Queridos,
Segue abaixo o programa da disciplina, com a descrição dos conteúdos programáticos deste semestre. Leiam com atenção e tragam suas questões para nosso primeiro encontro.
Ad,
Benjamim
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
INSTITUTO DE ARTES E COMUNICAÇÃO SOCIAL
DEPARTAMENTO DE ESTUDOS CULTURAIS E MÍDIA
Disciplina: Introdução à Semiótica (GEC 107)
Professor: Benjamim Picado
Horário: 4as, das 18 às 22:00
Horário: 4as, das 18 às 22:00
Local: Sala C312 (IACS)
Ementa: Aspectos históricos das teorias do signo (semiótica e semiologia). Conceitos fundamentais da semiótica e do conceito semiótico de comunicação (signo; significação; interpretação; aspectos pragmáticos da significação; signo, alegoria e metáfora). A linguagem e o processo de comunicação. Regimes semióticos elementares: a inferência e a compreensão textual; signos naturais/signos arbitrários; signos verbais e não-verbais. O signo e o processo de sua apreensão: signos e textos.
Apresentação: Há uma rubrica genérica sob a qual os saberes que tratam da dimensão simbólica do entendimento humano foram assimiladas aos estudos sobre fenômenos comunicacionais: a tal título, disciplinas chamadas de semiótica ou semiologia figuram nos cursos de comunicação e em outros ramos das humanidades (letras e lingüística, por exemplo) como sendo os espaços nos quais se verá uma discussão sobre os processos de estruturação simbólica da realidade e os modos como estes podem auxiliar as teorias da comunicação; em outros casos, define-se que estas disciplinas estudam os processos de comunicação como se fossem fenômenos de linguagem.
No entanto, dois equívocos emergem desta aparente naturalidade com a qual as disciplinas do signo são incorporadas ao universo comunicacional: em primeiro lugar, a idéia mesma de que as teorias semióticas sejam, essencialmente falando, uma das teorias da comunicação: como veremos com mais vagar no início mesmo de nosso percurso esta ilusão sobre o lugar das teorias da significação em nosso campo é o efeito de um percurso histórico no qual certas tradições das ciências sociais assimilaram os instrumentais, conceitos e métodos das ciências da linguagem, para a compreensão de determinados fenômenos característicos das ciências humanas (o parentesco, o inconsciente, as trocas simbólicas, os mitos).
Decorrência disto é que se perde de vista que a reflexão sobre nossos modos de compreender a realidade (e mesmo de inventá-la) decerto invoca o papel que os signos de têm, nesse mesmo contexto: o que não chega a implicar, contudo, que a semiótica seja definida como disciplina central ou régia na definição destes problemas. A origem histórica dos muitos vocábulos pelos quais se designou historicamente este tipo de saber (especialmente, no último século, como Semiótica e Semiologia) deixa-nos entrever uma extensa latitude de problemas alcançados por estas teorias: consideramos aqui casos tão afastados entre si como o do estudo dos sintomas clínicos, de um lado, do ordenamento simbólico das sociedades e das práticas humanas, de outro, a interpretação de textos sagrados e ainda o da estruturação lógico-discursiva do pensamento.
Nestes termos, a caracterização de uma teoria geral da significação (é nestes termos que Umberto Eco fala, em vários de seus livros, da possibilidade de uma Semiótica Geral) implicaria precisamente a hipotética unificação epistemológica de todo este imenso campo de discursos teóricos: em todos eles, vislumbraríamos uma espécie de concepção sobre o caráter último de construtividade simbólica do mundo, e que seria a demarcação liminar de toda nossa experiência da realidade, no modo como a interpretamos, nos exprimimos sobre ela, a representamos, ou mesmo como simplesmente a sentimos ou a percebemos.
Isto posto, notamos que as disciplinas da comunicação acolheram, de maneira praticamente integral, esta vocação fundacional dos saberes semióticos (a idéia de uma construtividade do mundo pelos signos), sem se aperceber daquilo que parecia mais apropriado a uma abordagem semiótica dos processos e estruturas expressivas mais próprios ao universo da comunicação mediática. Assim sendo, reconhecemos tranquilamente as linhagens históricas, mais ligadas ao esforço de unificação das disciplinas do sentido e da significação, ao mesmo tempo em que ressaltamos os aspectos desta constituição teórica que nos afetam mais de perto, no campo da investigação comunicacional.
Entre outros casos, os esforços de Roland Barthes e de Umberto Eco, no sentido da uniformização teórica e metodológica das disciplinas semióticas, na sua proximidade com o universo da comunicação, exemplificam a propriedade deste último ponto: de um lado, reconhecemos nestes dois autores as referências às fontes lingüísticas do problema da significação, na vertente do estruturalismo (Barthes), assim como o encontro de questões de narrativa com os problemas das teorias da interpretação textual, das teorias da recepção e da filosofia da linguagem coeva (em Eco); notamos igualmente em ambos a inflexão que estas questões teóricas assumem, uma vez que o olhar desta análise se redobra sobre as estratégias discursivas e retóricas próprias (mas não exclusivas) à comunicação mediática.
Assim sendo, a introdução de um viés semiótico, no contexto histórico das disciplinas do sentido (gramática, semântica, sintaxe, morfologia, hermenêutica, poética, retórica, dentre tantas outras), exibe um diferencial que tem correlações bastante graves com a interrogação aos fenômenos e produtos que tipificam, por sua vez, uma cultura tão fortemente marcada pela influência dos meios de comunicação de escala massiva (sendo que as primeiras incursões de Barthes e Eco nos fornecerão as mais ricas pistas e conseqüências teóricas e analíticas para esta exploração).
Conteúdo Programático:
1. Introdução: Os Signos e a Lógica da Cultura: a virada linguística nas ciências humanas
1. As matrizes semióticas de uma “lógica da cultura” (Eco, Lotman e Kristeva);
2. A Semiótica no contexto das disciplinas da comunicação:
a. O conceito semiótico de comunicação (Volli)
b. Das mitologias à ideologia como estratégia sígnica (Barthes);
c. A Semiótica como teoria das economias interpretativas (Eco).
2. Elementos de Semiótica: os fundamentos semiósicos da compreensão
2.1 Signo Semiológico/Signo Linguístico; Signo Semiótico/Signo Lógico:
a. O conceito semiótico de signo e a estrutura elementar da compreensão:
a.1. compreendendo relações entre fatos (signos e inferência);
a.2. compreendendo relações entre proposições (signos e textos)
b. As duas grandes linhas da concepção semiótica sobre os signos:
b1.. signos e pensamento discurso (semiosis e logos, em Peirce);
b.2. signos e convenção social (o arbítrio da significação, em Saussure)
2.2. Veículos e fins da significação: significante, fundamento, significado, sentido e Pragmática:
a. Da confusão entre os signos e seus veículos: entre o significante e o fundamento:
a.1. a noção de veículo lógico da semiose: o fundamento (ground), em Peirce;
b.2.. a inevitável materialidade da significação: o significante, em Saussure.
b. Significado e metafísica da referência: signos e aquilo “que há” (Goodman, Quine e Eco);
b.1. o estatuto semiósico da realidade: que entidades são os significados?
b.2. sinal, sentido e referência, na lógica semântica de Frege;
b.3. as formas do conteúdo, na semântica estrutural (Hjelmslev/Greimas)
c. De que modo significamos: os modelos semânticos, em Eco:
c.1. sentido direto e o modelo semântico do dicionário;
c.2. pragmática e semântica textuais e o modelo da enciclopédia.
Procedimentos Didáticos:
O curso será estruturado inteiramente a partir das exposições do docente, cujas notas de apoio estarão disponíveis aos alunos ao final de cada aula para consulta de todos, na pasta da disciplina no setor de cópias do Instituto ou preferencialmente no blog da disciplina (www.semioticagec107.blogspot.com). Para o bom acompanhamento das aulas, é mais que recomendável que a leitura dos itens bibliográficos de base esteja em dia, antes de cada exposição temática.
Formas e Critérios de Avaliação:
A avaliação de desempenho da disciplina compreenderá vários itens para seu exame, por parte do docente, divididos da seguinte maneira:
1. 50% da nota final da disciplina será atribuída, através de uma avaliação escrita, versando sobre as unidades do programa, ao final do semestre (as formas específicas deste exame serão objetos de uma exposição detalhada, no momento da apresentação deste programa, no início do semestre);
2. 40% da nota final será atribuída através de avaliações parciais, em forma escrita, sobre temas a serem definidos no decorrer da disciplina (as formas específicas deste exame serão objetos de uma exposição detalhada, no momento da apresentação deste programa, no início do semestre);
3. 10% da nota final da disciplina será atribuída por critérios de participação e de engajamento, sob várias formas de aferição (assiduidade, pontualidade, envolvimento em sala de aula, iniciativa, atenção às exposições, respostas às questões propostas sobre os tópicos da disciplina durante o semestre, entrega das fichas de leituras, dentre outros).
Bibliografia:
BARTHES, Roland. “A retórica da imagem”. In: O Óbvio e o Obtuso (trad. Lea Novaes). Rio: Nova Fronteira (1990): pp. 27,44;
BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia (trad. José Paulo Paes e Izidoro Blikstein). São Paulo: Cultrix (1988);
COLLINI, Stephan. “Introdução: interpretação terminável e interminável”. In: Eco, Umberto. Interpretação e Superinterpretação (trad. Mônica Stahel). São Paulo: Martins Fontes (2005): pp. 1,26;
ECO, Umberto. “Introdução: rumo a uma lógica da cultura”. In: Tratado Geral de Semiótica (trad. Antonio de Paula Dainesi e Gilson César Cardoso de Sousa). São Paulo: Perspectiva (1997): pp. 1,38;
ECO, Umberto. “Os códigos visuais”. In: A Estrutura Ausente (trad. Pérola de Carvalho). São Paulo: Perspectiva (1976): pp. 98,121;
ECO, Umberto. “O leitor-modelo”. In: Lector in Fabula (trad. ). São Paulo: Perspectiva ( ): pp.
ECO, Umberto. “Premissa”. In: O Signo (trad. Maria de Fátima Marinho). Lisboa: Presença (1990): pp. 7, 20;
ECO, Umberto. “Signo e inferência” e “ Dicionário VS. Enciclopédia”. In: Semiótica e Filosofia da Linguagem (trad. Annamaria Fabris e José Luiz Fiorin). São Paulo: Ática (1991): pp. ;
ECO, Umberto. “Sobre o ser”. In: Kant e o Ornitorrinco (trad.Ana Thereza Vieira). Rio: Record (1998): pp. 17,54;
FREGE, Gottlöb. “Sobre sentido e referência”. In: Lógica e Filosofia da Linguagem (trad. Paulo Alcoforado). São Paulo: Cultrix (1978): pp. 59,86;
GOFFMAN, Erwin. “Introdução”. In: A Representação do Eu na Vida Cotidiana (trad. Maria Célia Santos Raposo). Petrópolis: Vozes (1999): pp. 11,24;
GUINZBURG, Carlo. “Sinais: raízes de um paradigma inidiciário”. In: Mitos, Emblemas, Sinais: morfologia e História (trad. Federico Carotti). São Paulo. Cia das Letras (1990): pp. 143,180;
HJELMSLEV, Louis Trolle. “Signos e Figuras” e “Expressão e Conteúdo”. In: Prolegômenos a uma Teoria da Linguagem (trad. José Teixeira Coelho Neto). São Paulo: Perspectiva (1975): pp. 47,65;
KRISTEVA, Julia. “A Semiótica”. In: História da Linguagem (trad. Maria Margarida Barahona). Lisboa: edições 70 (1974): pp. 409,448;
PEIRCE, Charles Sanders. “Questões sobre certas faculdades reivindicadas pelo homem” e “Algumas conseqüências de quatro incapacidades”. In: Semiótica (trad. José Teixeira Coelho Neto). São Paulo: Perspectiva (1990): pp. 241, 282;
QUINE, W.v.O. “Sobre o que há”. In: Existência e Linguagem: ensaios de metafísica analítica (trad. João Branquinho). Lisboa: Presença (1990): pp. 21, 39;
SAUSSURE, Ferdinand de. “Introdução”. In: Curso de Linguística Geral (trad. José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix (2000): pp. 7, 48;
SAUSSURE, Ferdinand de. “Princípios Gerais”. In: Curso de Linguística Geral (trad. José Paulo Paes e Izidoro Blikstein). São Paulo: Cultrix (2000): pp. 79, 116;
SILVA Fº, Waldomiro. “O conceito de interpretação em Umberto Eco”. In: Textos de Cultura e Comunicação. 28 (1993): pp.