístico).
  1. Segundo Barthes, a importância do conceito linguístico de signo como unidade é o de definir para a própria linguística, (ou pelo menos para seus ramos que encontram-se concernidos com a dimensão participativa dos significados como entidades linguísticas) um princípio operatório que consiste em estabelecer que na linguagem encontramos, como estruturalmente comprometidas, duas espécies de unidades: primeiramente, as unidades significativas (os monemas ou, simplesmente, as palavras) que são portadoras de um sentido semântico simples, assim como as unidades distintivas (grosso modo, os fonemas ou sons da língua), que, segundo Barthes, participam da forma, mas não são necessariamente portadoras de sentido. A suposição de que o signo linguístico envolva uma diferenciação teórica, mas não fenomênica, entre significantes e significados aparelha a própria linguística a firmar o princípio da dupla articulação dos signos da língua.
Referências Bibliográficas:
PEIRCE, Charles S. “Algumas conseqüências de quatro incapacidades”. In: Semiótica.
SAUSSURE, Ferdinand de. "Natureza do signo linguístico" e “Imutabilidade e mutabilidade do signo”. In: Curso de Linguística Geral.

Próximas Leituras:
BARTHES, Roland. “Significante/significado”. In: Elementos de Semiologia;
VOLLI, Ugo. “Signo”. In: Manual de Semiótica.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Notas de Aula: a estrutura elementar da compreensão (inferência e leitura)

Queridos,

Seguem as notas da última sessão, dedicada à exposição dos regimes inferenciais e textuais da comreensão. A partir das próximas sessões, vamos entrar nas linhas gerais dos pensamentos de Saussure e de Peirce sobre a significação. Os textos de Peirce já estão disposníveis na pasta do xerox no IACS. Teremos uma interrupção de duas semanas e retomaremos o curso no dia 26/10.

Ad,

Benjamim


Introdução a Semiótica – GEC 107
Aula no 5 – 05/10/2010
Os Signos e a Estrutura Elementar da Compreensão

1. Se tomarmos em conta a questão dos signos, proposta nos termos de sua evocação na grande linha das disciplinas e dos problemas sob as quais esta noção veio a ser identificada no decurso da história do pensamento, notaremos que esta idéia (o conceito mesmo de “signo” e a interrogação sobre seu funcionamento) se manifestou na forma de ao menos duas concepções principais sobre os fenômenos da compreensão e da interpretação, formas estas que se desenvolveram de maneira a se tornarem irredutíveis uma à outra: ou bem o signo se manifesta como questão ligada à pergunta sobre a estruturação formal do pensamento e do raciocínio discursivos, ou então como fenômeno característico dos modos pelos quais nos fazemos entender sobre nossas intenções ou propósitos, através dos meios pelos quais estes estados podem ser comunicados. Ou bem os signos encarnam a estrutura mediante a qual nosso pensamento toma as coisas em causa, ou ainda é parte do sistema pelo qual intermediamos intencionalmente estas ordens de relações entre nossas idéias e as coisas.

2. Em suma, estamos no domínio mais genérico dos valores associados aos signos enquanto objetos de uma investigação sobre o espírito humano, seja do ponto de vista de sua compreensão enquanto “veículo lógico”, ou como propriedade do discurso intencional, da ordem do “querer dizer”, do propósito comunicacional: assim sendo, antes mesmo de examinarmos em detalhes a definição do conceito de signo, em cada uma de suas escolas (seja aquela que define a lógico-pragmática, seja aquela mais próxima da lingüística), precisamos avaliar os fundamentos de cada uma destas concepções, com respeito ao modo como elaboram, cada uma delas, a relação entre os signos e as estruturas elementares de nossa compreensão. Propomos começar esta exploração, a partir da admissão de que os signos constituem um elemento auxiliar à interpretação de questões de fato e dos princípios que regem este segmento de nossas faculdades interpretativas.

3. Correndo o risco de antecipar um problema mais inerente à discussão sobre o conceito de significado, digamos que um dos aspectos do modo como compreendemos realidades diz respeito ao estatuto mesmo que assume para nós a admissão de que algo é, ou então, de que “há algo” sobre o que pensamos ou falamos ou mesmo sentimos e percebemos. Mais ainda, há uma maneira pela qual as teorias semióticas abordaram esta questão (a que poderíamos chamar de “pergunta sobre o ser”: um objeto no mundo não vale, portanto, como o que ele é, no plano mais elementar de sua manifestação puramente individual, mas justamente pelos modos e condições nas quais esta ocorrência pode ser correlacionada, comparada, comensurada com respeito a alguma outra ou a uma série ou classe delas.

4. O “que há” é sempre decorrência da correlação deste algo (sobre o qual falamos, um aliquid) àquilo a que nos reportamos para auxiliar na determinação de sua própria realidade: aquilo que há estará sempre na dependência de um outro algo (um aliquo), seja de que natureza ele for (seja da ordem de um existente, seja da ordem de ser da razão, uma idéia ou conceito). Ora, o que se deslinda aqui, como um horizonte semiótico da compreensão é o fato de que os objetos de nossa experiência dificilmente podem ser concebidos na ordem de uma absoluta originariedade (sua razão de ser não está neles mesmos), mas derivada de um princípio de sua irredutível relatividade com respeito a tudo o mais de outro.

5. Nas imensas discussões entre os “doze zangados jurados” de um belíssimo filme de Sydney Lumet, poderemos encontrar um luminoso exemplo de como a questão sobre o conhecimento de uma questão de fato nos exige, por vezes, uma certa atitude de suspeita com respeito aos fundamentos de nossa certeza acerca daquilo que percebemos: no caso em questão, trata-se de desconfiar das condições físicas do exame dos fatos que uma testemunha alega ter, ao afirmar que presenciou um crime com seus próprios olhos (e que, em se confirmando verdadeira, pode levar um garoto de 18 anos à condenação pela pena capital, pelo fato de haver matado seu próprio pai). Pois bem, o exame sobre a razoável dúvida que possa haver sobre a acuidade visual deste testemunho é ilustrativo do qual pouco fundamentada podem ser nossas impressões mais certas e indubitáveis.

Sydney Lumet, 12 Angry Men (1956)

6. Detenhamo-nos um pouco mais, entretanto, sobre a relação mesma que é constitutiva do modo como conhecemos fatos: acordo de manhã e, da janela de meu quarto, noto que o asfalto da rua em frente tem um aspecto molhado (ele brilha especialmente, em reação à luz matinal). Cabe que nos perguntemos sobre em que sentido esta experiência constitui-se como “fato” com o qual me defronto, assim que desperto: será ele algo de puramente objetivo e independente de minhas inclinações em pensar ou configurar esta experiência, em vários de seus níveis? Será ela assim independente de minhas concepções (e mesmo de minhas inclinações involuntárias) a respeito da ação da luz sobre superfícies? Alheia a meus costumes de perceber quando choveu, dado um certo aspecto manifesto do efeito da água sobre superfícies? Mediante a constatação do fato de que choveu, não estarei eu pronto a assumir uma série de ações decorrentes deste fato? Em cada uma destas admissões, não haveria uma certa noção subjacente de que os fatos não valem por si mesmos, mas pelo que comandam de nossa capacidade para coligar eventos, como parte de uma racionalidade cognitiva?

7. Se estas admissões são justificáveis, assim sendo, um fato depreenderá sua individualidade não de sua singular ocorrência, mas em razão de poder se conectar com outro fato (semelhante ou dessemelhante) ou com aspectos de fatos (qualidades e propriedades parciais que sejam suficientes para se pensar) ou mesmo com as idéias que estes fatos de algum modo ilustram. A modalidade de compreensão que se exprime tendo por objeto não os fatos em si, mas as relações entre eles (diríamos, que exprime o modo de conhecer através de relações entre proposições acerca de fatos) poderia ser chamada de uma modalidade inferencial da compreensão: no caso do sujeito que examina o ambiente e pensa sobre a ação de uma força natural sobre ele, a partir de certos aspectos de sua manifestação presente (o asfalto molhado que significa ou indica a chuva como sua causa), as inferências se definem precisamente como um modo de conhecer coisas ou estados de coisas que se concebem, por sua vez, como um tipo específico de relação entre termos (ou entre proposições que falam destes termos, seja na condição de sujeitos ou de predicados). Ora, é precisamente na ordem inferencial da compreensão que podemos notar como uma certa concepção acerca do signo se torna central para a caracterização de uma concepção discursiva do pensamento.

8. E o que constituiria, em suma, um tal pensamento que se define por ser “discursivo”? O que significa incorporar a noção de discursividade à ordem do entendimento que temos daquilo que nos é exterior (ou mesmo ainda daquilo que se passa em nossa interioridade, como no caso de nossos sentimentos e impressões subjetivas)? Em nosso modo próprio de explorar esta questão, nos valemos do que certos autores definem como sendo algo de essencial à noção mesma de “signo” (sobretudo quando ele é considerado na perspectiva de uma unidade que coliga termos, que faz juntarem-se aquilo que serve pra disparar nossas impressões e o conteúdo que a elas atribuímos) e que se deixa incorporar no modo próprio de sua definição, isto é: a idéia de que o signo caracteriza-se, nos dizeres de Roman Jakobson, como uma “relação de remetimento” (relation de renvoi). Assim sendo, o que caracteriza a discursividade como aspecto de nosso modo de pensar é que não nos detemos sobre os objetos individuais, mas sempre os restituímos a uma relação possível com outras ordens de coisas. 

9. Ao concebermos, enfim, o pensamento como enraizado na noção de discursividade, estamos estabelecendo a dependência entre o que definimos como sendo um pensamento e o caráter de remissão que é próprio, por sua vez, à definição mesma do signo: nos termos em que Peirce define a importância de uma abordagem semiótica dos processos inferenciais, não há cogitação possível na ausência de signos, já que pensar é colocar o que está presente em relação com um ausente, como veremos logo a seguir.

10. Façamos uma breve digressão ilustrativa, para tentarmos vislumbrar com mais clareza o lugar do conceito de signo, no contexto das investigações sobre processos cognitivos e sua materialização em padrões discursivos: pensemos no caso exemplar da lógica dedutiva própria à atividade detetivesca, isto é, própria aos gêneros de raciocínio que visam estabelecer, com base no exame de fatos e no exercício de certas competências inferenciais, a ordem dos fatos que gerou um crime. Enfim, tentemos tomar em causa a prática detetivesca como cristalização de uma modalidade de semiótica que é própria ao modo pelo qual as vertentes lógicas desta disciplina colocaram em questão a noção mesma do signo.

11. O exemplo da lógica detetivesca serve a dois propósitos iniciais de nossa exposição, a saber, falar do conceito de signo enquanto veículo lógico (tendo como caso exemplar, o conceito de signo em Peirce) e, mais tarde, o exame da predominância do que chamamos de “paradigma inidicário”, um fenômeno próprio a uma certa teoria do conhecimento, no modo como a caracterizam certos historiadores das idéias: trata-se de uma certa forma de epistemologia associada a um gênero de racionalidade que opera, por sua vez, a partir do que poderíamos chamar de “vestígios”, e que tem por objeto precisamente esta capacidade de restituição de um quadro de fenômenos, estabelecido a partir de um raciocínio feito em retrospecto (isto é, dos conseqüentes para os antecedentes, dos resultados para suas causas). Este modo de raciocinar é, por sua vez, muito próprio a um certo terreno das cogitações, que se baseia em suposições ou apostas hipotéticas, como é o caso da clínica médica, da arqueologia e da história e (por que não?) daquilo que fazem os detetives, ao solucionar crimes enigmáticos.

12. Para além disto, há o fato de que os elementos que esta forma de cogitação toma em causa são, no mais das vezes, detalhes, aspectos a princípio imperceptíveis a uma sensibilidade não treinada para trazê-los à luz, o que identifica as descobertas detetivescas com certos aspectos do diagnóstico clínico. De fato, a relação entre a clínica e a criminalística se propõe a alguns como a de uma linhagem do raciocínio feito a partir de signos indexicais, que é uma espécie de primeiro campo de provas de uma teoria semiótica.

“Vimos, portanto, delinear-se uma analogia entre os métodos de Morelli, Holmes e Freud (...). Nos três casos, pistas talvez infinitesimais permitam captar uma realidade mais profunda, de outra forma inatingível. Pistas: mais precisamente, sintomas (no caso de Freud), indícios (no caso de Sherlock Holmes, signos pictóricos (no caso de Morelli). Como se explica esta tripla analogia? A resposta, à primeira vista, é muito simples. Freud era um médico; Morelli formou-se em medicina; Conan Doyle havia sido médico antes de dedicar-se à literatura. Nos três casos, entrevê-se o modelo da semiótica médica: a disciplina que permite diagnosticar as doenças inacessíveis à observação  direta na base de sintomas superficiais, às vezes irrelevantes aos olhos do leigo (...). Mas não se trata simplesmente de coincidências biográficas. No final do século XIX – mais precisamente, na década de 1870-80 – começou a se afirmar nas ciências humanas um paradigma indiciário baseado justamente na semiótica.” Ginzburg, “Sinais: raízes de um paradigma indiciário”, pp. 143,151.

13. Em outros regimes da compreensão, entretanto, o problema que se põe ao espírito não diz respeito àquilo “que há” (não corresponde a uma pergunta sobre estados de fato e regimes de crenças subjacentes), mas por uma outra espécie de percurso orientador de nosso entendimento (e das funções aí cumpridas por entidades tais que os signos). Em termos, há modos de compreensão que reconhecem em eventos como textos, sentenças, palavras, discursos: nestes termos, a modalidade quer define a compreensão de tais coisas não é exclusivamente derivada de um conhecimento sedimentado por costumes prévios sobre estados de coisas ou de idéias abstratas que podem ser explicadas por seus correlatos semânticos, mas de toda uma outra ordem de fatores que nos cumpriria examinar, à parte.

14. É bem verdade, por outro lado, que em certas perspectivas das teorias da significação, ainda se concebe o problema da compreensão textual como enormemente fundada em considerações sobre o capital inferencial daqueles que põem os textos em jogo: nas vertentes da semiótica que apostam na atividade da leitura como matriz dos processos de significação, não hã como conceber aquilo que define a atividade de compreender um texto, por parte do leitor, sem levar em conta os processos nos quais ele joga inferencialmente com as relações entre o percurso linear da leitura e as cogitações sobre diversos aspectos do conteúdo ou da significação (factual, moral, estética, narrativa) que ele pode atribuir a estes segmentos de escritura.

15. No texto de Ugo Volli sobre a interpretação, por exemplo, há um entendimento implícito sobre o papel do intérprete, nos modos que lhe cabem de acionar os vários aspectos da significação de uma obra textual (como um romance, por exemplo): é evdente que, neste contexto específico, ainda estamos localizados naquilo que caracteriza, ao menos em parte, uma concepção inferencial dos processos de comunicação e significação. Eles serão decisivos , especialmente quando formos confrontados com o horizonte das teorias pragmáticas da interpretação, por exemplo, na obra tardia de Umberto Eco.

“Quem lê um texto é continuamente chamado a apresentar hipóteses sobre o significado a ser atribuído à superfície expressiva que tem diante de si. Por outro lado, na leitura de um texto narrativo, o intérprete vê-se constantamente antecipando os movimentos do autor, imaginando o que irá acontecer nas fases seguintes da narrativa. Além disso, conforme vimos, para direcionar a interpretação de texto no sentido desejado, o autor apresenta uma série de hipóteses sobre o comportamento interpretativo do leitor-modelo. Para descrever o jogo a dois no qual estão envolvidos o autor e o leitor de um texto, costuma-se empregar a metáfora da partida de xadrez, na qual cada jogador tem que antecipar os movimentos do adversário com base na imagem formada sobre o estilo de jogo do outro; a única diferença com o xadrez, talvez, é que no caso de uma ‘boa’ leitura ambos os jogadores estão interessados em fazer com que o outro vença (não é por obra do acaso que se fala de cooperação interpretativa). Cf. Volli, “Interpretação”: pp. 153,154

16. Ainda assim, estamos falando de um regime da compreensão para o qual os objetos que significam assim o fazem na condição de se constituírem como “textos”: que se entenda, em primeiro lugar, que nos reportamos a um tipo de manifestação que (uma vez definida enquanto tal) se apresenta em substâncias significantes que são enormemente variáveis entre si; é evidente que reconhecemos usualmente esse tipo de manifestação em casos bem específicos de materiais aos quais chamamos mais naturalmente de “textos”, como os enunciados verbais, as formas narrativas, as estratégicas retóricas e coisas que tais. Do ponto de vista de sua expressão, entretanto, as manifestações de um sentido textual podem manifestar-se em componentes semióticas outras, tais como o gesto, a imagem, a fisionomia, a expressão corporal: um primeiro aspecto de uma abordagem semiótica da experiência que define um regime textual do entendimento é o de que as matérias que servem para significar, neste regime específico, podem funcionar como enunciados sem que se definam com uma articulação de palavras, por exemplo.

17. Ao menos num nível mais elementar da caracterização deste segmento de uma estrutura elementar da compreensão que tem por objetos as formas textuais, o melhor modo de explanar este princípio do sistema talvez seja aquele que chama em causa a noção de “código”, no modo como Umberto Eco e Roland Barthes assimilaram esta idéia para explicar os fundamentos de vastas porções do fenômeno da significação: neste caso, já vimos antes que, ao assumir que um segmento determinado dos fenômenos culturais (como os gestos, a expressão corporal, o campo das imagens, a música popular, o cinema, dentre tantos outros) pode ser assimilado à ordem da comunicação, as teorias semióticas fixam justamente na admissão de um sistema das significações subjacente a cada uma destas manifestações a própria razão de ser de uma investigação sobre os processos culturais, em geral.

18. Em especial, quando examinarmos com mais vagar as concepções de signo, nas vertentes mais associadas à linguística, ali vemos emergir com força a noção de que o sentido característico das expressões verbais é uma decorrência dos poderes constringentes de um código ou convenção, características, por sua vez, do sistema da lingua. E é assim que a comunicação ordinária de pensamentos, os efeitos trópicos do discurso da poesia, a comunicação por gestos, os ritos e costumes, os símbolos religiosos, enfim, um universo inteiro de manifestações da cultura pode ser assimilado, do ponto de vista de seu estudo sistematico, ao princípio do sistema ou à idéia dos códigos correlativos a cada uma destas manifestações.

19. Em boa medida, o modelo da compreensão que faz apelo à idéia de código, nas teorias da comunicação verbal, se manifesta em relativa independência daquele que caracteriza as modalidades inferenciais de nossa competência ao lidarmos com signos. Em primeiro lugar, devemos considerar uma importante diferença que se estabelece entre os dois modos do entendimento que se manifestam no princípio da dependência e no do sistema: no que respeita uma definição sobre a natureza mesma dos signos, em cada destas perspectivas, esta distinção entre os dois princípios atualiza uma distinção, própria à filosofia dos signos dos filósofos medievais (sobretudo, Agostinho), e pela qual aprendemos a diferenciar os signos naturais (supostamente próprios ao modo inferencial) e os signos artificiais (ou convencionais), por sua vez característicos, mas não exclusivos, da comunicação lingüística.

20. No caso das modalidades textuais de compreensão, não se supõe (ao menos, em geral) que as condições de verdade (enquanto relativa a uma ordem de fatos ou mesmo de classes de fatos) sejam requisitos da compreensão mesma: não é suposto nenhum conhecimento de material de fato, como pressupostos para a validade de uma proposição ou enunciado em verdade, podemos estabelecer a diferenciação entre significados proposicionais e sentenciais, precisamente no nível da distinção entre o que é exigido para que aceitemos a validade de uma proposição, na perspectiva das inferências, e das sentenças, no plano do entendimento textual: grosso modo, diríamos que a requisição de conhecimentos, no ultimo caso, diz respeito a condições que são internas à própria ordem do discurso.

21. Quando falamos uma língua ou compreendemos alguém que se expressa verbalmente, o princípio no qual a expressão e o entendimento do discurso se manifestam não se reduz àqueles pelos quais identificamos a compreensão da relação entre fatos. Quando compreendemos uma língua, no modo como ela se exprime em uma ocorrência qualquer (no fato de que alguém nos diz alguma coisa), não há quaisquer fatos ligados à expressão que determinem nosso entendimento, mas um conjunto de mensagens cujos conteúdos estão determinados no modo como uma regra gramatical fixa a referência de uma ocorrência.  Se o princípio da implicação é característico de nosso modo de conhecer fatos (através de mecanismos de implicação lógica), no caso da produção das aparências, estamos diante de um mecanismo produtor de sentidos textuais e sua compreensão é assunto de uma competência específica para este fim.

22. Pensemos agora em outras ordens de questões que são, a nosso ver, correlatas à compreensão de sentenças e palavras: quando consideramos os modos como os indivíduos interagem em sociedade, percebemos que um outro tipo de problemas irrompe como característico de uma concepção da realidade ligada aos mecanismos de compreensão. Do mesmo modo que a consciência acerca da realidade exterior, o comportamento social também não é um conjunto de fatos que possam ser analisados como se constituíssem fenômenos isolados, pois formam um verdadeiro sistema das ações que os indivíduos conduzem em contexto social, e que se estabelece como uma espécie de maquinaria para a produção de simulações.

23. Apenas a título de exemplo, pensemos em um caso mais do que exemplar da produção social das aparências, a saber, o jogo da sedução amorosa (que tem correlações estruturais com todo ato retórico de persuasão): quando desejamos impressionar alguém, procuramos muito simplesmente produzir uma imagem de nós mesmos para os outros, levando em conta todo um “pacote sensorial” (um conjunto de informações sobre como nos apresentamos, como nos vestimos, que gostos temos, como andamos, nos sentamos, como falamos, numa lista sem fim daquilo que supomos serem nossos atributos mais importantes), e que apresentamos como parte de uma identidade que queremos fazer crer ao outro como sendo a “nossa”.


Elementary Dating, de Rowan Atkinson (2005).

24. Certos ramos da psicologia social, fala-se na idéia de uma dramatização através da qual os indivíduos exprimem seu modo de se inscrever na vida social (e, por conseqüência, buscar a aprovação de seus semelhantes). Estas formas ou “técnicas” ligadas a nosso modo de apresentação social funcionam em uma estrutura que é necessariamente dúplice: de um lado, eles são um conjunto de coisas que fazemos para produzir uma imagem de nós mesmos para o outro (neste sentido, o processo pode ser abordado na perspectiva de sua dimensão produtiva, em seu aspecto de atividade daquele que lança mãos destes recursos); de outro lado, entretanto (o mais importante, na consideração de sua dependência com as modalidades da compreensão), estas formas de simulação prevêm, por assim dizer, uma instância de sua decifração, no nível da recepção destes sinais. Se assim não fosse, todo este conjunto de ações se perderia no nível de uma pura produção das aparências, mas sem qualquer efeito: sem que elas repercutam sobre uma recepção que seja capaz de identificar as informações expressas com o pacote de valores que identifica o sujeito de algum modo, estas ações se perderiam no vazio.

Leitura Obrigatória:
Guinzburg, Carlo. “Sinais: raízes de um paradigma indiciário”. In: Mitos, Emblemas e Sinais.
Volli, Ugo. “Interpretação”. In: Manual de Semiótica.

Próximas Leituras:
Peirce, Charles S. “Questões sobre certas faculdades reivindicadas pelo homem” e “Algumas conseqüências de quatro incapacidades”. In: Semiótica.